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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

HOMENAGEM DE AMOR

Luzia foi sempre uma criatura com os pés no chão e feliz. De uma felicidade latente que ela demonstrava com o sorriso e com os olhos. Nascida em uma família de muitos irmãos e muitos tios, teve infância de magia. Os afazeres, na roça, eram em conjunto. As músicas eram cantadas em coro (isso ela me contou um dia, lá na minha infância!). A alegria era uma vibração que transcendia o entendimento. Se bem que alegria é para se sentir, não precisa ser explicada.
Quando conheceu o amor, acompanhou-o sem questionar-se. Levou consigo a felicidade de quem sabe seguir os desígnios de Deus. Sua simplicidade e meiguice eram cativantes. Distribuía simpatia. Em sua nova casa, já se divisava que o futuro seria de grandes alegrias. Nasceu a primeira filha; depois o primeiro filho, o segundo filho e a segunda filha. Quatro alegres crianças.
A concentração era na própria vida. Preocupações havia, a lida era árdua e ingrata. Mas não se foge da realidade.
No início do casamento, o marido, homem risonho, bom e trabalhador, era só chamego. Com o tempo, foi ficando ausente. Luzia, para não construir muros, continuou fazendo da sua felicidade a ponte de ligação dos filhos com a alegria da convivência e com a realidade de se poder contar com o que se tem. Há a certeza de que hoje estamos aqui. Amanhã, quem sabe onde?
Quem vê de fora há de achar uma atitude passiva diante dos problemas. Não há de ter alcance das razões e das ações. Porque amar é doar. A vida que lhe foi dada é amor em doses diárias. Cabe a ela receber a vida e agradecer. Com alegria. Sempre sorrindo.
Ao respeitar e valorizar as histórias cotidianas, recebe-se melhor a morte. Que é estrada que leva ao que está designado para todos. Cada um a seu tempo. Foi assim com seus pais e muitos dos seus irmãos. Com alguns amigos e vários tios e uns tantos primos e conhecidos. Foi assim com a neta de oito meses, que regurgitou e morreu asfixiada no berço, enquanto dormia o soninho da tarde. Quando isso aconteceu, aquela alegria que se divisava nos seus olhos, era já uma alegria triste, pesada, sustentada mais pela fé. “Não há mal que sempre dure...” Como se uma névoa ofuscasse o caminho do riso que antes vinha do coração e explodia nos olhos. Era agora um sorriso triste, um costume, marca de um rosto acostumado à condição de alguém que é passageiro e está quase chegando ao derradeiro...
A cidade onde nasceu e morreu tem um clima muito quente, na maioria dos dias do ano. O ar pesado, a atmosfera abafada, um peso a mais que se carrega na lida diária. E muita poeira, apesar do asfalto e das calçadas lavadas diariamente, uma prática que virou tradição. O dia só segue seu curso normal depois que se lava a calçada da frente da casa. É bonito de se ver as mulheres com suas roupas coloridas, o movimento de suas figuras, os braços que se esticam e encolhem com a extensão das mangueiras e da água que se espalha e escorre pelo asfalto, lavando, varrendo, afastando temporariamente a sujeira, a monotonia, o mormaço.
E chega o dia em que se lê a última página que relata as ações da sua própria história. Aquela que sintetiza e encerra todos os atos.  Que é convite para que aquele que ficou reconheça-se na realidade do que é presente. Que é emoção para se chorar o acontecido, para se condoer e despedir de alguém que cumpriu seu destino na terra e, com certeza, chegou às portas do céu e recuperou o sorriso aberto e a mesma alegria da infância.   
O dia de calor intenso a tirou da cama bem cedo, como de costume. Preparou o café. Arrumou a mesa com todos os deliciosos pães, biscoitos, bolos e roscas que preparava com antecedência. E foi para a calçada, brincar de ser criança, jogar água para o alto e rever o arco-íris. Um mal súbito, fulminante, e a queda fizeram com que a festa das mulheres coloridas ficasse estarrecida, tumultuada e, então, estática. A morte chegara silenciosa e a levara.
O sol brilhou intensamente naquele dia. Choveu à noitinha, durante o cortejo fúnebre.


