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segunda-feira, 30 de junho de 2014

MINHAS LEITURAS

Li, certa vez, que nunca devemos dizer “li tal livro!”. Dizendo assim nós o desmerecemos. Porque fica muito de um livro em nós. E continuamos, mesmo depois dele fechado, a saborear seus ditos...
Minha pretensão é a de marcar aqui, neste blog, leituras que fazem parte de mim. De vez em quando, vou postar trechos das minhas escrevinhações resultantes dessas minhas leituras.
Hoje, homenageio o Josué Montello. Esse escritor profícuo se foi em 15 de março de 2006, aos 88 anos, depois de escrever quase (ou mais de?) 80 livros. Ocupou a cadeira de n° 29, na Academia Brasileira de Letras. Foi eleito em 1954, aos 37 anos. O mais jovem integrante em toda a história da instituição.
De um livro que me passou pelas mãos, ficou muita lembrança doce. O título é “Na Casa dos 40”. O livro publicado pela Livraria Martins Editora (São Paulo) não traz a data de publicação. Traz um retrato do autor, desenho feito a bico de pena, com dedicatória e a data 1962. 
O autor conquistou-me cedo e fez-me cativa da sua escrita que, como escreveu Manuel Bandeira (consta da contracapa do livro citado) "[...] parece passada a limpo. Não há nunca, um excesso, um desleixo."
Meu livro predileto, escrito por este talentoso autor de obra tão vasta, é “Os Tambores de São Luís”; livro considerado, pela Unesco, um dos patrimônios culturais da humanidade. Em tempos de internet, caso alguém se interesse, dá pra saber a sinopse; resenhas e as críticas sempre positivas...
Também morro de amores por “Um Rosto de Menina e outras novelas reais”. Especialmente, porque uma das novelas é ‘O Milagre’. Nem sei quantas vezes a li... Nesta novela, Josué Montello começa discorrendo sobre santos, beatos e bem-aventurados da Igreja. E cita nomes que, como faz questão de afirmar, "[...] hoje ninguém mais invoca" (MONTELLO, 1978, p. 107). E lista alguns meus conhecidos (não é de estranhar, já estou bem adiantada nos anos: no meu tempo de menina, padres rezavam a missa em latim, de costas para os fiéis), como Santa Brígida; São Godofredo; Santo Arcádio; São Juventino. E lista outros, bem estranhos, como Vivina; Nimásio; Sabas; Polixena; Feba; Tecla...
Tudo isso, com o intuito de mostrar que Santos também vivem o apogeu e, claro, o crepúsculo. Levando-nos a valorizar, ainda mais, nosso amado Santo Antônio, a quem o autor alia fama e reputação ilibada: “Nascido em Lisboa, a 15 de agosto de 1195, vai o Taumaturgo a caminho de um milênio, sem que haja diminuído no mundo a sua clientela, tão vasta que se estende por toda a cristandade” (MONTELLO, 1978, p. 108).
Mas, estou me afastando do meu objetivo (em outro momento volto a esta novela que tem Santo Antônio e Djanira como personagens principais) e dando a ideia errada de que sou uma beata que só reza. Não sou. Sou, apenasmente, muito chegada a meus santos e tenho recebido muita proteção divina na minha caminhada...
No primeiro livro citado, “Na casa dos 40”, dedicado a dois amigos e à memória de Viriato Correia, o autor escreve episódios acontecidos na Academia Brasileira de Letras.
Na sua apresentação, Montello (1962?) conta que o título foi dado por Adelmar Tavares, na última conversa que tiveram, antes da morte deste poeta pernambucano. Josué só soube depois da morte de Adelmar que ele também tinha a pretensão de escrever um livro assim. Resolveu, então, homenagear o saudoso amigo, atendendo-o em relação ao título. Adelmar, inclusive, tinha publicado dois ou três capítulos referentes a esta temática, na imprensa de Pernambuco. Um desses capítulos traz um chiste de Machado de Assis, que a minha parte leitora gosta muito.
Josué Montello conta-o, na Apresentação. Envolve um grupo de escritores, entre os quais, Ferreira de Araújo; Sousa Bandeira; Machado de Assis; Raul Pompeia e Capistrano de Abreu. Caso acontecido por volta de 1883-1884. Consta que estes escritores resolveram estudar alemão com um professor que dominava a língua tão bem que “[...] ao transpor o “Dom Quixote” para o português, preferiu deixar de lado o original castelhano e socorrer-se de uma tradução alemã... (p.16)”.
Entusiasmado com a possibilidade de aprender o idioma, Capistrano de Abreu sugeriu convidar também o crítico Sílvio Romero para integrar-se à turma. O crítico tinha acabado de chegar “[...] do Recife com a fama ruidosa de conhecer a fundo os mestres germânicos.”
Machado de Assis fez sua objeção:
“- Infelizmente o Sílvio não pode mais aprender porque espalhou que já sabe” (p. 17). 
Neste livro, são muitos os episódios assim. Esses casos anedóticos nos permitem conhecer um pouco do que tem sido a Casa de Machado de Assis, a partir da sua fundação.
Josué Montello conta que Afrânio Peixoto também era um coletor de anedotários: “Estou a vê-lo, esfuziando jovialidade, na tarde em que me fez este reparo, numa das janelas da Biblioteca Nacional:
- O Governo, no Brasil, é uma instituição destinada a criar postos e impostos: os impostos para pagar os postos...” (p. 18).
Que bom que ele morreu sem ver que havia possibilidade de ser pior ainda...
Muitos são os episódios com o Viriato Correia, o escritor do livro Cazuza. Outros, com Afonso Arinos de Melo Franco. Traz ainda Afrânio Peixoto; Getúlio, o baixinho de São Borja; Olegário Mariano; José Veríssimo; Humberto de Campos...
Sobre a conquista de vaga, na Academia, o autor do livro em tela nos conta que “[...[ se faz por dois processos: um, por amadurecimento natural da candidatura e a sua aceitação pacífica pela instituição; outro pela disputa renhida em termos de competição eleitoral” (p. 32).
Uma dessas disputas marcantes foi a da sucessão de José Lins do Rêgo. Havia dois candidatos inscritos: Afonso Arinos e João Guimarães Rosa. 
Foi um senhor embate: “Inscritos, Afonso Arinos e Guimarães Rosa, as duas candidaturas, embora plenamente amadurecidas, dividiram, naturalmente, a instituição, criando aquela expectativa ansiosa que agrava o silêncio da urna à medida que se aproxima a hora da eleição” (p. 33).
O primeiro candidato, apoiado por Ribeiro Couto, saiu vencedor. O segundo recebeu o apoio de João Neves da Fontoura. Foi quem incentivou o Rosa a inscrever-se, entusiasmando-o durante toda a campanha. Mas, também era admirador e amigo de Afonso Arinos e ansiava pela companhia dele na Academia...
Eleito Afonso Arinos, a vida seguiu seu curso: “O reparo de Hamlet a Horácio, segundo o qual há muita coisa no céu e na terra que escapa à nossa filosofia, parece que também se aplica, com o seu cabedal de mistérios sutis, às eleições acadêmicas” (p. 33).
Quem é capaz de prever o que a vida nos reserva? Cabe-nos somente seguir adiante, aceitando o que está posto: “João Neves da Fontoura, que desejava para João Guimarães Rosa uma eleição por unanimidade, não chegou a ver realizada essa aspiração: ele próprio abriria a vaga que seria preenchida, sem um voto discordante dos acadêmicos, pelo romancista de “Grande Sertão Veredas” (p. 33).

