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domingo, 14 de maio de 2017

DIA DAS MÃES 2017

FELIZ DIA DAS MÃES!

De todos os pedaços que me fizeram quem sou
os mais significativos, e marcadamente valiosos,
são os que me chamam MÃE.
Um nome que atendo com gosto, com desvelo
e, às vezes com certa firmeza.
Um nome que me foi dado como sagrada e doce conquista.
Do mesmo jeito que todas as criaturas destemidas
que conheço e admiro
e atendem pelo mesmo nome o conquistaram.
Tecendo cada trama e comprometendo cada célula.
Errando e acertando.
Sendo e doando.
Amando...
Feliz Dia das Mães para todas nós!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Meu primeiro amor platônico


Ele era o menino mais alto da nossa turma de segunda série, no primário do Grupo Escolar de Ipuã.
Se entrávamos pela frente do garboso prédio- o que era raro - virávamos à esquerda e nossa sala era a última à direita.
Ele se sentava na última carteira da segunda fileira, perto da porta. 
Eram cinco fileiras daquelas carteiras duplas, pesadonas, de assento que se levantava para nos permitir ficar em pé, quando o momento era cívico ou recebíamos visita de alguma autoridade. 
Ele usava chapéu!
Vinha de uma fazenda das redondezas, era muito sério e faltava demais.
Era loiro. Não sei se tinha olhos claros, porque nossos olhares nunca se cruzaram...
E eu era muito apaixonada!
Muito!
Eu sempre dava um jeitinho de olhar pra trás, disfarçadamente, para ver aquele menino tão sério, de voz grossa que se destacava quando dizia "presente"! 
Nos dias que ele faltava, a escola não tinha o mesmo colorido...
Ao longo da vida, naqueles momentos que nos damos a oportunidade de visitar o passado pra tecer conjeturas, eu tinha certeza que, se meu amor tivesse sido correspondido, nossa história teria sido muito bonita.
Ah, o nome dele também era, pra mim, um melodioso som, um nome diferente e que a minha saudade permite pronunciar pausada e docemente: Vir-gí-lio.
Eu tinha 7 anos. Ele estava com 9.
Onde quer que ele se encontre, vai saber que provocou suspiros em uma menininha romântica que foi muito feliz por ter-se enamorado de um personagem inesquecivelmente elegante, bonito e misterioso...

COMO É O CÉU?


Acredito que o céu é um nirvana onde não há limites de tempo, de espaço, de vida...
A partir do momento que deixamos a casca que nos serve de embalagem e ocasiona aprendizagens significativas, a eternidade vira um espaço ilimitado de gostosuras.
Lá, cada céu particular embrica no céu alheio.
Inicialmente, revisitamos e relemos emoções que nos engrandeceram a alma.
Para isso serve o céu: para que o espírito/energia/luz seja o próprio Nirvana, a extinção definitiva do sofrimento humano.
Meus primeiros “séculos”, vou passar (egoisticamente) em volta da mesa de refeições com meus pais e irmãos (já vou ter chegado ao céu mesmo e Deus há de entender que meu pecadinho é coisa de quem come e se lambuza...). Cada frase, cada gesto, cada meneio de cabeça e olhar, cada sabor, cada sorriso, cada odor... de cada um que fez parte do meu mundo... tudo! há de ser revivido, nos mínimos detalhes que o tempo – sem se importar, por não existir – permitir.
Pretendo permanecer enternecida na infância...
Muito mesmo!
E misturar as minhas memórias e as da infância dos filhos!
Quando eles forem chegando, já terei preparado os melhores momentos, com os efeitos especiais mais divinamente elaborados no enlevo que a criatividade amorosa de mãe/filha inspirar!
Sem as mazelas do corpo e a pequenez dos meus atos rasos, serei a leveza da luz e os meus voos/fachos certamente hão de alcançar – e serão aplauso e emoção - cada fração do que séculos de grandiosidade humana praticou.
Metamorfose de luz/fração do universo. 
Encantamento e louvor.

