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quarta-feira, 14 de maio de 2014

MEMÓRIAS

Cada um de nós deveria se sentir na obrigação 
de escrever 
um livro de memórias...
Alguém con/discorda?
Quando você escreve sobre sua vida, 
você deixa de ser você, naquele definitivo espaço de tempo. 
Você desiste das suas particularidades... 
e passa a ser a ficção da sua realidade. 
E vem a contrapartida: 
você eterniza situações, 
desvenda seus motivos e ações, 
reinventa as emoções... 
Acontece, então, a transformação 
e você se veste com olhos de reinventor.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O CINEMA DA MINHA TERRA

Minha primeira lembrança marcante e dileta, da primeira vez que estive num cinema, vem do filme “O Pequeno Polegar”, da Disney. 
Colorido e sublime.
Antes dele, nada parece ter sido assim digno de ser memorizado.
Quero crer que seja por ter crescido vendo cinema.
Nasci numa cidade que tinha um Cine Teatro, a cidade de Ipuã, no interior do estado de São Paulo.
A fachada desse espaço de sonhos era cheia de cartazes atrativos, anunciando “Para Breve, Novas Emoções!”.
Era tudo tão maravilhoso!
Um mundo à parte, onde a imaginação era a impávida e cativante jornada para o infinito.
A cada nova experiência, mais e mais sonhos se apoderavam dos corações incautos...
Eu era feliz. E sabia!
Eu ia à porta do cinema, todos os dias, onde as paredes exibiam fotos de artistas apaixonantes, nos cartazes chamativos (inicialmente, muitos filmes eram franceses; e, com o tempo, os americanos se destacavam mais), buscando saber qual a fita da noite e a faixa etária correspondente.
Lembro-me que, às segundas, terças e quartas, eram filmes repetidos.
Na quinta, o filme era novo: eu ia.
Na sexta, era filme de terror: não perdia, por nada! Quase morria de medo, depois!
No sábado, era de amor: eu ia.
No domingo, tinha a matinê: eu ia. À noite, nova fita: eu ia!
Depois que completei treze anos, virei um varapau (como diziam). O fato de ter crescido tanto tinha suas vantagens e desvantagens e eu tinha muitos complexos e muito medo de nunca parar de crescer. Mas, o certo era que o meu tamanho me permitia, à noite, transformar-me em uma moça. Além de compor-me com mais cuidado, acrescentava um sutiã à minha indumentária, completava o espaço dele todo com algodão, empertigava meu manequim de Visconde de Sabugosa e via filmes permitidos para maiores de dezoito anos! Era emocionante ver beijos na boca!
Eu tinha uma prima querida, a Vilma Cleire Giorgiani, minha melhor amiga de infância, que anotava, dia após dia, todos os títulos e protagonistas e diretores dos filmes que o cinema exibia. Por volta das cinco da tarde, íamos as duas, pelas calçadas, em direção ao nosso cinema. Ela, com um caderninho e a caneta na mão. Eu, tagarelando... Tudo anotado, resolvíamos qual seria nosso programa noturno.

Voltávamos, cada uma para a sua casa, jantávamos e tomávamos nosso rumo: ou íamos passar parte da noite com os olhos grudadinhos na tela do Cine Theatro - aquele provedor de emoções e sensações nos nossos coraçõezinhos carentes de aventuras e felicidade; ou íamos para a praça da igreja matriz, brincar de ser feliz, ao som dos sinos da minha terra...