Deve ter sido glorioso para Guimarães Rosa o momento da sua posse: cumpria o desejo de um amigo que o queria acolhido por unanimidade e sabia-se simpático a todos que faziam parte daquela casa.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

MEMÓRIAS



Remexendo fundo de baú

Não tenho lembrança se a biblioteca da UnB foi invadida à tarde, ou pela manhã. Não sei o dia e estou com preguiça de buscar a informação correta... Eu estava com 17 anos, e cursava o segundo grau, no Ciem. Tratava-se de uma escola onde o ensino público era praticado de um jeito diferente. E, para entrar, o aluno passava por um “vestibular”. As aulas aconteciam, com enfoque e didática bem atípica, em dois períodos diários.
No dia da invasão, no horário do recreio, duas colegas e eu passeávamos lá fora, na frente da escola, caminhando, à beira do asfalto, descendo para o estacionamento, devagar, desatentas, conversando. E eu estava do lado esquerdo da Isabel, bem perto de onde passaram os caminhões... Caminhões que apareceram do nada. E seguiram, com firme determinação, rumo à UnB; passando pelas curvas acentuadas da pista asfaltada de acesso ao nosso santuário de promessas de um futuro que a magia da educação concretizaria. O modelo dos caminhões era daqueles antigos, com bancos, na carroceria, carregando muitos policiais fardados, e cães.
Enquanto passavam, eu levei, de graça, uma cassetetada, no braço esquerdo. Com força. Lembro-me da dor e da solidariedade dos colegas que comentaram muito, o incidente; no dia, e nos próximos, enquanto durou a marca roxa...
De família pobre (meu pai tinha um caminhão de mudanças e minha mãe era sócia em uma mercearia de porte pequeno), meus estudos eram bancados, com sacrifício. Porque, apesar de não pagar mensalidade, manter-me em escola, na Asa Norte, sendo moradora de Taguatinga, onerava muito o orçamento familiar. E eu ainda fazia inglês, na Thomas Jefferson.
Meus pais empenhavam-se – muito – para que eu tivesse oportunidades. Se tinha uma coisa que não me preocupava, naquele tempo, era a situação política do país!
Foi o acaso que contribuiu para que eu estudasse ali, no Ciem. Um incidente que culminou com a expulsão de parte expressiva de uma turma abriu a brecha para que entrássemos, fora de época. Uma amiga, a Isabel Perna, chamou-me para fazer o “vestibular” que nos gabaritou. Todos que fizemos as provas entramos. E isso gerou procedimentos de bullying, ao longo de todo o nosso percurso, naquela escola que nos foi de grande valia. Tive uma colega de classe que nunca me dirigiu a palavra, nunca respondeu a um cumprimento meu, nunca olhou para mim... Sempre entendi a postura dela: não se sentia bem, acolhendo quem, por WO, tomou o lugar de gente que merecia, de verdade, estar ali...
De Taguatinga, éramos uns nove, ou dez. A já citada Isabel Perna (foi o irmão dela, o Pedro Perna quem nos alertou para a chance); o irmão Nonato Perna; a Liana Gonzales; a Nelize de Araújo Santos; o Ivon Lopes; o Vicente Vives Gil... fomos os que pegamos carona e entramos na escola de elite que tinha a nata da juventude brasiliense, no seu quadro discente. Pela manhã, as aulas iam de 7:30h até 12h e, à tarde, de 14h às 18h. Lá fora, no estacionamento, o movimento dos inícios e términos de turno era, estranhamente, pontilhado de carros chapa-branca, com motoristas uniformizados, que levavam e buscavam os filhos dos funcionários públicos do alto escalão; sempre uma mordomia. Tínhamos como colegas de escola o Paulo Otávio, o Collor, o Luís Estêvão e tantos, tantos mais...
Cursei Letras e Biblioteconomia, na UnB, enquanto criei 4 filhos e trabalhei na então Fundação Educacional do DF. Fui professora de língua portuguesa; coordenadora local e intermediária; chefe da Seção de Bibliotecas Escolares e Comunitárias – Sebec, do DF; coordenadora de estágio e, atualmente, trabalho como revisora de textos (tanto técnica, quanto linguagem científica e de criação literária), em língua portuguesa. Tenho meu nome de revisora em centenas de livros e dissertações e teses. Depois de aposentada, cursei um mestrado em Educação.
Meu tempo de Ciem foi pesado – foram muitas batalhas e perdi algumas. Para mim, o Ciem foi um portal que rompi, na raça, sem mágica. Foi um tempo valioso, gratificante, emblemático e traumático.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