Amor.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

UM AMIGO NO CÉU: ANTÔNIO DA SILVA RIBEIRO


Ele era professor de língua portuguesa. Trabalhava no Centro de Ensino 05 de Taguatinga e aliava seu profissionalismo à alegria de participar do nosso grupo de professores afinados e dedicados à educação. Percebíamos, visivelmente, que adorava o que fazia!
Foi ele quem veio com a história de cursarmos uma pós-graduação, lá no interior de São Paulo. Durante um ano, um final de semana a cada mês. Antes das férias de julho, ficou decidido que seríamos 5 a revezar carro. Da nossa escola, seríamos 4; o quinto seria o diretor do Centro Educacional 03, o Anísio.
Nas férias, aconteceu um acidente com esse diretor e ele faleceu.
Quando retomamos o semestre, o Antônio já estava com tudo programado: iríamos de ônibus, porque carro era muito perigoso... Alguém tinha fretado um ônibus e ele reservara lugar para 4.
Na madrugada do dia 9 de agosto de 86, num ônibus da Real Expresso, onde 35 professoras e um único professor se encaminhavam para Franca, SP, o sinistro se fez presente e ficamos sem o Antônio. Para nossa tristeza!
Era alegre e amigo o nosso colega. Muitas vezes, eu atendia à porta da sala e era ele, todo agitado e sorridente, perguntando o que eu estava fazendo, qual o assunto da aula do dia, se eu podia dar uma palavrinha com ele... E acrescentava: “Quer saber as pérolas?” Éramos “fofoqueiros” de plantão. Porque éramos novos. Ele tinha feito 30 anos em maio e eu faria 36 em novembro. Fosse hoje, diria que éramos os cronistas da escola... rsrsrs Tudo que acontecia na escola, o Antônio contava pra mim. Escolas são ilhas que rendem crônicas inacreditáveis! Algumas impublicáveis! Quando sofremos o acidente, ele atuava como assistente e o nosso arsenal de guerra era uma montanha! heheheh Porque eu ficava restrita a minha sala de aula, mas ele tinha 360 graus de escola para gáudio de seus olhos perscrutadores...
Vale uma ressalva aqui: não éramos maldosos; éramos felizes! Não tínhamos culpa se a munição era presenteada na bandeja...
Na véspera da nossa viagem, durante o recreio, o assunto morte foi a tônica. O Antônio foi o único a comentar: “Tenho a maior curiosidade para saber como é o lado de lá!”. Discordamos. Éramos uns 30 professores nesse recreio marcante. Num dos cantos da sala, onde ficava o cafezinho, em pé, ele ainda acrescentou: “Pois me mantenho preparado para ir a qualquer hora que Deus quiser me levar!”.
Durante a viagem, acomodada no lugar da rodomoça (lugar que o Antônio reservou pra mim, ou a minha claustrofobia não me permitiria viajar), conversava com o motorista. Minha tática para não ter perigo dele dormir ao volante. Tínhamos saído da frente do Centro de Ensino 03, às 21 horas, e viajaríamos a noite toda. Durante a viagem, eu curtia uma enxaqueca que já durava três dias. E já tinha tomado dois comprimidos de migrane...
A todo momento, o Antônio vinha dar a bronca em mim: “Na primeira parada, vou ligar pro seu marido e contar que você está atrapalhando a concentração do motorista! Para de conversar, matraca!”.
Eu ria e explicava que tinha a intenção de conversar durante a viagem inteira.
Percebi que meu amigo estava triste. Muito triste. Ele não brincou, não contou casos, não parava na poltrona dele. Na parada de Ponte Alta (um posto antigo, depois de Cristalina), ele veio falar comigo e eu comentei que ele estava calado e triste. Ele disse que estava preocupado e que eu parasse de distrair o motorista. E que estava entediado lá no fundo do ônibus. Preocupou-se em arrumar lugar pra mim, bem na frente, e esqueceu que não dormia em viagem e lá do fundo nada via.
Quando saímos do posto, assim que o ônibus pegou a rodovia, o Antônio estava em pé, na porta que dava acesso à cabine do motorista e da rodomoça e o motorista se saiu com esta:
- Tem um mês que teve um acidente bravo, aqui, antes da ponte. Um ônibus da Real e um caminhão. Os dois motoristas e a rodomoça morreram na hora.
Ainda conversamos um pouco e o meu amigo voltou pra poltrona dele.
Em Catalão, nova parada, no Posto JK, onde tomei um pingado e mais um migrane. O Antônio pegou o lanche pedido e não se sentou; ficou andando pelas imediações da lanchonete, visivelmente incomodado. Tenho gravada a imagem do meu amigo querido andando e olhando ao redor e comendo seu lanche.
Quando avistamos as luzes de Uberlândia, comentei com o motorista que eu ia me recostar pra ver se dormia e a dor de cabeça passava. Ele ainda me disse pra inclinar a poltrona, mas eu respondi que não ia dormir, só relaxar. Tinha acabado de rezar uma novena para as Almas, pedindo uma empregada doméstica. A minha tinha ido de férias e não tinha voltado, pois ia casar-se.
Acordei com barulhos da batida, gritos, freios, buzinas...
Um caminhão carregado de carvão, parado no acostamento, tinha sido o obstáculo onde nosso ônibus bateu. Da carroceria, veio uma tábua que arrancou meu banco, jogou-me (sem cintos, parecia que estava atracada à poltrona) para trás e, enviesada, bateu no peito do Antônio e quebrou-lhe o pescoço, resultando em morte súbita.
Quando o ônibus parou, a Elza, então diretora do CETS, repetia: “O Antônio morreu!”...
Lembro-me de pensar “Qual o quê? O acidente foi só na frente do ônibus; a Elza deve estar fora de si!”.
O Antônio tinha trocado de lugar com a professora Maria Helena, colega nossa do Centro 05, uns dez minutos antes de acontecer a tragédia. Morreu na poltrona 06.
Meu amigo foi fazer parte da legião celeste aos 30 anos.
Deixou, na QSC 23, casa 06, em Taguatinga, a esposa viúva e duas filhinhas órfãs.
Esforçado, estudioso, tinha duas graduações – Letras e Pedagogia -, feitas na Católica, e buscava aprimorar seus conhecimentos.

