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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A ARTE DE RECITAR A BATATINHA

Ana tem vagas lembranças de quem foram alguns de seus antepassados. Sabe que teve uma bisavó indígena, por parte da mãe da mãe. Que a maioria era imigrante da Itália. E que foi nos idos de 1889 que os primeiros deles aportaram na terra prometida. Vindos de um lugar cinza desesperança. Ela conheceu um avô, filho desses aventureiros corajosos. Não fosse o desacorçôo, seria bom fazer umas contas e oferecer os números, para o sobressalto e admiração de todos. E contar que, de lá pra cá, houve momentos de muita cor, muita vida, muito chão a ser desbravado, neste país de tudo por fazer.
É nisso que Ana pensa quando se vê atribulada e desiludida com os recomeços. Às voltas com as novidades que os jovens disseminam, as tais drogas. Fica sem saber como lidar com o desencanto. E tem a perfeita noção do horror que a coisa causa, das pessoas comentando, da impotência em lidar com tanta novidade ruim. Pra ela, o menino tem medo de virar homem e esconde-se, ampara-se naquelas coisas que trazem a perdição.
Do tempo em que se viu menina, sem escola, que a falta de dinheiro fechava as portas de mais saber e conquistas, quando aprendeu que as coisas vêm na medida em que se aproveita e delas se faz bom uso, Ana não tinha vivido, ainda, tanto desperdício. A vida que foi dada e herdada, de geração para geração, nunca antes tinha sido tão desvalorizada. Diz que é por causa do prazer. Diz que. Ela discorda. É por causa do dissabor de viver!
Em algum momento, na hora de passar as informações de trás, pros da frente, deu errado. Fica se perguntando sobre o momento e a desinformação do fato. Apesar de tão concreto em cada ato. Porque aqueles que se aventuraram e passaram até três meses em porão de navio, com fome, com sede, doentes, agarraram-se à vida. Estes, que herdaram o bem bom, têm medo da vida. São o próprio vazio. Só desesperança.
Vê o menino chegar da rua, sorrateiro. O olhar, ele o traz no chão. As mãos, inertes e caídas, apontam para o chão. Tão magrinho. Onde aquele garotinho amado que fazia tanto gosto de olhar? Que era só gracinha e bem querer? Agora, à mercê de sua insignificância e angústia de não ser.
Ouve a sirene da polícia passando longe. Se fosse solução.
Ouve o sino da igreja badalando a hora, chamando pra missa. Se fosse solução.
Ouve seu coração. Curva sua cabeça. Percebe o vazio tomando conta de sua vontade e levando suas promessas.
O avô era pessoinha muito humilde. Chegava a incomodar. Ana lembra que pensava nunca vou ser assim, vou saber mostrar minha vontade. Na cidadezinha do interior, onde nasceu e morreu, aos oitenta e três anos, o avô era conhecido como um homem trabalhador e bom. Ana pensava pra mim eu quero mais. Quero sempre saber se gosto mais do amarelo, ou do vermelho. Sem essa de tanto faz.
A mãe era pessoinha pros cocos, decidida e brigadora, incomodatícia. Devia chamar Aparecida. Adjetivo. Só dava ela. Ana não gostava. Ficava acabrunhada. Perto da mãe, se se soltava, apanhava. Sem direito de ser feliz. Tem mãe assim. Esquece que filho cresce e se mantém incomodado de estar perto de quem tudo vê, tudo cobra. Ana pensava que não queria ser mãe assim. Mas foi.
A cidade pequena é aconchego, é história. Cada canto guarda uma saudade. Também não foi poupada. Também nela cidadezinha se espalha a novidade da perdição das drogas. Já não se comenta mais sobre aquela vez daquele primeiro acidente que três morreram tão jovens, alcoolizados e irresponsáveis, na estrada de chegada, vindos da cidade vizinha. No chão do carro retorcido, sujo de sangue, papelotes do pozinho... Já não se comenta aquele, porque tantos outros se seguiram.
Na cidade grande, a vida tem mais bravata. O tempo passa depressa. Tem chance de melhorar. Ainda bem que se mudaram. Na cidade grande, há menos falação. As pessoas quase não se vêem. As conhecidas. Porque gente tem demais, por todos os lados, com tantos problemas.
Só que, dia de reunião com familiares, com tanto pra conversar e saber e contar, é dia de sobressalto e chateação. Porque tem cobrança. Sempre se sabe de alguém que sabe e espalha. Ana acha certo. Tem mais é que contar tudo pra todos. Mas nem por isso dói menos. Por causa do jeito. Por causa dos olhares. Porque a culpa de ver o errado dos outros, olhando por cima, deixa em sobressalto o coração de quem não tem solução, de quem não encontra a saída.