Minha homenagem de amor à Luzia do Raul, que só nos deixou lembranças boas. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

GENTE DE BEM


Fomos colegas na terceira série ginasial.
Nossa turma tinha muita empatia e os professores percebiam nosso envolvimento de amigos. Os mestres que se destacavam eram os de português e matemática. Foi feita uma foto com eles. Já desbotadinha. Foi tirada no ano de 1965, no Cemab, em Taguatinga, DF.
Nosso professor de português permitia atividades literárias, nas aulas de sexta-feira. Três amigos imitavam o Erasmo Carlos - que tinha a alcunha de Tremendão – e cantavam músicas da Jovem Guarda. Nós os chamávamos "Os Tremendões". Eram o Célio, o Álvaro e o Divino. Tinha uma colega que recitava um poema sobre a neve, que não me lembro o título e autor; ou, ainda, aquele trágico poema A vingança da porta, de Alberto de Oliveira. A maneira enfática com que ela se apresentava demonstrava o esmero e empenho em impressionar. Lembro-me que o silêncio era palpável; se caísse uma folha, o barulho incomodaria... Tinha um gesto dela, de pôr a mão direita espalmada sobre o peito, que dava uma atmosfera de tragicidade ao que ela dizia...
Teve um dia que o professor me deu um ultimato e eu, que nunca tinha apresentado nada, fui à frente para minha performance. Escolhi “declamar” O Trem de Ferro, do Manuel Bandeira. Não passei dos três primeiros versos: “Café com pão/Café com pão/Café com pão...” Foi uma gargalhada geral! Quem disse que eu consegui? O professor ficou bravo: respeitem a colega! Mas a minha cara não era a de alguém indignada; eu também caí na risada! Ainda tentei umas duas outras vezes, mas qual, nem cheguei no “Virgem Maria/Que foi isso, maquinista?”. Fui intimada a sentar-me e fiquei prejudicada! Quem se apresentava, ganhava um ponto a mais na média.
E teve um dia que cheguei atrasada, mas a turma ainda não tinha entrado na sala de aula. Os professores estavam reunidos na secretaria, resolvendo o caso de uma transferência de aluno. Era muito comum o aluno mudar de escola e todos os professores se reuniam para assinar o documento que atestava rendimento e frequência do aluno, até então. Nesse dia, devia ser quase o final do primeiro semestre, quase toda a escola estava sem aula, com muita gente jovem espalhada pelo pátio. Lembro-me de ver uma amiga e vizinha de mão dada com o moço que era - desde que o vi pela primeira vez - minha paixão platônica. Meus lábios secaram, meu coração acelerou e minhas mãos suavam...
Quando me aproximei dos colegas de turma, percebi que me olhavam estranhamente. Alguém me disse: “Seu nome apareceu no jornalzinho da escola!” e me estendeu um exemplar. Li lá: “Que a Aparecida Cléia ama o Fulano é FATO. mas que é correspondida é BOATO!”.
O Fulano era o carinha que estava de mão dada com a moça que eu achava que era minha amiga. Queria que se abrisse uma cratera na minha frente, pra eu me jogar nela, de ponta cabeça!
O nosso bedel, o professor Marcelo Homem de Faria, abriu as portas de acesso ao pavilhão onde ficavam nossas salas e permitiu que entrássemos. À direita, e, logo na segunda porta, à esquerda, ficava a nossa sala. Quando me vi sentada, tentando organizar meus pensamentos, um tanto aliviada por não mais estar exposta no pátio, percebi que o silêncio imperava e olhei para a porta. O Fulano estava lá, em pé, encarando-me. Quase desmaiei! Lembro-me de ter posto os braços pra frente e de deitar minha cabeça sobre o descanso da carteira, aquele tampão que serve de apoio ao caderno... Só tive coragem de olhar de novo para a porta quando ouvi a voz da melhor amiga dizendo “ele já foi embora”... Foi essa mesma amiga quem disse o que eu deveria fazer: “no recreio, você vai estar de namorado!”. Ela mesmo se encarregou de cooptar um colega. Contei a história e ele se prontificou a fazer o papel de namorado, para abafar o “escândalo”. Devo ter chorado, porque ele concordou de pronto!
Na hora do recreio, ele e eu saímos da sala e rumamos para o pátio, na direção da quadra de esportes, onde, normalmente, ficavam os namorados, circulando, de mãos dadas... Não nos demos as mãos. Mas, rindo e conversando muito – éramos bons amigos! – passamos o recreio atraindo olhares e percebendo que os comentários se referiam a nós dois.
A falsa amiga se aproximou e perguntou se estávamos namorando. Meu falso namorado respondeu que sim e acrescentou um “tem algum problema?”.
Nem assim aprendi que não se deve fazer confidências pra qualquer pessoa. Muitas vezes mais, quebrei a cara porque confiei em quem não merecia minha confiança... A moça que me traiu era do científico, uma vizinha que era companheira no caminho para o Cemab. Contei pra ela sobre a minha paixonite porque ela era da mesma sala do Fulano. E ela usou minha história pra arrumar um namorado.
Meu amigo e salvador se chama Álvaro Cândido. Não me lembro do sobrenome. Ao longo da minha vida, foram muitas as adversidades e, nem sempre, pude contar com um homem de bem pra me ajudar a superar as circunstâncias. Um dia ainda hei de agradecer, devidamente, todo apoio que ele me deu. Nosso tempo juntos foi curto, mas intenso. Nossa turminha era ligada em aprendizado e era valiosa a interação entre todos. De pano de fundo, tínhamos todo aquele cenário de uma cidade chamada Taguatinga, que brotava do cerrado bruto, e servia de acolhida para gente de todos os lugares e credos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

