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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Meu primeiro amor platônico


Ele era o menino mais alto da nossa turma de segunda série, no primário do Grupo Escolar de Ipuã.
Se entrávamos pela frente do garboso prédio- o que era raro - virávamos à esquerda e nossa sala era a última à direita.
Ele se sentava na última carteira da segunda fileira, perto da porta. 
Eram cinco fileiras daquelas carteiras duplas, pesadonas, de assento que se levantava para nos permitir ficar em pé, quando o momento era cívico ou recebíamos visita de alguma autoridade. 
Ele usava chapéu!
Vinha de uma fazenda das redondezas, era muito sério e faltava demais.
Era loiro. Não sei se tinha olhos claros, porque nossos olhares nunca se cruzaram...
E eu era muito apaixonada!
Muito!
Eu sempre dava um jeitinho de olhar pra trás, disfarçadamente, para ver aquele menino tão sério, de voz grossa que se destacava quando dizia "presente"! 
Nos dias que ele faltava, a escola não tinha o mesmo colorido...
Ao longo da vida, naqueles momentos que nos damos a oportunidade de visitar o passado pra tecer conjeturas, eu tinha certeza que, se meu amor tivesse sido correspondido, nossa história teria sido muito bonita.
Ah, o nome dele também era, pra mim, um melodioso som, um nome diferente e que a minha saudade permite pronunciar pausada e docemente: Vir-gí-lio.
Eu tinha 7 anos. Ele estava com 9.
Onde quer que ele se encontre, vai saber que provocou suspiros em uma menininha romântica que foi muito feliz por ter-se enamorado de um personagem inesquecivelmente elegante, bonito e misterioso...

COMO É O CÉU?


Acredito que o céu é um nirvana onde não há limites de tempo, de espaço, de vida...
A partir do momento que deixamos a casca que nos serve de embalagem e ocasiona aprendizagens significativas, a eternidade vira um espaço ilimitado de gostosuras.
Lá, cada céu particular embrica no céu alheio.
Inicialmente, revisitamos e relemos emoções que nos engrandeceram a alma.
Para isso serve o céu: para que o espírito/energia/luz seja o próprio Nirvana, a extinção definitiva do sofrimento humano.
Meus primeiros “séculos”, vou passar (egoisticamente) em volta da mesa de refeições com meus pais e irmãos (já vou ter chegado ao céu mesmo e Deus há de entender que meu pecadinho é coisa de quem come e se lambuza...). Cada frase, cada gesto, cada meneio de cabeça e olhar, cada sabor, cada sorriso, cada odor... de cada um que fez parte do meu mundo... tudo! há de ser revivido, nos mínimos detalhes que o tempo – sem se importar, por não existir – permitir.
Pretendo permanecer enternecida na infância...
Muito mesmo!
E misturar as minhas memórias e as da infância dos filhos!
Quando eles forem chegando, já terei preparado os melhores momentos, com os efeitos especiais mais divinamente elaborados no enlevo que a criatividade amorosa de mãe/filha inspirar!
Sem as mazelas do corpo e a pequenez dos meus atos rasos, serei a leveza da luz e os meus voos/fachos certamente hão de alcançar – e serão aplauso e emoção - cada fração do que séculos de grandiosidade humana praticou.
Metamorfose de luz/fração do universo. 
Encantamento e louvor.

Amor.