Ana olha no espelho e não vê seu brilho.
A pele. O olho. O jeito. Onde o brilho?
Junto com o sossego, certamente.
Ana cozinha e acha sem gosto.
Já não tem sede de nada, nem lê, nem sai pra espairecer. Dançar, então, nunca mais.
Também ela à mercê do vício.
Co-dependente.
O menino dorme no sofá. Chegou de madrugada. Ana, um bagaço. Ele, outro bagaço. Ana se lembra do poema O menino de sua mãe, de Fernando Pessoa. Poema que a professora velha e triste, solteirona, exigiu que ela decorasse e recitasse, na quarta série do primário. Dez anos recém feitos, uma mocinha, Ana nunca esqueceu o poema. Ficou gravado. Agora é uma gravação em brasa. Principalmente a sentença que paira sobre sua cabeça, a tragédia dos versos finais: Jaz morto e apodrece/ O menino de sua mãe.
Sem perceber, repete o poema, em voz alta, como se rezasse uma ladainha. Mas no pensamento o poema se repete, a toda hora, todo santo dia. Desde o dia em que a prima tinha vindo contar que o menino andava aprontando das suas e que os coleguinhas eram barra pesada. Gostava mais dos versos Filho único a mãe lhe dera/ Um nome e o mantivera:/ O menino de sua mãe.
A pergunta que Ana se faz sobre ter sido relapsa e não ter percebido que o menino se perdia é doída, porque é sem resposta. Onde foi que ele se perdeu? Em que tempo? Em que momento? Onde eu estava?
Quando era menina, não tinha televisão. Rádio não tinha atração. Já a rua era tudo de bom. Ana brincava com os vizinhos, crianças das mães amigas de sua mãe. Na rua, literalmente. Quando passava um carro, era um acontecimento. Paravam a brincadeira, saiam do caminho e ficavam olhando com olhos compridos. E muitos gritavam. Os mais afoitos, de mães menos bravas, corriam atrás. Era uma festa.
Enquanto isso, as mães conversavam, na calçada, sentadas em cadeiras que traziam de casa. Ana era briguenta e arrelienta, como sua fama apregoava. Palavras preferidas da mãe. Era comum que as crianças continuassem as brincadeiras, sempre que Ana emburrava. Chateada, ficava por perto pra ver se a mãe tomava as dores. Qual! Prestava, então, atenção nas conversas dos adultos. Que remédio? Depois, já na cama, pensava nos pedaços de conversa.
A mãe do pai morreu de doença ruim. O avô, quem diria, quietinho e humilde, tinha uma namorada; a assanhada da Iva. Mas ele era viúvo há tanto tempo! Ana não sabia o que era viúvo. Não podia perguntar. Criança incomodava muito na época em que Ana era uma. Criança só era bom pra mostrar pros outros: vestir feito boneca, querer que se comportasse feito boneca, tratar como se fosse sem vida, feito boneca.
O avô não tomou remédio quando descobriu que tinha lepra. O menino já era grandinho na época. O remédio era bom pra doença estagnar e não trazer seqüelas. O avô rejeitou, fez que bebeu e não bebeu, e amputaram suas duas pernas. Ficou lá, sozinho, amargando o resto de vida, na cama.
O menino não vive sem o falso remédio, a droga que é proibida e comprada na surdina. Fala que vive, mas não vive. Que desatino. O remédio do menino amputa a vontade e a liberdade dele.
Quando os antepassados vieram da Itália, sofreram muito. Trabalharam no lugar dos escravos. Mas vieram porque assim quiseram. E venceram. Compraram fazenda, depois de longo tempo. Que os filhos venderam, quando os pais morreram. Daí, tiveram de cavar o próprio sustento, porque a herança era pouca e os irmãos eram nove. Trabalharam e sustentaram as famílias que eles formaram. E deram exemplo pros filhos entregarem pros filhos. Sem vício, sem perdição. Pouco conseguiram pra si. Morreram pobres. Isso, do lado da mãe. Já do lado do pai, foram só subindo os degraus. Mas o avô, o pai do pai, na sua humildade, contentou-se com pouco.
Quando Ana está só e se deita, pra esperar a noite passar, pra esperar o menino voltar, ela afasta Fernando Pessoa e se fia na fé. Reza a batatinha quando nasce... Pensa nos que se foram, na lida deles, e acha que a sua é lida inglória. Porque é luta. E o inimigo é sorrateiro e sabe vencer resistências.
Ana reza a batatinha quando nasce porque sabe que o menino se deita com a namorada que está esperando menino. Encolhidinha na sua cama, Ana ousa pensar quem sabe se esparrama pelo chão a herança que os antepassados trouxeram, sofrida, de uma terra que não tinha guarida pros seus filhos, naqueles tempos difíceis? Batatinha quando nasce, esparra a rama pelo chão... E tem raça essa rama... Só vai perdendo a força da fé.
Escrito num domingo de janeiro de 2007