O CINEMA DA MINHA TERRA

Minha primeira lembrança marcante e dileta, da primeira vez que estive num cinema, vem do filme “O Pequeno Polegar”, da Disney. 
Colorido e sublime.
Antes dele, nada parece ter sido assim digno de ser memorizado.
Quero crer que seja por ter crescido vendo cinema.
Nasci numa cidade que tinha um Cine Teatro, a cidade de Ipuã, no interior do estado de São Paulo.
A fachada desse espaço de sonhos era cheia de cartazes atrativos, anunciando “Para Breve, Novas Emoções!”.
Era tudo tão maravilhoso!
Um mundo à parte, onde a imaginação era a impávida e cativante jornada para o infinito.
A cada nova experiência, mais e mais sonhos se apoderavam dos corações incautos...
Eu era feliz. E sabia!
Eu ia à porta do cinema, todos os dias, onde as paredes exibiam fotos de artistas apaixonantes, nos cartazes chamativos (inicialmente, muitos filmes eram franceses; e, com o tempo, os americanos se destacavam mais), buscando saber qual a fita da noite e a faixa etária correspondente.
Lembro-me que, às segundas, terças e quartas, eram filmes repetidos.
Na quinta, o filme era novo: eu ia.
Na sexta, era filme de terror: não perdia, por nada! Quase morria de medo, depois!
No sábado, era de amor: eu ia.
No domingo, tinha a matinê: eu ia. À noite, nova fita: eu ia!
Depois que completei treze anos, virei um varapau (como diziam). O fato de ter crescido tanto tinha suas vantagens e desvantagens e eu tinha muitos complexos e muito medo de nunca parar de crescer. Mas, o certo era que o meu tamanho me permitia, à noite, transformar-me em uma moça. Além de compor-me com mais cuidado, acrescentava um sutiã à minha indumentária, completava o espaço dele todo com algodão, empertigava meu manequim de Visconde de Sabugosa e via filmes permitidos para maiores de dezoito anos! Era emocionante ver beijos na boca!
Eu tinha uma prima querida, a Vilma Cleire Giorgiani, minha melhor amiga de infância, que anotava, dia após dia, todos os títulos e protagonistas e diretores dos filmes que o cinema exibia. Por volta das cinco da tarde, íamos as duas, pelas calçadas, em direção ao nosso cinema. Ela, com um caderninho e a caneta na mão. Eu, tagarelando... Tudo anotado, resolvíamos qual seria nosso programa noturno.

Voltávamos, cada uma para a sua casa, jantávamos e tomávamos nosso rumo: ou íamos passar parte da noite com os olhos grudadinhos na tela do Cine Theatro - aquele provedor de emoções e sensações nos nossos coraçõezinhos carentes de aventuras e felicidade; ou íamos para a praça da igreja matriz, brincar de ser feliz, ao som dos sinos da minha terra...

sábado, 5 de abril de 2014

O TEMPO QUE VIVE EM MIM

O tempo é processo elástico na nossa mente: estica pra frente e pra trás, a nosso bel prazer.
Quando a viagem é pelo futuro, a experiência adquirida nestes 63 anos de vida deixa antever saldo muito positivo. Fiz a minha parte e já entrego muitas das minhas atribuições a meus descendentes.
E depende do que rola, no momento, para que as viagens sejam agradáveis e produtivas.

Gosto de revisitar os momentos de aprendizagem, mesmo os de dor, porque, à distância, eles se mostram proveitosos: pessoas são desvendadas; o conhecimento interior vem à tona; decepções são vistas com os olhos despidos de imediatismo...
Mas, continuam sendo decepções.