Faz muita falta!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

JUJU CHEIA DE HISTÓRIAS


No dia 21 de maio de 2015, a mãe da Juju deu aula até 22:30 h e, enquanto a esperávamos, a Juju via trechos do Frozen, no iPad, enquanto eu mexia no notebook.
Aí comecei a tossir (estou gripada e com crise de sinusite) e não parava. Foi feia a coisa! Quando a tosse passou, comentei com a Juju que eu achava que ia morrer...
Ela respondeu, enfática, que eu não podia morrer, não.
Toda encantada, eu olhava pra ela que tinha dado pausa no vídeo e preparei-me para escutar qual era meu importante papel, na opinião dela.
E ouvi:
- Vó, olha vó, se você morrer, quem vai fazer comidinha gostosa pra mim?
- Sua mãe, respondi.
- Mas, vó, a comida da minha mãe não é igual a sua. A carne moída, quem vai fazer carne moída?
- Sua mãe, Juju. Ela olha a receita que a vovó escreveu e deixou na internet, falei, enquanto olhava e apontava pro iPad na mão dela.
A resposta dela me fez ter outro acesso bravo de tosse, misturado com falta de ar e riso:
- Você vai deixar o iPad?! Então tá...



quinta-feira, 26 de maio de 2016

ERA SÓ UM MORCEGO!