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

MEU MODELO DE VELÓRIO

Quero deixar registradas as minhas exigências para que meu velório seja um evento que me deixe usufruir (uma última vez!) de dignidade. Quero a palavra silêncio escrita em cartazes distribuídos pelas paredes do local. Deitada, quero um travesseiro sob minha cabeça, para dar ao meu rosto um aspecto melhor, um ângulo que não deixe em evidência os orifícios do nariz. Estarei circundada pelos candelabros, contendo velas acesas, tendo um crucifixo ao fundo, e terei sobre meu corpo uma mortalha, porque não quero flor dentro do meu caixão. Só vasinhos de crisântemo, aquelas alegres e coloridas flores plantadas e vivas, espalhados no chão, rodeando o esquife, para quebrar o clima tenso e cinzento da presença da morte.
Já vi e já estive envolvida com a morte. Mesmo quem nega, tem por ela o maior respeito, pois não há perdão: seu nome é certeza. As expressões ‘encontrou-se com a indesejada’; ‘chegou a sua hora’; ‘está morto’; ‘deixou esta vida’; ‘partiu desta para melhor’ e outras tantas mais trazem lembranças diferentes, dependendo da história de cada um de nós, mas têm um mesmo significado que é a remissão para a dor, para a impotência e para o sofrimento.
A lembrança de qualquer velório ou enterro é uma lembrança tão marcante, tão impregnante, que defendo a idéia de que devemos lidar melhor com o evento. Em lugares mais civilizados, existe o mestre de cerimonial, oferecem-se serviços de apoio, agendam-se nomes de pessoas que pretendem fazer homenagem ao morto... São ações programadas para dar suporte burocrático à festa. Palavra usada aqui no sentido figurado, com a idéia de ‘episódio fora do comum, extraordinário’, citado pelo filólogo Houaiss, no seu dicionário.
Em recente velório, constrangida, fui aproximando-me da Capela e, com o coração em sobressalto, entrei com a pretensão de ir até perto do caixão e prestar minha solidariedade aos familiares. Havia uma pessoa, um Pastor evangélico, e uma Bíblia era lida, enquanto os presentes deixavam-se ficar no mesmo lugar, à espera de que aquela leitura tivesse fim. Assim que terminou, uma senhora se pronunciou e, a exemplo do que fez o outro, também apoiou-se na Bíblia e leu, leu, leu... Informou, porém que, como a mãe do falecido, ela também era católica. Ou seja, trouxe para o ambiente sua indignação por ter tido um ambiente católico ‘invadido’ por um evangélico! O que sei e vi foi que os dois juntos se apossaram de hora e meia do tempo de convivência que deveria ter sido utilizado pelos amigos e familiares que chegavam e constrangiam-se, sem saber como agir.
Odeio chegar em velório e encontrar as pessoas em pé, fazendo de conta que ouvem alguém que lê um texto que não é capturado nem pela obtusidade dele leitor, quanto mais por quem não se deu ao trabalho de ir até lá para ver alguém ler... Tomei uma decisão: exijo respeito! No meu velório apenas o padre vai entrar e encomendar e benzer meu corpo (quero entrar no céu de alma limpinha!) e pronto! Minha estratégia para que não comecem a azucrinar os meus chorosos convidados será um som, previamente instalado, que será acionado, no último volume se for preciso, assim que alguém abrir a boca para se dirigir ao grupo todo. Se reclamar, é só dizer que era uma última vontade da falecida! Nem pensar! Não quero ninguém querendo se fazer, achando que é o maioral, no meu velório! E tem os cartazes... Lembra-se dos cartazes e da palavra silêncio? Pois é, será um dia para as pessoas se lembrarem que, dali para a frente, só estarei viva no coração e no pensamento delas. Será o meu dia, não quero ninguém ofuscando minha importante saída de cena!
Escrevo em tom de brincadeira, mas a minha aversão verdadeiramente não é calcada na minha vaidade. Acho o momento e as circunstâncias tão sofridas que aquelas palavras improvisadas e desarticuladas, no improviso, afetam-me, revoltam-me, indignam-me... Quem sabe as palavras adequadas a serem ditas e, assim que proferidas, capazes de aplacar o sem jeito, a desesperança, a dor da perda? Ninguém, com certeza! Aquela hora, exige abraços e silêncio e lágrimas emocionadas. Cada um com suas lembranças focadas em seus momentos com a pessoa que acabou de encerrar sua história nesta dimensão...
Quero deixar registrada a minha gratidão aos que comparecerem e prometer que os esperarei com honras e festa, no céu, para compensar terem deixado seus afazeres agradáveis e obrigarem-se a assistir ao meu último evento, um tanto quanto desagradável.