quarta-feira, 26 de março de 2014

OUTRO CONTO: ONDE MORA O AMOR


Sofia, na solidão do quarto frio, tem os olhos fixos na página do livro que relê pela nona vez.
Mais do que o foco narrativo, o que a encanta e prende é o estilo do autor.
Com mais de sessenta anos, já aposentada, ela é acometida de algumas mazelas, próprias da idade. Como agora, que sente as mãos formigando e a sensação de segurar o livro se torna muito incômoda. Deixa a cadeira de ler e aproxima-se da escrivaninha onde apoia o livro. A mudança, a cadeira menos cômoda, a nova posição sem segurar o livro com as mãos trazem novo alento.
Ao recomeçar a leitura, mergulha no último trecho:
“(...) Tinha cansado de esperar pelo homem que ficou, pelos homens que foram embora, pelos incontáveis homens que erraram o caminho da sua casa, confundidos pela incerteza das cartas. Na espera, sua pele tinha enrugado, seus seios tinham murchado e se havia apagado a brasa do coração. (...)”
 A página 65 do livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, na sua 23ª edição, foi devorada pela leitora que seguiu viagem e só quando se lembrou de olhar a hora de relógio foi que entendeu que precisava parar.
Deitada, de olhos abertos e o coração descansando em plumas, vê seus pensamentos tomados pelos personagens e acontecimentos lidos. Ler é entrar em estado de graça... Sabe que nunca vai ser escritora, porque o livro que ela queria ter escrito era este que relê.
Sofia teve o privilégio de nascer em uma casa com livros. Lembra-se que desde pequena ama livros. Desde que aprendeu a ler, nunca deixou de terminar de ler um livro que lhe caiu nas mãos...
O primeiro dia de aula não foi fácil; numa sala de aula cheia de menino barulhento. E a professora de nome Lurdinha a mandou ao quadro. E ela foi, toda envergonhada e sem saber nem pra quê! Era pra pegar um giz e virar pro quadro e escrever... Qual! Foi um susto só! Nem ouviu o que a professora a mandava fazer... Levou um beliscão bem na bunda! E doído que só! Envergonhada, ela soltou o giz no chão e voltou pro seu lugar, onde ficou de cabeça baixa e vermelha igual àquela pimenta dedo-de-moça que a mãe tem plantada na horta lá dela.
E ela ficou com muita raiva. Raiva de si mesma! Porque apesar de perceber que o menino se aproximava - já tinha ouvido falar que aquele menino era o Juca, filho da professora, e que ele tinha mania de beliscar as meninas – ela não se preveniu contra. E ele beliscou bem na bunda! Que vergonha!
Mas a vergonha e a raiva passaram.
Também pudera, a escola era um lugar de encantamento tão grande; lugar de aprender tanta letra e tanto número que acabava que a menina ficava até tonta, com a cabeça tão cheia de sinais que se juntavam e que se afastavam e que se juntavam...
_  A gema do ovo faz mal à saúde.
_  O quê, menina, você falou alguma coisa?
Fia repetiu a frase que estava escrita no jornal. E a mãe surtou!
_ Você está lendo? Meu Deus, essa menina está lendo!
E a família toda soube que a menina lia igual papagaio: ela repete e fala o que está escrito, mas nem sabe o que lê...
Chegava visita e a menina tinha de buscar um jornal pra mostrar que sabia ler.
Mas durou pouco o entusiasmo da mãe.
É que a Fia parecia que vivia com a cabeça nas nuvens. Escrevia no ar.
Descobrir as letras, juntar as letras, escrever palavras... Fia não parava! E ela rodava, rodava, rodava e, num repente, parava, do nada, e estendia o braço, e esticava o indicador e escrevia, e escrevia e escrevia... no ar!
A lapada na mão veio com vontade e xingamento da mãe. Cada frase parecia um soco:
_ Menina mais escalafobética! Cheia de mania! Te arranco o couro! Palerma! Aprendeu a escrever e fica com essa boca aberta! Esse braço no ar! Riscando o nada! Isso, quando não fala sozinha! Só falta babar! Escalafobética!
Fia sentiu o ardume na mão, da lapada! Correu pro quarto, pra chorar. Com muita raiva! Raiva de si mesma! Afinal, a mãe já tinha corrigido, já tinha prometido surra, já tinha comentado com o pai (e ela ouviu!) essa menina parece palerma; fica escrevendo no ar. Na próxima vez, vou lascar a mão nela.
Com o pai a mãe falava macio, contando, parecia que tinha dó dela; mesmo com raiva...
E ela parou? Parou. Depois da lapada e do choro.
Quando não estava na escola, Fia ficava no quintal. Com as árvores. Falava com as árvores. Abraçava, com seus bracinhos magrinhos, o tronco do pé de manga sabina; a goiabeira; o pé de caju. Sozinha, cantava música da igreja que aprendia na missa rezada em latim: “Ave Maria, gratia plena, dominus tecum, Benedicta Tu...” Música do parque que tinha chegado na cidade e tinha um alto-falante que tocava, na maior altura, aquele som que cutucava os ossos e arrepiava os cabelinhos do braço: “Tornei-me um ébrio e na bebida...” Subia nas árvores e ficava pendurada, de cabeça pra baixo...
Alegria mesmo, quase tão grande quanto a de aprender a ler, foi quando a professora contou que não podia ficar estragando papel; que papel custava caro; que papel era feito de árvore!
Fia nem acreditou!
Já tinha sete anos essa abraçadora de árvores que nem tinha conhecimento de coisa assim tão importante!
A página 65 do livro predileto traz a narração das preliminares do sexo praticado por Aureliano e Pilar Ternera. Satisfeita a ansiedade da carne, ela entende que ele a procurou, mas, em seus devaneios de prazer, era uma outra quem ele tinha nos braços, entranhada na sua alma e no seu gozo. Pilar pergunta e ele responde: Remedios! E Pilar Ternera o ajuda a abrir as portas da felicidade.  E Aureliano e Remedios se casam.
Sofia virou uma devoradora de livros.
O autor de cada livro é a Pilar Ternera que abre todas as portas.
Sofia costuma encostar, no peito, o livro aberto, como se o abraçasse, sempre que alguma parte lida a faz flutuar. Sempre que os acontecimentos todos – somatizados - são sintetizados num momento de estupor que a paralisa...
O livro da vez e ela, em simbiose, voltados para o sentir.
Depois que aprendeu a morar nos livros, Sofia ainda estudava, ainda sonhava, namorou, viu filmes, viu TV, casou-se, teve filhos, teve netos, envelheceu...
Não foi de pedrinhas de brilhantes o chão que ela pisou.
Foi de devaneios e prazeres o chão que ela desenhou, sempre que sobrava tempo e ela mergulhava nos brilhantes dos livros e dos personagens todos que moram nas histórias e misturam a realidade e a ficção.
As pessoas se perdem na caminhada. 
Mas os livros, as personagens e peripécias não.
Ao acordar, na manhã daquele novo dia, o livro da releitura a olhava da escrivaninha.
Ela se lembrou do dia que esperava a filha voltar de uma viagem, no aeroporto de Brasília, e viu uma moça sentadinha, encolhidinha de frio – chovia muito e era verão! - lendo o Cem Anos do Garcia Marques. Sofia se aproximou e perguntou se era a primeira vez que ela o lia. Com olhinhos de encantamento, a moça que esperava o voo para Palmas, a capital do Tocantins, disse que sim, que estava adorando, que não conseguia parar de ler... Sofia contou que já o tinha lido muitas vezes e que morria de inveja de quem o lia pela primeira vez... A mocinha se despediu dizendo que tinha certeza que também o leria muitas vezes.
Sofia deixou a cama, carregando um sorriso, e foi lidar com as horas do dia que a mantinham no chão, com a certeza que o livro a esperaria e abriria o caminho das nuvens quando ela precisasse voar...

                                         Sítio Rosa Mística, janeiro de 2014 

sábado, 1 de março de 2014

O PÃO-DE-MEL



A tia Carminha é craque na sobremesa! Nota MIL! Rainha dos cupcakes, dos bolos confeitados, dos doces variados, manjares, docim de festa, brigadeirão...
Um crime de lesa-silhueta!
No domingo passado, a surpresa foi um pão-de-mel!
Que maravilha!
Acabado o almoço e revelada a surpresa, todos se posicionaram em torno do tesouro.
Enquanto a delícia era saboreada, meus hóspedes, uns saguizinhos, apareceram à janela da cozinha. No horário de sempre! São adestrados, há umas 20 gerações, a pedir comida assim, na janela. Nunca entraram: eles têm o lugarzinho certo pra serem servidos. Antigamente, eram: bolo de fubá; gelatina e geleia de mocotó. Agora, estão recebendo apenas doses diárias de geleia. E, de vez em quando, se a vó estiver disposta, tem bolo. A Giovanna ficou com dó, quando me viu contando pros danadinhos que só tinha geleia, porque o vô tinha comido o último pedaço de bolo, no café da manhã, e sugeriu, inocentemente:
- Dá um pedaço de pão-de-mel.
Quase apanhou! Onde já se viu? Se macaco sabe apreciar quitutes assim elaborados...
Pois a vó aprovou e consentiu. E ela contrariou a maioria e foi lá e pôs um pedaço bem pequenininho. Eles cheiraram e nem experimentaram! Pode?
Foram muitas as conjeturas, levantadas pelos observadores da natureza, que continuavam à volta do bolo/pão-de-mel/manjar de deuses: é engordante, eles preferiram evitar; escutaram que nós achamos que não eram merecedores e esnobaram a turma; não comem o que vão ver uma vez a cada 15 anos; já comeram por aí e pela aparência, acham que é do mesmo...
Pois é, tia Cármen, fique sabendo que a turminha aprovou.
Apesar dos pequenos terem detonado a gelatina colorida (com direito a leite “começado” por cima).
Só um pedido: quando fizer o pão-de-mel, não faça surpresa!
Ou traga num dia de sol, quando a meninada gasta energia na piscina.
Mais um domingo de menino pulando, gritando, brigando, tocando o terror dentro de casa e a casa cai, ou muitos de nós vamos pedir asilo noutra praça...  
De todo jeito, tia querida e paparicadora da meninada, valeu, e muito!, passar uns perrengues saboreando a iguaria.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

UM CONTO: NÃO É FÁCIL SER GENTE

É sábado. Diana e Samuel encontram-se ocupados, atendendo clientes, no petshop que montaram há um ano. Ainda não se acostumaram à barulheira e movimento, na seção onde são lavados os cachorros. É uma loja de trabalho constante e, por enquanto, os resultados financeiros não são satisfatórios. Não conseguem esquecer que, na semana seguinte, serão muitos os boletos a vencer. Eles precisam fazer dinheiro naquele específico dia. Os serviços de banho e tosa têm, infelizmente, os preços tabelados, muito por baixo. Tabelados em função da concorrência, que é muita. Mas é o serviço que atrai o cliente que, além de deixar o bichinho pra tomar banho, leva a ração, uma latinha de carne processada, leva uma roupinha, um ossinho artificial, carrapaticida, coleira anti-pulgas...
Além do casal, trabalham, na loja, a tosadora e dois ajudantes. E um responsável técnico. No caso, uma veterinária, a doutora Yara. Ela assina a loja e atua preventiva e curativamente, dando assistência em domicílio, aos animais que utilizam serviços daquele petshop.
Ela havia acabado de chegar de uma consulta, quando soube que tinha acontecido uma tragédia. Uma cachorrinha cocker-spaniel tinha conseguido fugir da gaiola onde esperava sua hora de beleza e tinha vazado rua abaixo. O Daniel, um dos ajudantes da tosadora, saiu em disparada atrás da danadinha e ela, felizmente, estava a salvo, novamente, na gaiola. Só que, quando conseguiu fugir, a cachorrinha não estava só. Tinha também um yorkshire que, depois do fuzuê, não conseguiam localizar. Muito pequeno, saiu sem que ninguém o visse.
No mesmo edifício onde fica a loja, no quarto andar, Meire acabou de tomar banho e vestiu-se para descer e buscar seu cachorrinho, no petshop que fica no térreo. O nominho dele é Ramush e foi presente de casamento do marido. Tem sido um alento esse amiguinho feliz. Sem ele, Meire ficaria só, nas noites de plantão do marido, que é médico-residente, no maior hospital público de Taguatinga.
Ramush é zero, uma pelotinha de pêlos, orelhinhas apontando pra cima, atento, engraçadinho, com um andarzinho que imita o trotear de uma miniatura da miniatura da miniatura de um cavalo mangalarga marchador. Está sempre por perto. Perto dela, quando estão só os dois. Perto do Édson, o marido, quando ele se encontra de folga, e Ramush tem de optar pelo preferido. Mas essa preferência não provoca ciúme. Pelo contrário. Meire também é apaixonada pelo marido e acha a escolha muito justa.
Naquele final de semana, Édson estava de plantão e Meire desceu com o Ramush, para dar umas voltas pela quadra e, antes de voltar pra casa, resolveu deixá-lo no petshop; a loja à direita da portaria do seu edifício, para tomar um banho caprichado. Assim que o deixou, já sentiu uma pontadinha no coração, com dó do bichinho, por causa da muvuca que ouviu lá dentro. A sala de banhos, no sábado, fica cheia de cachorros de todas as raças e tamanhos, numa barulheira danada, todos latindo freneticamente, reclamando por estarem presos, ou por conta do que sabem que vão passar.
  Assim que chegou ao térreo, já na entrada da loja, Meire soube que Ramush estava sumido. Com o coração sobressaltado, sem conseguir conter as lágrimas, ligou para o marido. O hospital fica a oito quadras dali. Ele gastou uns dez minutos pra chegar e trouxe com ele o corpinho sem vida do Ramush, que ele recolheu no caminho. Ramush tinha sido atropelado e o Édson o encontrou estendido, encostado ao meio-fio. Tinha morrido na hora, conforme informou um menininho da casa em frente ao acontecido.
Quem nunca teve um bichinho de estimação, nem viveu a cumplicidade de olhares e entendimentos telepáticos na interação com ele, nunca vai entender a dor do casal órfão do Ramush.
Foi um chororô só. De um lado, Meire e Édson, que se abraçavam, sem acreditar na perda irreparável, pensando na dor do cachorrinho quando se viu perdido na rua, sem o zelo e cuidado dos seus donos... Do outro, Diana e Samuel, que sofriam vendo o sofrimento do casal, e não conseguiam afastar o pensamento que direcionava para o prejuízo financeiro que significava essa morte...
A veterinária apossou-se do corpinho e entrou com ele no seu consultório, envolvendo-o com um jaleco branco que estava sobre sua cadeira, tentando amenizar o impacto da cena. Também porque a expressão de dor estampada no rostinho do Ramush incomodava muito. Evidenciava que os momentos finais tinham sido terríveis. Meire e Édson a acompanharam até o consultório, chorando desesperadamente, e acalmaram-se à proporção que entendiam que tinha sido uma fatalidade. Yara propôs formolizar o corpinho e, depois então, entrar em contato com eles para saber a decisão sobre o que fazer em seguida. E sugeriu cremação. Meire não aceitou. Chorando, disse que queria ter um lugar para visitar e homenagear a lembrança do amiguinho, mesmo que filho.
O resto do sábado foi de consternação e tristeza.
Na segunda, de manhãzinha, um jornal de TV local armou o maior espalhafato, com o tema. A Meire e o Édson apareceram na tela, muito tristes e chorosos, e mal conseguiram falar. A reportagem mostrou a fachada da loja e entrevistou alguns passantes que acharam uma irresponsabilidade; um absurdo que o dono da loja não cumpriu seu papel e provocou tamanha perda; que esse tipo de coisa devia ter lei pra punir responsáveis... Um verdadeiro massacre moral, contra os donos do petshop. Devia estar faltando assunto mais cabeludo, no universo televisivo. Se bem que noticiário com animais maltratados, ou desrespeitados, tem dado bastante pontuação de audiência, ultimamente.
Com isso, ficou difícil o diálogo entre os casais. E foi preciso contratar alguém para intermediar as negociações. Diana e Samuel estavam parecendo dois zumbis. Dormir era o que menos tinham feito, desde a tragédia do sábado. Tanta coisa pra decidir e deixar esse assunto no passado. Por exemplo, o corpo formolizado só aguenta sete dias até ser sepultado. Era pra cremar? Era pra enterrar? A torcida era para que autorizassem incinerar. Seria uma solução e tanto. Porque a cremação ficaria em oitocentos reais! Esta capital federal tem cada coisa! Só conta com um crematório e ele opera com preços abusivos. Onde já se viu, oitocentos reais pra fazer de um cachorrinho de menos de um quilo um punhadinho de cinzas? Qual!
A veterinária tomou a frente e foi à casa da enlutada. Conversou, conversou, não chegou a consenso algum e saiu amargurada, depois de ver o sofrimento do casal. Nada os consolava. O ponto alto da saia justa tinha sido durante a proposta de substituir o Ramush por um outro yorkshire. Nem pensar!
 Ramush foi posto no congelador da geladeira de uma clínica veterinária em Águas Claras e ficou suspenso o desenrolar do possível enterro. Veio outro final de semana. A notícia então foi veiculada em jornal impresso. Fotos do Ramush, todo feliz, no colo da dona, a Meire. Foto da Meire bem abatida, ao lado do marido, cabisbaixo. Foto da fachada da loja e parágrafos e parágrafos sobre a tragédia e o descaso dos donos da loja que nem recolheram o corpinho no local do atropelamento, na hora do acontecimento drástico: um desrespeito aos sentimentos dos donos!
Na terça, um advogado, contratado pela Diana e o Samuel, foi à casa dos enlutados. O casal propôs as exigências para um acordo: as cinzas do Ramush numa urna dourada; um outro cachorrinho da mesma raça e idade; a responsabilização pelas vacinas e atendimentos veterinários enquanto este vivesse. O advogado entendeu ser um acordo justo.
Assim que redigiu o acordo, tendo o cuidado de estipular um prazo de trinta dias para que a firma cumprisse as cláusulas estipuladas, o advogado voltou ao apartamento da Meire e do Édson, para que o assinassem. Deu-se por satisfeito. As partes pareciam satisfeitas. Mais uma vez, o bom senso tinha prevalecido e as pessoas mostraram que o combinado nunca é caro.
Qual não foi a surpresa do doutor quando, três meses depois, encontrou-se com a Meire e o Édson em um hipermercado de Taguatinga e soube que nada do que tinha sido acordado, na ocasião, tinha sido cumprido.
_ No final de semana que sucedeu à assinatura do acordo, a Diana e o Samuel fizeram a mudança, na madrugada. A loja ficou fechada um bom tempo. Lá, no momento, funciona um salão de beleza, disse o Édson.
A Meire acrescentou:
_ Soubemos que a firma era registrada em nome de um laranja. Nem pensamos em procurar o doutor. Sabíamos que era causa perdida. Aí, descobri que estou grávida e resolvi esquecer toda essa história. Afinal, cachorro e criança pequena não combinam, não é mesmo, doutor? 
                                     Sítio Rosa Mística, 9 de agosto de 2011