NOSSA HOMENAGEM, LUCY DO CARMO FERREIRA DOS SANTOS

Lembro-me que a conheci em uma festa no edifício Saint Etienne, em Taguatinga. Dominava a rodinha que se formou encantada com a fala dela. Soube que era professora da então Fundação Educacional do D.F. – hoje, Secretaria de Educação. Ela narrava sua história recente, um amor que a fazia muito feliz. O moço ao lado dela, sorridente, ouvia e concordava.
Tempos depois, ela apareceu no Centro de Ensino 05 de Taguatinga, com um grupo de professoras da Regional de Ensino, em um mutirão de apoio, com representantes de cada Núcleo da Regional. Todas falaram, mas foi a Lucy quem deu o show, orientando-nos e dando dicas de experiências exitosas, em sala de aula, com seu carisma peculiar e demonstração de amor ao que fazia. Eram tempos muito difíceis. A Boca da Mata era um mar de barracos – à espera da mudança para formar a região que hoje chamam de Chaparral - e a escola chegava a ter turmas de 60 alunos. Além das duas turmas de Aceleração (sétima e oitava séries, em um único ano, nos dois turnos), eu tinha uma de quinta série com 57 alunos, sendo que, desses, 23 eram disléxicos. Enquanto durou o problema de salas superlotadas, a ajuda da Lucy foi preciosa.
Quando fui trabalhar nessa mesma Regional, no Núcleo de Coordenação Pedagógica-NCP, a sala onde atuava permitia acesso à Biblioteca Comunitária, por uma porta providencial que facilitava consultas ao acervo e utilização do banheiro. A Lucy era, então, quem implementava a utilização da Biblioteca. No finalzinho da tarde, ela costumava aparecer na nossa sala e contava as dificuldades e peripécias para conseguir seu intento, um objetivo grandioso, que ela buscava alcançar. Estava responsável pela Biblioteca e queria transformá-la em Pública, para alcançar vantagens para a comunidade taguatinguense. Seus dias, então, eram verdadeiras odisseias, tentando abrir as portas do convencimento, lutando contra a burocracia burra de poderosos eventuais que não enxergavam a grandeza de uma Biblioteca amparada e bem assistida. Com a ajuda da Professora Vandercy de Camargos, a então diretora da Regional, a Lucy do Carmo Ferreira dos Santos, idealizadora da transformação que tanto bem trouxe a nossa Taguatinga, alcançou seu intento.
Lucy sempre conseguiu cativar e convencer. Sua beleza vinha casada ao carisma da sua convicção: ela idealizava e realizava, com a certeza do seu altruismo. 
O dia da inauguração da nossa Biblioteca Pública Machado de Assis, bem programado para ser um evento grandioso, foi de uma energia inesquecível. As coordenadoras da nossa sala ajudaram as pessoas que trabalhavam com a Lucy a organizar a Biblioteca, para receber autoridades e convidados. Fiz, com muita honra, parte da turma. Na hora do grande evento, teve discursos, apresentação musical, encenação de uma peça e, durante o coquetel, uma música de Richard Clayderman, acompanhado ao piano por uma orquestra (quem dera minha memória soubesse especificar qual!), invadiu o ambiente, em alto e bom som e emocionou a todos os que lá se encontravam. Lembro-me que aplaudimos, demoradamente, a emocionada e feliz Lucy.