(Escrevi em dez de 2007)

A ARTE DE FAZER CHÁ ENFEITADO

No fogão aceso, a caneca preta, com água pela metade, recebeu o preparado de sementinhas de cravo, de erva-doce e de pedacinhos de canela. Ana tinha resolvido dar um tempo nos seus afazeres para beber chá. Sem paciência para esperar a água ferver, voltou para a sala, onde, em frente ao computador, envolveu-se com seus textos e correspondência eletrônica.
Quando se lembrou e correu em direção ao fogão, a caneca ainda tinha um restinho de água, mas achou melhor acrescentar mais. Prometeu aos seus botões que não iria bobear, e dirigiu-se, novamente, para o computador. Envolvida, quando se lembrou do chá, tinha secado mais da metade da metade que ela completara de água. Resolveu beber o que sobrara.
Pegou uma caneca de louça que estava na pia, ajeitou a peneirinha sobre ela e despejou o líquido fumegante. Ao retirar a peneira, tomou um susto, deparando-se com um algo boiando no líquido dentro da caneca. Eca! Um bichinho, todo pernas e braços, bem branquinho, tinha sido pego na armadilha da morte, justamente na caneca onde havia despejado seu chá: o líquido fervente aniquilou a vidinha de uma coitada de uma perereca!
Ana ficou arrasada. Pensava em se deliciar com um chazinho, no entanto, o destino cruel, da perereca, deixou acontecer, para desgosto de Ana e prejuízo da dita cuja, um trágico acidente!
Sensibilizada, não teve como escapar dos pensamentos lúgubres que se encaminharam para as veredas da finitude da vida e da fragilidade das coisas... Logo ela que é tida por si mesma como uma criatura forte, de muita ação. Entrega-se a um chazinho de vez em quando, é verdade, mas nem por isso é daquelas que se deixam abater por pouco.
Continuou com o coração apertado, com os pensamentos enlutados passeando pelos labirintos do seu cérebro. Continuou ainda assustada, sofrida e constrangida por ter causado a tragédia, enquanto despejava, na pia (a mesma pia que era o local predileto da perereca enquanto gozava de vida!), o chá com acompanhamento.
Aproveitou para lavar, com bastante cuidado, as vasilhas que voltaria a usar, porque, decididamente, não iria abdicar do chá. Ficou imaginando se não tivesse se dado conta e bebido o chá com perereca! Argh! Apesar delas serem inocentes e velhas companheiras, e em grande quantidade, e de adorarem fazer malabarismos, saltitando pelas pias da sua casa, uma coisa era a Ana conviver pacificamente com elas e outra, bem diferente, era tomar chá enfeitado com uma delas.
Ainda abalada pelos últimos acontecimentos, muito compenetrada e cuidadosa com as criaturas que conhece (a perereca era praticamente uma hóspede!), programou, para a falecida, uma cerimônia de despedida. Em dobradura, urdiu um barquinho de papel alumínio, que serviu de ataúde para o corpinho horrorizado. Em seguida, Ana foi aos dois banheiros da casa e contou a todas as outras pererecas inquilinas, em voz alta, o que tinha acontecido. Emocionada, explicava que não tivera a intenção e que se sentia muito mal pelo acontecido e coisa e tal, e tal e coisa. E que aproveitava para dizer que o velório estava em andamento, na cozinha, e que o cortejo do enterro seguiria dali a vinte minutos.
Pareceu que a falecida não era muito bem relacionada no pedaço, pois não apareceu uma viva alma. Mesmo assim Ana esperou e não providenciou o ato subsequente até que o tempo estabelecido terminasse, conforme havia alardeado. Nesse meio tempo, fez e deu cabo do novo chá.
Quando chegou a hora marcada e anunciada, hora de dar seguimento à cerimônia, enquanto deixava a cozinha e saía porta a fora, com o ataúde-barco-de-papel-alumínio na mão direita, resolveu colocá-lo, bem visível num galho da mangueira que faz sombra na sua cozinha.
Achou a idéia boa, por dois motivos: adiou o enterro; e deu mais uma oportunidade para quem quisesse se despedir da pobre criaturinha.
A cozinha da casa de Ana tem duas janelas. Uma na parede onde fica a pia: cenário e palco de todo o drama que acabou ocupando-a todo o resto da tarde; e a outra, por onde Ana pode ver o tronco do pé de manga e o galho que sustenta o esquife.
E ela que pensava que a tarde já tinha sido bastante atribulada, nem imaginava o que ainda estava por vir, pois acabou sendo testemunha ocular de um desfecho que não tivera a sensibilidade e esperteza para prever.
E não é que apareceu uma danadinha de uma rolinha e Ana só teve tempo de assistir, boquiaberta, a falecida sendo levada, literalmente, no bico?
Ainda correu para fora de casa, mas era tarde demais. Olhou para o céu, e viu a rolinha voando, toda e toda, se achando, porque tinha ganhado o dia, ao se apossar de uma deliciosa iguaria: uma perereca cozida em chá de condimentos variados e gostinho acentuado de canela.
Ana voltou a ser a mesma pessoa alegre e sorridente de sempre! A perereca cumpriu seu destino sobre a terra! E a rolinha se deu bem.
Na vida, as coisas acontecem assim mesmo... Um minuto empurra o outro que empurra o outro que empurra o outro... E, enquanto o tempo passa, também a vida passa.
E viva o chá! Sem perereca!
AGOSTO DE 2007

SER APENAS PARTE

A compota de figo, a infância, os folguedos na rua,
a procissão do encontro, os filmes americanos, as tias e os primos,
as jacas, jabuticabas, goiabas e mangas
ficaram num lugarzinho guardado
são versões de um passado
de aconchego.
Renasci
em terra inóspita.
A mudança,
sem motivo entranhado ou convincente
fez de pedra e desatino o descaminho.
Em nome desse desatino, buscava-se a esperança.
Houve o encontro do sem sentido
com a estrada larga da vida.
Perseguir o entendimento passou a ser preciso.
Por ser mudança concreta que mantém a distância,
o canto da saudade é sentido deleite
porque mistura o que poderia ter sido
no entranhado do que foi vivido
embricando-os no coração dividido
entre o passado e o presente.
Ficaram lá
parte dos sabores e doces enlevos.
Renasceram aqui
os frutos das sementes herdadas
germinadas
apesar da sequidão.
Por causa do início,
em função de um futuro,
em nome da sobrevivência,
em função do sentido
que a vida tem de ter.
         (numa tarde de domingo de 2006)