No quarto, com a luz apagada, lanterna de led na mão esquerda, e uma almofada na mão direita, a super vovó enfrenta um morcego.
Ela não está só; a super netinha, com outra almofada em punho, destemida, grita e aponta e aponta e grita; pulando pelo quarto...
O morcego voa em círculos, buscando os cantos das quatro paredes.
Quando se cansa, dependura-se no trilho, sem cortina, esquecido na parede acima da janela do quarto.
À simples menção de levantar a mão com a almofada já provoca o morcego que se lança no ar!
E a super vovó não se cansa de jogar a almofada na direção onde o morcego parecia estar, antes de ter seguido seu rumo.
- Vó, ele já tá lá adiante!
A super netinha, sem paciência, passa a mão na testa, afastando o cabelinho que insiste em cair no rosto, demonstrando ter percebido que a super vó parece não ser tão super assim...
- Ah, se eu pudesse voar, senhor morcego, você ia ver como eu sou terrível!
A super netinha se empolga com a fala da super vó e sobe na cama e grita:
- Vem, senhor morcego, se você tiver coragem!
Num voo rasante, ele passa perto do braço da menininha: parece ter entendido e, desafiador, passa ventando. E continua sua provocação, pois avança na direção do rosto da super vó.
Gritaram as duas ao mesmo tempo!
Pausa para rir...
Ops! O morcego não pode descansar!
Recomeça o balançar de almofadas.
E o animal cretino, o rato voador, vai e vai e vem e vem e vai e vem...
- Acho que acertei!
- Não, vó, num acertou!
- Acertei, sim, pega aí minha almofada; o danado tá ai embaixo!
- Vó, ô vó, alá ele lá descansando...
A vozinha da super neta já parece meio desanimada!
- Não vamos desanimar! Ou você acha que ele é mais inteligente que a gente?
- De jeito nenhum, vó! Se fosse já tinha saído pela janela!
- Viu, rato voador burro, a Juju é muito mais sabida do que você!
- Não é não vovó; você também é sabida, vó!
Sem tempo para agradecer o elogio, a super avó vê o morcego já voando perto do chão, evidenciando ser um rastejante estrategista, e taca-lhe a almofada, novamente! Mas o bicho escapa.
- Deus, ó Deus, até quando? Tomara que esse bicho não faça sujeira no quarto. Porque ele deve estar se borrando de medo de nós duas; a super vovó e a super netinha!
Mais uma tentativa e nada!
E outra e tantas mais...
- Acertei! Foi pá bife!
- Acertou mesmo, vó! Acertou! É goooool!
- Ah, danadinho, morreu, né?
- Eca!!!!
- Fica aí e vigia que vou buscar a pazinha e a vassoura!
- Fico nada! E se ele virar vampiro?
- E se ninguém vigiar e, quando a gente voltar, ele tiver sumido? Você não é a super neta?
- Tou nem aí, vó!
O danadinho ficou lá, no chão do quarto, com uma asa esticada e o resto do corpo paralisado...
Um pé lá e outro cá.
E ele continuava lá! Ufa!
De repente, fez menção de abrir a outra asa e... paf... uma pá certeira na fuça!
E adeus, morcego irritante!
- Ele só tinha desmaiado, vó. Agora, foi prum céu de morcego.
- Já pensou, Juju, se ele, com aquelas asas, for anjo dos ratos?
- Não é não, vó! Ele é só morcego!
Missão cumprida!
Agora, toca escrever a história pra Juju ler pros filhinhos dela, quando ela estiver no futuro. Tem também a história da coruja em cima do armário da cozinha; a cobra rastejando na sala; o saruê sapateando e escorregando na área externa; os dois calangos que morreram afogados na piscina; o sapo que entrou na piscina e não achou a saída; a casa das abelhas no forro da cozinha; o ninho de rolinha; e o ataque dos saguizinhos...

É, vida de super avó e super netinha é mesmo vida muito trabalhosa! Haja almofada!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

MEMÓRIA DE IPUÃ

Uma relíquia!

Notícias da minha cidade natal, no ano de 1938.
Este exemplar foi cedido pelo primo dr. Moacir Tazinafo que o recebeu de um amigo.

IPUÃ/ MEMÓRIA

MATÉRIA EXTRAÍDA NA ÍNTEGRA DO JORNAL ‘O BANDEIRANTE’, EDIÇÃO N. 78, DATADA DE 19/ JULHO/ 1938
   “ SANTANA DOS OLHOS D’ÁGUA- Um pouco de sua história p/ D. C. Rangel.”

      Os Batista Teixeira

      O esboço primitivo desta localidade, pensamos, data cerca de um século. E João Batista Teixeira, natural de Caldas, estado de Minas Gerais, foi o primeiro homem branco a plantar junto do “córrego Barreiro“, a sua choupana de desbravador do sertão. A sua intervenção, como era natural, não foi bem recebida pelos indígenas da zona de Ypuã ou Ypu, que eram as denominações que, segundo as notícias da primatividade, os nativos davam a esta região. Contudo, ao lado de seu contraparente Antônio Manso Teixeira, não cedeu às primeiras investidas e artimanhas da tribo dominadora, para algum tempo depois se convencer que duas inteligências e dois homens embora corajosos, não bastavam para vencer os habitantes de gleba e a sua natureza inculta e ameaçadora, e por isso, deixando posse conhecida, voltaram ambos a Minas, de onde vieram, alguns anos depois, João Batista Teixeira Filho, respectiva família e muitos agregados completar o trabalho do velho.

      O casal Carlos Fernandes

      A fama desse sertão foi se tornando conhecida e atraiu para aqui o casal Carlos Fernandes que, adquirindo grande porção da fazenda Barreiro, se localizou também à margem esquerda do “Córrego Barreiro “, que é o lado que a vila se desenvolveu. Homem prático e de certa inteligência tendo como esposa D, Tereza, senhora muito caridosa e católica, tomou Carlos Fernandes a firme deliberação de fazer brotar aqui um povoado sob os auspícios de Nossa Senhora Santana, santa da devoção de D. Tereza .

      A Capela

      Escolhida assim a nossa milagrosa padroeira, o casal Fernandes doou ( em data que não pudemos conseguir ) cerca de cem alqueires de terras à direção católica da Província de São Paulo para a formação do Patrimônio Paroquial e do povoado. Com essa doação, que deve orçar por cerca de noventa anos, surgiu a primeira capela para a oração dos fiéis, o que constituiu um estímulo à nascença do povoamento, onde se aportariam os viajores e novos imigrantes em busca de farturas. E o povoado tomou vulto: sobradões de adobes, de grossos esteios e portais enormes de aroeira, com grades e parapeitos pelos altos das janelas, fizeram época num cordão de linhas irregulares e imponentes como uma pequena cordilheira de pontas vermelhas e fraldas brancas.

       A Paróquia

       Dado o grande passo da doação e da construção da Capela, Carlos Fernandes e outros elementos de importância como o capitão Francisco Marcolino Diniz Junqueira, Plácido Ferreira Lima, Antônio Gomes, Antônio Soares Guimarães, Manoel Ferreira Mendes, Januário Rogério de Moraes, Domiciliano Carlos Nogueira e outros amigos da localidade, conseguiram a criação da Paróquia  e a elevação do povoado a arraial e segundo distrito de subdelegacia da Vila de Espírito Santo de Batatais, comarca de Franca do Imperador.


       O Distrito de Paz
       Com a vinda do Pároco Felipe Ribeiro da Fonseca para dirigir a Paróquia , Santana  ganhou mais um elemento de valor e capaz de orientar  melhor as suas tentativas de progresso. E assim, naturalmente sob orientação mais esclarecida, os incrementadores do desenvolvimento local, conseguiram, a 25 de abril de 1859, fosse o nosso arraial elevado a Distrito de Paz pela Lei n. 23, que o denominou Santana dos Olhos D’Água.   
       Um grande mal
       Infelizmente , cremos que em 1896, umas febres contagiosas e de caráter maligno, interceptaram o progresso que levaria Santana a município, despovoando o nosso território pela morte e pelo êxodo quase completo de seus habitantes.
       O carro do grande mal passou vagarosamente, deixando fama assustadora. E por isso só depois de muito tempo e já sem o entusiasmo da primeira arrancada, é que voltaram a esta terra alguns de seus velhos moradores e novos emigrantes, entre os quais os filhos de Carlos Fernandes- Joaquim e Prudenciano – Inácio Moreira Alves, José Ferreira Borges e Capitão João Garcia de Carvalho ( este falecido há poucos anos ) e que ainda tentaram algo em favor do distrito, sacudindo-lhe a poeira do marasmo em que caíra.
       E foi então que os velhos sobradões já antiquados e em ruínas pelo abandono, escorados apenas pelos esteios de aroeiras impassíveis ao avanço do tempo, foram demolidos e construídas casas mais modernas com a descrição de um alinhamento melhor imaginado.
       O nome desta região
       Como fizemos referência de início, e isto baseados em informações que vêm atravessando o tempo, conforme asseguram descendentes do velho Morais, os selvagens chamavam a esta gleba de Ypuã ou Ypu, enquanto que os primeiros visitantes brancos, chamavam-na Barreiro, devido ao brejão do córrego que ainda conservava este nome. Vindo para aqui o casal Fernandes e sendo D. Tereza devota de Nossa Senhora Santana e fazendo construir a Capela a que nos referimos sob o patrocínio do nome da Santa de sua devoção, ficou o povoado conhecido pela denominação de Santana.   Mais tarde, porém, com a chegada do padre Felipe, fez este com que a Paróquia conservasse o nome da Santa com o acréscimo de Olhos D’Água, isto não só porque existiam muitos olhos d’água que chegavam a formar um pequeno afluente do “Córrego Barreiro”, mas também, ao que supomos, porque a denominação dada pelos indígenas prendia-se a este mesmo fato, isto é, à existência de água que brotava das pedras e da terra, de vez que, segundo afirma o professor João Ribeiro, Y pú ( e possivelmente Ypuã ) correspondeu no guarani à expressão portuguesa olhos d’água, conclusão a que deve ter chegado aquele ilustre pároco naquela época, em que, convém lembrar, era fácil obter dos indígenas  a explicação dos termos por eles empregados. E assim se justifica o fato da lei que criou o Distrito lhe ter dado a denominação de Santana dos Olhos D’Água, convindo notar que o complemento Olhos D’Água, conforme nos reiteramos pelos livros do Cartório de Paz do Distrito, só foi aproveitado a partir de julho de 1885, nas escrituras aqui lavradas. Interessando-nos agora pelo caso, descobrimos que dos relatórios e mapas da organização judiciária do Estado elaborados pela Repartição de Estatística somente até 1895 é que mencionavam a denominação completa dada a este Distrito pela Lei1859, e que daquela data em diante, o Distrito vem sendo chamado simplesmente ‘Olhos D’Água”, pelo que o nome Santana dos Olhos D’Água ficou sendo somente paroquial, ao que parece, desde aquela época, embora só em 1931 tenha o nosso antecessor no Cartório, passado a omitir o nome Santana e chamar a este Distrito somente de Olhos D’Água.
        A tendência maior em nossa população seria a de chamar o nosso Distrito somente de Santana, o que seria mais prático e razoável se não houvesse o grande inconveniente de ser este um nome já dado a muitos outros lugares.
        Olhos D’Água, conquanto não seja um nome inexpressivo, presta-se mal para designar por adjetivo dele derivado, a naturalidade das pessoas aqui nascidas e das associações aqui existentes.
        Últimos Tempos
        Afastado de estrada de ferro e passando seus atributos para os diversos municípios a que vem pertencendo, o nosso Distrito não recebeu dos favores públicos a merecida paga. E o progresso, que gosta muito de andar de trem, ou pelo menos por boas estradas , não se manifestou aqui em todas as atividades. E com a criação de distritos e municípios vizinhos, como sejam o de Guairá e São Joaquim, Olhos D’Água sofreu uma sangria bem grande no seu patrimônio territorial e produtivo, e como se não bastasse, a passagem legal, temos notado que parte da zona do Sucuri serve-se de Guairá e parte da zona do Córrego da Barra e da Estiva, onde estão localizadas as importantes fazendas Santa Cecília e Santa Helena, serve-se de São Joaquim, devido ao horário cômodo dos ônibus.
        Com a passagem do nosso Distrito para a comarca de São Joaquim sob cuja jurisdição estamos, parece que temos sofrido menos no terreno da administração municipal, principalmente quando esta esteve entregue ao Dr. Darci Uchoa e Dr. Eusímio Batista, que foram nossos subprefeitos e que nesse posto muito fizeram pelo Distrito. E como fato interessante, notamos que Olhos D’Água cresceu muito depois que se apresentou a crise do café, principalmente de 1930 a esta parte. E isto não devido às revoluções de  alterações de regimes políticos, mas porque a crise exigiu economias e muito trabalho e obrigou a nossa  população e principalmente os lavradores a se servirem da prata da casa, isto é, fazer suas compras no comércio local, que tomou por isso grande desenvolvimento, e incrementar aqui pequenas indústrias para se bastar do que fosse de imediata  necessidade. E assim, temos aqui atualmente diversas olarias, fábricas de polvilho e farinha de mandioca, máquinas de benefício de café e arroz e preparo de ferragem para animais, duas grandes oficinas de ferreiro, fabricação de veículos e serviços mecânicos, engenhos de cana e moinho de fubá, dezoito casas comerciais, quatro farmácias, quatro confeitarias, diversos salões de barbeiro, sapataria e selaria, e etc., e isto sem querer fazer referência somente à vila e suas imediações. O plantio de cereais é também considerável em nosso território, e o algodão de três anos para cá vem dominando os cerradões e invernada de terras outrora infrutíferas e contribuindo extraordinariamente para a situação financeira dos lavradores.
        A vila que até há poucos anos tinha menos de duzentas casas, e correio somente duas vezes por semana feito por meio de um automóvel que era o único veículo de carreira para São Joaquim, conta atualmente mais de trezentos prédios, entre os quais residências caras e modernas, como se vê dos clichês desta edição; três ônibus diários para São Joaquim e um para Guairá e outro para a fazenda São José, e ainda com as seguintes associações, que são um índice seguro de nossa interessante vida social: “Lira Carlos Gomes” com sede em prédio próprio, tendo ótima banda de música e excelente jazz-band; “Congregação Mariana”e “Pia União das Filhas de Maria”, associações religiosas com sedes instaladas; “Grêmio Esportivo Ipuano”, associação que dirige o esporte local, possuindo um quadro invicto de Bola ao Cesto, bons nadadores e remadores, e estudiosos enxadristas. Além das festas e passeios que a nossa sociedade sempre promove, temos retreta aos domingos e feriados, cinema falado e outras diversões públicas. Com relação à vida religiosa, estamos também muito bem servidos dada a dedicação com que o nosso distinto Padre Hermano Kuhnel e seu sacristão Joaquim Domingos de Antoni trabalham nesta Paróquia.
        O Grupo Escolar, que conta com seis classes, é dirigido pelo distinto e inteligente moço Oscar Vollet Sachs e tem como professores bastante dedicados,  o sr. Júlio Soares Dihel, D. Marta dos Santos, D. Tereza e Antonieta Capuzo, D. Amélia Chediak Teixeira e D. Ana Schimidt. Há ainda uma escola municipal provida interinamente pelo sr. Manoel Joaquim Marques com funcionamento regular.
        O serviço policial está a cargo do sr. Jair Souza Teixeira, elemento de destaque em nosso meio, e dos senhores Urzino de Almeida Melo, Josino Guilherme dos Reis e Afonso Trigo, que são também cidadãos dignos e moderados em suas ações...
        A subprefeitura está atualmente com o Dr. Euzímio Batista, a quem Olhos D’Água já deve considerável porção de seu desenvolvimento, e de quem nos é lícito esperar uma administração bastante progressista, dadas as qualidades que já lhe conhecemos.
        O juízo de Paz do Distrito tem como Juiz o respeitável cidadão Indalécio de Souza Melo e como escrivão o sr. Durval Correia Rangel.
        A Agência Postal tem como agente o dedicado funcionário sr. Firmo Zanini e como estafeta o sr. João Carlos Figueiredo, funcionário verdadeiramente exemplar.
        Uma das nossas grandes dificuldades nesta vila, por estarmos afastados 25 quilômetros, são os trabalhos que temos junto à Coletoria Estadual, e isto porque, não obstante a boa vontade dos funcionários daquela repartição, não raro somos obrigados a perder o ônibus das duas horas para podermos realizar o pagamento de impostos, fazer declarações estatísticas, e etc., em virtude do sempre constante movimento da repartição. Entretanto, estamos informados que, dentro em breve, será instalado nesta Vila um Posto de arrecadação de impostos estaduais, aliás já criado há cerca de um ano.
        Não encontramos dados relativos à criação da Paróquia, mas cremos que ela coincidiu com a elevação do povoado a arraial, fato que deve ter ocorrido em 1857, época em que se iniciou o primeiro livro de notas a cargo do escrivão da subdelegacia local.
        Arriscamos a indicar o ano de 1896 como sendo o provável da epidemia que se propagou nesta zona, não só devido a informações de velhos moradores daqui, mas também porque naquele ano o registro civil neste Distrito esteve quase completamente paralisado.

        ( Este texto foi copiado e, certamente adequado ao português da nossa época, pelo encarregado do Setor de Serviços Gerais, sr. Carlos Roberto da Rocha, em 25 de março de 1992).