Na quinta-feira passada, dia 30 de outubro, soube que ela morreu, há mais de três anos. Eu já a havia procurado na internet, porque sentia falta de saber sobre as peripécias dela. Mas nunca imaginava que a realidade era dura. Desde então, estou convicta de que preciso espalhar a crônica da vida dessa professora cheia de energia e pensamentos grandiosos.
Fui procurar sobre ela no site da Biblioteca Pública Machado de Assis - bibliotecadetaguatinga.blogspot.com.br/2014 07 01 archive.html – e achei informações sobre acervo, horários, atividades extras.
E uma reportagem (o link se encontra no blog de endereço acima) sobre a importância da Biblioteca para tantos usuários:
http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/alem-dos-livros-as-multiplas-funcoes-de-uma-biblioteca-publica/n1597369382299.html
No entanto, nada sobre a professora que transformou um espaço de acervo pequeno e poucos usuários num ambiente de grandioso destino.
Com certeza, ela se foi antes do tempo! Muitos dos seus objetivos, naquele ano de 2011, ficaram por alcançar. Lá de cima, ela nos contempla e regozija-se vendo que somos reconhecidos e gratos porque a tivemos no comando de muitas batalhas, na nossa cidade que surgiu da vontade de guerreiros iguais a ela. De gente que não se envolveu apenas com a própria causa. Gente que enxergou possibilidades e lutou para fazer com que acontecessem.
Nosso muito obrigada, professora-doutora decidida e comprometida com a Educação; energia poderosa que espalha sua luz em outras paragens!
A Lucy, depois de sua aposentadoria, fez mestrado, cursava doutoramento e dava aulas em Faculdades do D.F. e entorno.
Pesquisei seu Currículo Lattes (http://lattes.cnpq.br/1246056055998172), no site do CNPq (última atualização do currículo em 07 de julho de 2011, feitas pela própria) e encontrei essas informações:
“Possui mestrado em Educação pela Universidade Católica de Brasília (2002). Possui Doutorado em Educação, pela Universidade de la Empresa (uy), com defesa de tese prevista para julho/2011. Atualmente é Professora de Pós-Graduação do INSTITUTO DE EDUCAÇÃO FILADÉLFIA, da ASSOCIAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA, (ASEP), do IDESB, da FACULDADE INTENACIONAL DE CURITIBA- FACINTER /UNINTER, da FACULDADE LS. É Professora de Ensino Superior - SANTANA INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR. Tem experiência na área de Educação, com ênfase no Ensino-Aprendizagem da Língua Portuguesa.”
O Lattes da Lucy traz, também, especificidades de sua trajetória social:

2009
SÓCIO BENEMÉRITO BIBLIOTECA PÚBLICA DE TAGUATINGA MACHADO DE ASSIS, ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS/ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE TAGUATINGA.
2004
MULHERES FANTÁSTICAS, ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE CEILÂNDIA.
2003
SÓCIA-FUNDADORA BIBLIOTECA PÚBLICA DE TAGUATINGA MACHADO DE ASSIS/ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS/ADMINSTRAÇÃ OREGIONAL DE TAGUATINGA.
1995
MULHERES ATUANTES, ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS.
1993
PERSONALIDADE DESTAQUE- ÁREA DE EDUCAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE TAGUATINGA/ LYONS CLUBE INTERNACIONAL.
1990
PERSONALIDADE DESTAQUE ÁREA DE EDUCAÇÃO E CULTURA, ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE TAGUATINGA RAIII.
1984

MÉRITO EDUCACIONAL DO DISTRITO FEDERAL, SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO.