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segunda-feira, 2 de maio de 2016

MEMÓRIA DE IPUÃ

Uma relíquia!

Notícias da minha cidade natal, no ano de 1938.
Este exemplar foi cedido pelo primo dr. Moacir Tazinafo que o recebeu de um amigo.

IPUÃ/ MEMÓRIA

MATÉRIA EXTRAÍDA NA ÍNTEGRA DO JORNAL ‘O BANDEIRANTE’, EDIÇÃO N. 78, DATADA DE 19/ JULHO/ 1938
   “ SANTANA DOS OLHOS D’ÁGUA- Um pouco de sua história p/ D. C. Rangel.”

      Os Batista Teixeira

      O esboço primitivo desta localidade, pensamos, data cerca de um século. E João Batista Teixeira, natural de Caldas, estado de Minas Gerais, foi o primeiro homem branco a plantar junto do “córrego Barreiro“, a sua choupana de desbravador do sertão. A sua intervenção, como era natural, não foi bem recebida pelos indígenas da zona de Ypuã ou Ypu, que eram as denominações que, segundo as notícias da primatividade, os nativos davam a esta região. Contudo, ao lado de seu contraparente Antônio Manso Teixeira, não cedeu às primeiras investidas e artimanhas da tribo dominadora, para algum tempo depois se convencer que duas inteligências e dois homens embora corajosos, não bastavam para vencer os habitantes de gleba e a sua natureza inculta e ameaçadora, e por isso, deixando posse conhecida, voltaram ambos a Minas, de onde vieram, alguns anos depois, João Batista Teixeira Filho, respectiva família e muitos agregados completar o trabalho do velho.

      O casal Carlos Fernandes

      A fama desse sertão foi se tornando conhecida e atraiu para aqui o casal Carlos Fernandes que, adquirindo grande porção da fazenda Barreiro, se localizou também à margem esquerda do “Córrego Barreiro “, que é o lado que a vila se desenvolveu. Homem prático e de certa inteligência tendo como esposa D, Tereza, senhora muito caridosa e católica, tomou Carlos Fernandes a firme deliberação de fazer brotar aqui um povoado sob os auspícios de Nossa Senhora Santana, santa da devoção de D. Tereza .

      A Capela

      Escolhida assim a nossa milagrosa padroeira, o casal Fernandes doou ( em data que não pudemos conseguir ) cerca de cem alqueires de terras à direção católica da Província de São Paulo para a formação do Patrimônio Paroquial e do povoado. Com essa doação, que deve orçar por cerca de noventa anos, surgiu a primeira capela para a oração dos fiéis, o que constituiu um estímulo à nascença do povoamento, onde se aportariam os viajores e novos imigrantes em busca de farturas. E o povoado tomou vulto: sobradões de adobes, de grossos esteios e portais enormes de aroeira, com grades e parapeitos pelos altos das janelas, fizeram época num cordão de linhas irregulares e imponentes como uma pequena cordilheira de pontas vermelhas e fraldas brancas.

       A Paróquia

       Dado o grande passo da doação e da construção da Capela, Carlos Fernandes e outros elementos de importância como o capitão Francisco Marcolino Diniz Junqueira, Plácido Ferreira Lima, Antônio Gomes, Antônio Soares Guimarães, Manoel Ferreira Mendes, Januário Rogério de Moraes, Domiciliano Carlos Nogueira e outros amigos da localidade, conseguiram a criação da Paróquia  e a elevação do povoado a arraial e segundo distrito de subdelegacia da Vila de Espírito Santo de Batatais, comarca de Franca do Imperador.


       O Distrito de Paz
       Com a vinda do Pároco Felipe Ribeiro da Fonseca para dirigir a Paróquia , Santana  ganhou mais um elemento de valor e capaz de orientar  melhor as suas tentativas de progresso. E assim, naturalmente sob orientação mais esclarecida, os incrementadores do desenvolvimento local, conseguiram, a 25 de abril de 1859, fosse o nosso arraial elevado a Distrito de Paz pela Lei n. 23, que o denominou Santana dos Olhos D’Água.   
       Um grande mal
       Infelizmente , cremos que em 1896, umas febres contagiosas e de caráter maligno, interceptaram o progresso que levaria Santana a município, despovoando o nosso território pela morte e pelo êxodo quase completo de seus habitantes.
       O carro do grande mal passou vagarosamente, deixando fama assustadora. E por isso só depois de muito tempo e já sem o entusiasmo da primeira arrancada, é que voltaram a esta terra alguns de seus velhos moradores e novos emigrantes, entre os quais os filhos de Carlos Fernandes- Joaquim e Prudenciano – Inácio Moreira Alves, José Ferreira Borges e Capitão João Garcia de Carvalho ( este falecido há poucos anos ) e que ainda tentaram algo em favor do distrito, sacudindo-lhe a poeira do marasmo em que caíra.
       E foi então que os velhos sobradões já antiquados e em ruínas pelo abandono, escorados apenas pelos esteios de aroeiras impassíveis ao avanço do tempo, foram demolidos e construídas casas mais modernas com a descrição de um alinhamento melhor imaginado.
       O nome desta região
       Como fizemos referência de início, e isto baseados em informações que vêm atravessando o tempo, conforme asseguram descendentes do velho Morais, os selvagens chamavam a esta gleba de Ypuã ou Ypu, enquanto que os primeiros visitantes brancos, chamavam-na Barreiro, devido ao brejão do córrego que ainda conservava este nome. Vindo para aqui o casal Fernandes e sendo D. Tereza devota de Nossa Senhora Santana e fazendo construir a Capela a que nos referimos sob o patrocínio do nome da Santa de sua devoção, ficou o povoado conhecido pela denominação de Santana.   Mais tarde, porém, com a chegada do padre Felipe, fez este com que a Paróquia conservasse o nome da Santa com o acréscimo de Olhos D’Água, isto não só porque existiam muitos olhos d’água que chegavam a formar um pequeno afluente do “Córrego Barreiro”, mas também, ao que supomos, porque a denominação dada pelos indígenas prendia-se a este mesmo fato, isto é, à existência de água que brotava das pedras e da terra, de vez que, segundo afirma o professor João Ribeiro, Y pú ( e possivelmente Ypuã ) correspondeu no guarani à expressão portuguesa olhos d’água, conclusão a que deve ter chegado aquele ilustre pároco naquela época, em que, convém lembrar, era fácil obter dos indígenas  a explicação dos termos por eles empregados. E assim se justifica o fato da lei que criou o Distrito lhe ter dado a denominação de Santana dos Olhos D’Água, convindo notar que o complemento Olhos D’Água, conforme nos reiteramos pelos livros do Cartório de Paz do Distrito, só foi aproveitado a partir de julho de 1885, nas escrituras aqui lavradas. Interessando-nos agora pelo caso, descobrimos que dos relatórios e mapas da organização judiciária do Estado elaborados pela Repartição de Estatística somente até 1895 é que mencionavam a denominação completa dada a este Distrito pela Lei1859, e que daquela data em diante, o Distrito vem sendo chamado simplesmente ‘Olhos D’Água”, pelo que o nome Santana dos Olhos D’Água ficou sendo somente paroquial, ao que parece, desde aquela época, embora só em 1931 tenha o nosso antecessor no Cartório, passado a omitir o nome Santana e chamar a este Distrito somente de Olhos D’Água.
        A tendência maior em nossa população seria a de chamar o nosso Distrito somente de Santana, o que seria mais prático e razoável se não houvesse o grande inconveniente de ser este um nome já dado a muitos outros lugares.
        Olhos D’Água, conquanto não seja um nome inexpressivo, presta-se mal para designar por adjetivo dele derivado, a naturalidade das pessoas aqui nascidas e das associações aqui existentes.
        Últimos Tempos
        Afastado de estrada de ferro e passando seus atributos para os diversos municípios a que vem pertencendo, o nosso Distrito não recebeu dos favores públicos a merecida paga. E o progresso, que gosta muito de andar de trem, ou pelo menos por boas estradas , não se manifestou aqui em todas as atividades. E com a criação de distritos e municípios vizinhos, como sejam o de Guairá e São Joaquim, Olhos D’Água sofreu uma sangria bem grande no seu patrimônio territorial e produtivo, e como se não bastasse, a passagem legal, temos notado que parte da zona do Sucuri serve-se de Guairá e parte da zona do Córrego da Barra e da Estiva, onde estão localizadas as importantes fazendas Santa Cecília e Santa Helena, serve-se de São Joaquim, devido ao horário cômodo dos ônibus.
        Com a passagem do nosso Distrito para a comarca de São Joaquim sob cuja jurisdição estamos, parece que temos sofrido menos no terreno da administração municipal, principalmente quando esta esteve entregue ao Dr. Darci Uchoa e Dr. Eusímio Batista, que foram nossos subprefeitos e que nesse posto muito fizeram pelo Distrito. E como fato interessante, notamos que Olhos D’Água cresceu muito depois que se apresentou a crise do café, principalmente de 1930 a esta parte. E isto não devido às revoluções de  alterações de regimes políticos, mas porque a crise exigiu economias e muito trabalho e obrigou a nossa  população e principalmente os lavradores a se servirem da prata da casa, isto é, fazer suas compras no comércio local, que tomou por isso grande desenvolvimento, e incrementar aqui pequenas indústrias para se bastar do que fosse de imediata  necessidade. E assim, temos aqui atualmente diversas olarias, fábricas de polvilho e farinha de mandioca, máquinas de benefício de café e arroz e preparo de ferragem para animais, duas grandes oficinas de ferreiro, fabricação de veículos e serviços mecânicos, engenhos de cana e moinho de fubá, dezoito casas comerciais, quatro farmácias, quatro confeitarias, diversos salões de barbeiro, sapataria e selaria, e etc., e isto sem querer fazer referência somente à vila e suas imediações. O plantio de cereais é também considerável em nosso território, e o algodão de três anos para cá vem dominando os cerradões e invernada de terras outrora infrutíferas e contribuindo extraordinariamente para a situação financeira dos lavradores.
        A vila que até há poucos anos tinha menos de duzentas casas, e correio somente duas vezes por semana feito por meio de um automóvel que era o único veículo de carreira para São Joaquim, conta atualmente mais de trezentos prédios, entre os quais residências caras e modernas, como se vê dos clichês desta edição; três ônibus diários para São Joaquim e um para Guairá e outro para a fazenda São José, e ainda com as seguintes associações, que são um índice seguro de nossa interessante vida social: “Lira Carlos Gomes” com sede em prédio próprio, tendo ótima banda de música e excelente jazz-band; “Congregação Mariana”e “Pia União das Filhas de Maria”, associações religiosas com sedes instaladas; “Grêmio Esportivo Ipuano”, associação que dirige o esporte local, possuindo um quadro invicto de Bola ao Cesto, bons nadadores e remadores, e estudiosos enxadristas. Além das festas e passeios que a nossa sociedade sempre promove, temos retreta aos domingos e feriados, cinema falado e outras diversões públicas. Com relação à vida religiosa, estamos também muito bem servidos dada a dedicação com que o nosso distinto Padre Hermano Kuhnel e seu sacristão Joaquim Domingos de Antoni trabalham nesta Paróquia.
        O Grupo Escolar, que conta com seis classes, é dirigido pelo distinto e inteligente moço Oscar Vollet Sachs e tem como professores bastante dedicados,  o sr. Júlio Soares Dihel, D. Marta dos Santos, D. Tereza e Antonieta Capuzo, D. Amélia Chediak Teixeira e D. Ana Schimidt. Há ainda uma escola municipal provida interinamente pelo sr. Manoel Joaquim Marques com funcionamento regular.
        O serviço policial está a cargo do sr. Jair Souza Teixeira, elemento de destaque em nosso meio, e dos senhores Urzino de Almeida Melo, Josino Guilherme dos Reis e Afonso Trigo, que são também cidadãos dignos e moderados em suas ações...
        A subprefeitura está atualmente com o Dr. Euzímio Batista, a quem Olhos D’Água já deve considerável porção de seu desenvolvimento, e de quem nos é lícito esperar uma administração bastante progressista, dadas as qualidades que já lhe conhecemos.
        O juízo de Paz do Distrito tem como Juiz o respeitável cidadão Indalécio de Souza Melo e como escrivão o sr. Durval Correia Rangel.
        A Agência Postal tem como agente o dedicado funcionário sr. Firmo Zanini e como estafeta o sr. João Carlos Figueiredo, funcionário verdadeiramente exemplar.
        Uma das nossas grandes dificuldades nesta vila, por estarmos afastados 25 quilômetros, são os trabalhos que temos junto à Coletoria Estadual, e isto porque, não obstante a boa vontade dos funcionários daquela repartição, não raro somos obrigados a perder o ônibus das duas horas para podermos realizar o pagamento de impostos, fazer declarações estatísticas, e etc., em virtude do sempre constante movimento da repartição. Entretanto, estamos informados que, dentro em breve, será instalado nesta Vila um Posto de arrecadação de impostos estaduais, aliás já criado há cerca de um ano.
        Não encontramos dados relativos à criação da Paróquia, mas cremos que ela coincidiu com a elevação do povoado a arraial, fato que deve ter ocorrido em 1857, época em que se iniciou o primeiro livro de notas a cargo do escrivão da subdelegacia local.
        Arriscamos a indicar o ano de 1896 como sendo o provável da epidemia que se propagou nesta zona, não só devido a informações de velhos moradores daqui, mas também porque naquele ano o registro civil neste Distrito esteve quase completamente paralisado.

        ( Este texto foi copiado e, certamente adequado ao português da nossa época, pelo encarregado do Setor de Serviços Gerais, sr. Carlos Roberto da Rocha, em 25 de março de 1992). 

sábado, 12 de dezembro de 2015

PRECE DE MÃE


Foi no livro Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Marques, que o personagem José Arcadio Buendía disse pra Úrsula, sua esposa:
“- A gente não é de um lugar enquanto não tem um morto enterrado nele” (1967, p. 18).
Seguindo a linha de pensamento do personagem, foi, então, no dia 26 de junho de 1970 que nossa família passou a pertencer a esta terra de aventureiros sonhadores; o Distrito Federal. Numa tarde de sexta-feira. Porque foi nesse dia que, aos 94 anos, nossa Nona Henriqueta faleceu. E foi sepultada, no dia seguinte, no cemitério Campo da Esperança.
Ela nasceu na Itália, na segunda metade do século XIX, e chegou ao Brasil, com a família, com apenas 4 aninhos. O nome, na chegada, era Henrica Consoni. Quando se casou e foi morar em Ipuã, no interior do estado de São Paulo, com o Francisco Mapéli, seu nome ficou assim: Henriqueta Consoni Mapéli. Os dez filhos nascidos deste casamento foram criados na cidadezinha pacata.
Quando minha família veio morar em Taguatinga, a Nona não quis vir. Ficou morando com um filho. Chegamos em fevereiro de 64. Antes do final do ano, a Nona veio também. Não aguentou de saudade.
Foi essa Nona quem criou a minha mãe, desde que ficou órfã, pequenininha.
Meu pai costuma contar que via a Nona rezando e, em voz alta, ela pedia: “Ó Dio Cristo, traz um fio meu aqui, neste fim de mundo pra me ver, antes da minha morte...”
Era interessante ver aquela senhorinha ranzinza rezando, com o terço nas mãos, balbuciando algumas palavras e, pronunciando outras, em voz clara: “Ave-Maria, cheia de graça ... balbucios... Santa-Maria, mãe de Deus ... balbucios... e na hora da morte. Amém!”.
Pois ela rezava o dia inteiro. Costumávamos fazer chacota, dizendo que ela não rezava a oração inteira, que não valia e ela não seria atendida...
Teve um dia que meu pai a ouviu pedir com tanta convicção que ficou impressionado. E foi naquela mesma semana que apareceu um filho dela, o tio Hermínio!
Este tio havia se mudado para Mato Grosso, com a família. Fazia muito tempo que não o víamos. E ele chegou, na porta da nossa casa, de táxi. O ponto de referência era o Clube dos 200. Mas, meu tio não sabia nem o endereço, quanto mais algum ponto indicativo de como chegar até onde se encontrava a mãe dele!
Ele contou que viu o tamanho da cidade e não acreditou. Achava que era uma cidade tão pequena, mas tão pequena que até os cachorros se conheciam pelo nome...
Procurou um hotel onde se acomodar e pensar em como resolver a situação (acho que foi aquele que ficava ao lado da Igreja do Perpétuo Socorro) e não conseguiu se hospedar, porque estava sem documentos!
Que problemão!
Conversando, no hall do hotel, falou dos parentes e citou o sobrenome Gerin. Foi quando alguém disse: -" - O senhor é parente do Cláudio Gerin?" Pronto! Meu tio sentiu que renascia. Esse alguém foi atrás de um hóspede que trabalhava com o Cláudio Gerin, meu irmão, e foi ele quem pôs meu tio num táxi e o mandou para a QSB 13, em frente à entrada do Clube dos 200 (naquela época, a entrada era outra)...

Nesta foto, vemos meu pai; minha irmã Carmen Silene Gerin; o senhor Atílio Romualdo, um amigo (também da minha cidade natal); minha Nona; eu, logo atrás da Nona; e, do lado direito da foto, o aventureiro tio Hermínio, que veio a mando do nosso Pai, atendendo o pedido de uma mãe carente de afeto de filho. Foi uma visita muito comemorada!
Nossa Nona dizia que não queria ser enterrada no cemitério do Plano; queria ser levada para a nossa cidadezinha, para se juntar ao amado pai dos filhos dela. Não foi possível. Os tempos eram duros! Havia prioridades.
De onde ela estiver, ela entende e perdoa. Sabemos que a distância física é muito diferente da distância espiritual.
Quero agradecer, nesta homenagem, o legado dela: foi uma batalhadora e trabalhadora; prezou a honestidade e o amor à família; foi generosa, pois, além de criar dez filhos criou duas netas; e nos permitiu ser descendentes de fé, gente que acredita que a vida merece ser escrita com coragem e esperança.
Deus a tem!

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

PASSARINHOS

Resolvi perder tempo, observando e ouvindo passarinhos,
Tem um q alerta: tivi, tivi, , tivi, tivi...
O outro parece procurar um vestido! A cada vez, repete três vezes: vis-tidu, vis-tidu, vis-tidu... Aí se cala. E volta: vis-tidu, vis-tidu, vis-tidu...
Quando contei pra Taís, a netinha caçula, de quatro aninhos, ela perguntou se ele queria comprar um vestido. Respondi que achava que ele queria era vender... Afinal, os tempos andam difíceis!
Acabou de passar um pássaro grande. Estabanado. O sol me impediu de vê-lo, mas, pelo som, era um tucano que se apressava em acudir alguém, repetindo: toaqui, toaqui, toaqui...
Passou um avião que silenciou tudo, intimidando a todos com seu brilho ofuscante e o barulho invasivo...
Encontro-me deitada, no pula-pula dos meninos da chácara. Fica na área da piscina e, de onde estou, tenho um olho grudado nas netinhas de cinco anos,  a Juliana e a Clarisse, que se esbaldam na água; e o outro nos passarinhos... Bem verdade que os ouvidos estão mais ligados aos passarinhos que o olho...
O pseudo-tucano voltou e pude vê-lo, perseguindo um alado pequenino. Como são enganosas as conjeturas! A bem da verdade, com seu voo barulhento, de asas intimidadoras e possantes, ele caça um passarinho desprestigiado e repete toaqui, toaqui, toaqui... Nem é tão grande. Nem é tucano. Mas o pequeno é mesmo minúsculo!
Em trinta e três anos de chácara, mal sei distinguir um sabiá de uma rolinha.
Só gosto de fotos de pássaros. Ao vivo e em cores são cansativos no quesito cantilena repetitiva. Considero-os barulhentos inoportunos.
O indefeso pequenino se vira, usando o que a natureza lhe deu de melhor: a capacidade de mudar a rota! Vira-se com facilidade, para a esquerda, depois para a direita, e o grandão toaqui passa reto, sem a agilidade pra acompanhar o perseguido;  e demora um pouco para voltar ao curso perseguidor...
Na vida também somos perseguidores enfáticos e levamos rasteiras que atordoam, mas voltamos ao curso com a mesma ênfase... Pelo menos, muitos somos assim...
Um pequenino chegou e pousou pertinho de mim. Chegou mudo e saiu calado. Tive a certeza de ouvir seu coração batendo apavorado tum-tum, tum-tum... A aventura deve ter servido como teste de coragem e aposto que o assustadinho ganhou uma aposta entre os seus, mostrando-se poderoso...
Pousam seis sabiás de uma vez sobre cinco fios de energia esticados entre dois postes. Imagino uma clave de sol, além de me dar o direito de ignorar um dos fios onde nem um pousou. Leio as notas musicais: re, mi, sol, sol, re, fa. E fico frustrada por não ter a peça musical inteira...
Tem um q fala rapidim e chiadim assim: eufixixi, eufixixi...
Também contei pra Tatá e ela riu, dizendo que se ele fez xixi lá do céu então deve ter molhado a cabeça de alguém.
Outro se acusa admirado a intervalos pequenos: uuooou!, uuooou!, uuooou!...
Agora, muitos se escondem entre as folhas da árvore mais próxima e chiam juntos: shshshshsh Também ouço, vindos de lá, de vez em quando, uns piados. Um dá gargalhadas tristes a intervalos regulares: hahahahahahahahahahhhhh
Definitivamente, depois de um bom tempo, entendi que nada aprendi ouvindo pássaros.
Já sabia que cada um tem seu próprio jeito de ser.

Mas, foi divertido parar um tempo os meus pensamentos para relaxar e constatar que tudo que é ser vivente se encontra enredado nos seus feitos que parecem – para eles, principalmente - carregados de importância... 

                                                                                                                                agosto de 2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A ODISSEIA


A Clarisse chegou na hora do almoço e ela e a Juju se esbaldaram, brincando até não poder mais. Dormiram cedo. Cansadas. Não é mole ter de inventar brincadeiras, e pular na cama elástica, e andar de bicicleta por horas... A ansiedade para interagir muito e curtir férias juntas detonou as duas.
Na hora de dormir, ouvi que tinham planos para a manhã do dia seguinte:
- Você me acorda, Clarisse! A gente vai de bicicleta lá na fazenda ver os porquim.
Achei graça! A Juliana chama a parte baixa da chácara de fazenda. Tem sentido! Porque lá é onde tem porcos e bezerros. Mas só vão até lá quando um adulto leva.
Depois que tomaram café, seguiram para a área onde fica a cama elástica e eu me distraí fazendo minhas obrigações.
Demorei pra sentir falta das meninas. Depois de chamar até, entendi, assustada, que elas tinham descido pela estrada. Errei quando não levei as meninas a sério! Não tinha atinado que a trama das “inocentes” estava em execução, porque a bicicleta estava na cozinha. Elas tinham combinado que iriam de bicicleta!
Já pronta para ir atrás; vi as duas chegando de volta. Tem uns 800 metros da minha casa até a “fazenda”. Andaram quase dois quilômetros, portanto!
A Clarisse, toda sorridente, trazia uma gata no colo. Chegaram pedindo água e almoço!
Resolvi, “didaticamente”, tocar o terror para evitar novas incursões assim perigosas. E comentei que deram sorte de não encontrar o homem que carrega crianças. E fantasiei bastante. Uma das fantasias mais fortes foi a paulada na cabeça, pra desmaiar e não gritar, antes do homem mau pôr a criança no saco e levar embora... O papo rendeu! A mãe da Juju chegou e ficou brava e ajudou a assustar as duas, com mais fantasiosas personagens que carregam criancinhas. A tia Gisele chegou, pra trazer o Rafael e a Taís para passarem a tarde e pôs mais lenha na fogueira...
E a vovó ficou sozinha com os quatro. E com o medo dos quatro! Sem o direito de ir ao banheiro! Porque onde a vovó estivesse, os quatro estavam por perto.
E a gata?
Antes mesmo do almoço, a danadinha tinha sumido pela casa. De vez em quando, ouvíamos o miado dela. Quando acontecia o miado dolorido e tristonho (tadinha! tá chamando a mãe! tá com fome! tá desesperada sem saber como vai ser sem a mãe dela!...), a meninada, sob o comando da vó, partia atrás do som...
Qual! Nem sinal da bichana.
Concluí que ela estava no telhado e convenci os meninos a irem pular alto na cama elástica pra enxergar a gatinha no telhado.
Distraídos, deram sossego pra vó que correu arrumar o lanche e, de quebra, teve a inspiração de também fazer amendoim doce, que a turminha adora.
Além de não avistarem a gata, a meninada incutiu que tinha visto, por cima do muro, no pasto, um homem carregando um saco nas costas rsrsrsr
O resultado foi a maior gritaria e um chororô bem histérico da Clarisse (exagerada e dramática) e da Taís, a medrosa aterrorizada que viu, também, o braço de um robô lá perto do portão:
- Vai lá, vó, tá lá no portão, vó, vai lá.
- Tá bom, fica aqui que eu vou lá!
- Não, vó, não vai, não! O homem do saco vai te pegar!
Nós cinco, de mãos dadas, fomos lá olhar pelo portão para ver se tinha alguém no pasto. Não tinha! Também o braço do robô não estava mais lá...
E pensar que as férias mal começaram...
Voltamos para a cozinha e, enquanto lanchavam, avisei que tive a ideia de criar um dispositivo para afastar o medo. Olhinhos interessados se voltaram para mim, curiosos, porque acendeu uma esperança; a de afastar aquele medo horroroso que tinha acabado com a paz deles.
Pus, no liquidificador, o equivalente a dois copos do amendoim doce que tinha feito e fiz paçoquinha. Distribuí porções em quatro cumbuquinhas e convenci a turminha que, quem comesse daquela poção mágica, arrancava o medo do coração.
Mas tinha que comer de olhinhos fechados, com colherzinha, sem pedir água rsrsr.
Compenetrados, eles enchiam as colheres, fechavam os olhinhos e punham a poção na boca.
A Tatá, a mais novinha, fez hummmm por duas vezes! A danadinha sabe apreciar, como ninguém, o saboroso que as papilas gustativas dela detectam!
Comeram tudo!
Pediram água e eu dei, e, mesmo assim, a mágica aconteceu!
Deu certo: o medo foi embora!
O resto da tarde foi uma festa só!
O sossego só era interrompido quando pintava um deles pra pedir mais poção paçoquinha:
-Dá mais vó, pra espantar o medo de vez!
A gata só foi encontrada na hora de dormir! Estava presa no quarto de som, que fica perto da cozinha...



sexta-feira, 3 de julho de 2015

LEGADOS


                 Foto do livro em tela, página 75
À página 66, do livro Nossa Terra, Nossa Gente, publicado em 1977 pelo escritor ipuanense Sebastião Aparecido Cruz, uma notícia publicada no jornal A Semana, edição 51, traz referência a missas celebradas na nossa Igreja Matriz (o autor manteve a grafia original):

“AVISO PAROCHIAL
Recebemos em data de 5 do corrente, o aviso que abaixo transcrevemos:
“A começar do próximo domingo, aos domingos e dias santo de guarda, haverá nessa Matriz duas missas, as 8 horas e as 16 horas.
Sant’ Anna dos Olhos D’ Água, 5 de maio de 1932.
O Vigario. P. José M. Brandi”

Em seguida, vem a nota, na mesma edição:

“VISITA
Recebemos anteontem a visita do Revmo. P. José M. Brandi, actual vigário desta parochia. Gratos”.
A nota com o título VISITA foi publicada, portanto, no dia 7 de maio de 1932.

Meus pais, Ézio Gerin e Jandira Mapéli Gerin, nasceram em Sant’ Anna, no ano de 1926. Em 48, a cidade passou a chamar-se Ipuã. Nessa data citada na edição do jornal, tinham 6 e 5 anos, respectivamente.
Uma viagem, imaginar o que era nossa cidade, naquele tempo!
Acho de grande importância ler sobre o passado.
Acho que todos deveriam deixar sua história escrita para que os descendentes tenham conhecimento do legado que receberam.
Essas notícias de edições passadas de jornal evidenciam como as circunstâncias eram diversas das que nós vivemos hoje... Ou das que vivemos na infância e adolescência...
Minha primeira comunhão, por exemplo, foi muito representativa, num tempo quando a religião era à base do temor a Deus, muito mais do que o amor a Deus...
Foi no dia 30 de novembro de 1958. Eu tinha acabado de completar 8 anos. Não tenho fotos, não tenho mais o santinho que meus pais mandaram fazer em gráfica para distribuir como recordação. Mas tenho, com certeza, lembrança marcante do momento quando, ajoelhada, aos pés do altar, vi o padre aproximando-se...
Nas aulas de catecismo que antecederam aquele momento, ouvi casos de pecadores que teimaram e foram receber a hóstia com a alma suja! Que absurdo! Então, coisas terríveis aconteceram! Ah, a imaginação de quem quer atemorizar uma criança é mesmo prodigiosa!
Tinha ido ao confessionário no dia anterior e, com certeza, se não pequei por palavras, atos e omissões, tinha pecado em pensamento! Temi, pois, que me acontecesse o pior! Não me lembro qual foi meu pecado nesse ínterim confessionário/hora da experiência com a primeira hóstia; mas tinha pecado, pois não consegui dormir direito na noite anterior.
A missa era, ainda, em latim. O padre e os coroinhas ficavam de costas para os fiéis. Era um tremendo marasmo; um silencioso e pesado tédio! Só tínhamos a nos animar o badalar na hora dos sacramentos. Porque vinha carregado de simbologia, com o padre e o castiçal e uma toalhinha branca e a hóstia sendo protagonistas de um ritual fascinante; e era o prenúncio de que chegava a hora da comunhão.
Meu temor persistia: e se, na hora que o padre viesse com a hóstia pro meu lado, e eu abrisse a boca para recebê-la, labaredas saíssem e queimassem a mão dele e ele visse o demônio, em pessoa, dentro de mim? Ou, se minha língua, em contato com a hóstia sagrada começasse a sangrar?
Trago comigo, até hoje, esse pavor.
Mas, com certeza, não me impediu de cometer meus pecados!
O ser humano é extrema e narcisicamente autocondescendente. Só não perdoa erros nos outros. Somos assim pela própria natureza! No entanto, acho que eu, particularmente, tenho plena noção de que não aceito comigo o que não acho certo acontecer com o outro... Eu me policio (todos pensamos assim!)! Então, tenho discernimento! Mas, e se eu tiver deixado passar algo? Então, quando eu me aproximar da hóstia, achando que não tenho pecados, algo vai acontecer para mostrar-me que sou hipócrita?
Vai?
Faz muito tempo que não me confesso, nem comungo... Que feio! Mas é assim mesmo... Fazer o quê? Também é legado.
Viajei!
Intencionalmente!
Era muito impactante o contato com a igreja do meu tempo de menina!
E marcou muito!
Marcaram muito também as quermesses!
À página 75, o autor cita as Festas Religiosas: “[...] pensamos que a festa da padroeira seja a mais antiga de nossa tradição” (CRUZ, 1997).
Na sequência, vem o testemunho de Francisco Silva, contando que tinha um ano de idade (em 1913), quando a mãe “[...] Ana Stábile, já participava da festa de Santana. Naquela época eram três festeiros cada dia e esses festeiros traziam, cada um, vários cartuchos de doces caseiros e ficavam na sacristia, pois, logo após a missa, os doces eram distribuídos às crianças” (IDEM, p. 76).
Fiquei pensando que teria gostado muito de viver isso: ganhar doce após a missa...
No seu testemunho, o sr. Francisco Silva conta que Santana comemorava, de maio a julho, os eventos religiosos: “[...] em maio, havia a festa do mês de Maria, com 30 dias de leilões e muito mais; em junho as festas juninas e em julho, 30 dias de festa e leilões em comemoração a nossa padroeira, Sant’ Anna” (IDEM, p. 77).
E acrescentou que a colônia portuguesa comemorou, em 1936, ou 1937, a festa de Nossa Senhora de Fátima.
Era bem festeiro o povo daquele tempo.
Em 1919, a cidade contava com “[...] aproximadamente umas 67 casas, sendo 18 ao redor da praça e umas 22 na avenida Dona Tereza. [...] O cemitério ficava a poucos quarteirões da praça, no local onde hoje é a confluência da Avenida Rui Barbosa com Joaquim Nabuco” (IDEM, p. 77).
Pulei das festas para o cemitério...
Esse específico cemitério não é o atual. Era dentro da cidade.
Ele ficava perto da casa da minha Nona Rosa. Muitas vezes, passando por ali, de bicicleta, sentia que meu coração ia saltar pela boca! Morria de medo do lugar. Minha Nona gostava de dizer que, quando era mais nova, era comum passar por ele e ver que ossos brotavam do chão... Minha tia Arlinda Tazinafo Moris confirmava.
Com certeza, o propósito delas era manter-me bem medrosa! Confesso que foram vitoriosas na empreitada!

Dia destes, converso mais com o livro do escritor Sebastião Cruz e as minhas lembranças...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

MINHA CASA DA QNL


Não tenho certeza, mas acho que foi em março de 73 que soubemos que havia inscrição para comprar casa da SHIS, em prestações facilitadas.
Estava casada desde agosto de 70 e nosso primeiro filho tinha nascido em agosto de 71. Meu marido, meu filho e eu morávamos numa casinha de três cômodos, nos fundos da casa dos meus pais. Na QSB 13.
Eu estudava, de manhã, na UnB e lecionava língua portuguesa, à noite, no curso Supletivo Fernandes’, que funcionava no Marista de Taguatinga. Minha amiga querida, a Isabel Perna, tinha sido a professora até fevereiro de 72 e escolheu-me para substituí-la, quando sua família se mudou para o Lago Norte.
A notícia sobre a possibilidade da casa própria nos animou e Djalma e eu fomos para o local da inscrição, achando que seria só para preencher uma ficha. Mas, não era assim tão simples! Era uma sexta-feira à tarde... Minha memória não me permite afirmar se era numa escola, mas sei que era ali perto do local onde funcionou o Buritinga; acho que era uma garagem. A fila estava formada do lado de fora de um lote bem grande, cercado de muros altos. Na nossa frente, já tinha mais de trinta pessoas. Alguém explicou que seria preciso dormir ali para guardar lugar. No outro dia, quando abrissem os portões, entregariam fichas. Só a partir da segunda-feira, quem estivesse com a ficha, e uma numeração específica, saberia quando comparecer ao prédio da SHIS para informar os dados e inscrever-se. Na esperança de que, um dia, conseguiria ser contemplado para comprar a casa própria, financiada, a perder de vista.
Éramos pobres de marré de si, como diz a música... Precisávamos de ajuda para ter a casa própria. Meu sogro tinha “emprestado” uma certa quantia para o Djalma entrar de sociedade na mercearia da minha mãe. E a lida era árdua! E o retorno era inconsistente e debilitado.
Meu marido resolveu ficar e fazer parte da fila que aumentava, a olhos vistos, numa proporção incrível. Fui até nossa casa, na nossa vemaguete vermelha, e voltei com o jantar, umas bolachas, roupa de frio, cigarros, cobertor, travesseiro e uma garrafa de café. A fila já tinha dobrado umas três vezes.
Na manhã seguinte, cheguei antes das sete, para render o marido. O combinado era que ele iria para casa dormir e eu ficaria até a hora do almoço. Um dos companheiros de vigília avisou para ele não ir, pois já iam abrir os portões. E abriram mesmo! Rapidamente, a fila andou e, lá dentro do lote, alguém entregava as tais fichas e as pessoas seguiam e saíam por outro portão. Segui, ao lado do marido e, para minha surpresa, também recebi uma ficha.
Foi uma euforia voltar para casa com duas fichas! Djalma sugeriu que poderíamos dá-la para algum parente meu. Os dois mais próximos, a quem oferecemos, não se interessaram. À noite, fomos à casa de um dos irmãos do Djalma, o que tinha mais filhos e morava, de favor, num barraco do patrão. O irmão nem se deu ao trabalho de responder; deu um muxoxo e balançou a cabeça, dando a entender que não tinha interesse. O outro irmão, quando foi procurado e soube da história toda, ao ver a ficha sendo oferecida, deu um sorrisinho e falou:
- O dia que você souber que moro numa casa da SHIS, pode ter certeza que desisti de subir na vida!
Na época, meu marido e minha mãe eram sócios numa mercearia de pequeno porte, numa loja alugada, naquele comércio entre a rua que desce para o Clube Primavera e a rua que desce para o Setor de Mansões de Taguatinga. Esta era a rua que, naquele tempo, dava acesso ao Barro Preto, como era conhecida aquela região onde, hoje, é a QSC 19.
A mercearia abria no domingo, até meio-dia. As duas fichas ainda estavam com o Djalma. E matutávamos e trocávamos ideia, tentando saber o que fazer com a ficha extra. Pensávamos em ajudar alguém que, como nós, começava a constituir sua família. Tinha que ser casal com filho, ou filhos.
À tarde, naquele domingo, oferecemos para o marido de uma amiga; ele também não se interessou.
Na segunda, na mercearia, meu marido conseguiu se “desfazer” dela, da tal ficha extra: deu-a para o moço que vendia bebidas. Não nos lembramos do nome dele, pois o conhecíamos pelo apelido: Grapete. Ele pagava aluguel, era pai de três filhos e a esposa encontrava-se grávida do quarto.
Feliz da vida, dali mesmo ele foi até o endereço carimbado na parte de trás da ficha e soube qual era o cronograma de atendimento. Voltou e informou para o Djalma que, na quarta, seria o dia da numeração deles e teriam que levar alguns documentos, com cópias.
Naquele mesmo ano, assim que as casas ficaram prontas, naquela primeira fase de entregas, na QNL, o tal moço recebeu a casa dele.
A nossa demorou um bocado de tempo mais.
Lembro-me, muito bem, que foi num domingo que minha mãe me acordou, logo cedo, para dizer que o nome do Djalma estava no Correio Braziliense daquele domingo, o que trazia a lista dos contemplados com casa da SHIS! Finalmente, iríamos receber a nossa casa. Foi um dia de luz mais intensa e de sensações maravilhosas. Eu esperava meu segundo filho.
Nossa casa ficava na QNL 23, conjunto H, casa 1. Era de esquina.
As despesas para passar documentos, as primeiras prestações e as reformas exigidas para torná-la um pouquinho mais confortável levaram nossa vemaguete.
Em 75, decidimos vender a casa.
Usamos o dinheiro como entrada na compra de um apartamento; financiamento feito na Caixa Econômica Federal.
Nosso apartamento ficava no segundo andar do prédio da Brecol, em Taguatinga Sul.

Foi um dos irmãos do Djalma quem comprou minha linda casa da QNL...

terça-feira, 2 de junho de 2015

UM PADRINHO DOCE E SORRIDENTE


Nas ocasiões festivas que meu padrinho nos visitou, no Distrito Federal, a alegria vinha junto e perdurava na nossa companhia, mesmo tendo passado semanas depois da volta dele para nossa Ipuã, no interior de São Paulo.
Divertido, bom contador de casos, um repertório bom de anedotas – mesmo se repetidas - era uma companhia muito agradável.
Nosso amor era recíproco!
Ele falec
eu dia 05 de junho de 2001.
Eu estava preparada, psicologicamente, para visitá-lo e passar o aniversário dele, comemorando sua vida, no dia 07.
No entanto, não foi assim que aconteceu!

(Nesta foto, meu padrinho veste camisa branca. Veio comemorar Bodas de Ouro dos meus pais, Ézio e Jandira, casal à direita)

A anedota dele, mais representativa e lembrada, é a que envolve um doce que foi servido para um visitante, em uma casa simples, de gente hospitaleira:
A conversa já rendia um tempo e, como era de praxe, em ocasiões assim, era chegada a hora do cafezinho; sinal de hospitalidade. Mas a visita disse que não tomava café. A dona da casa, então, providenciou um doce. Buscou a linda compoteira, cheia de doce de abóbora com coco e a colher de servir e voltou à cozinha para buscar pratinhos e colheres pequenas, para ela, a visita e o marido. Nesse meio tempo, o marido saiu e foi ao banheiro e, quando ela chegou com os pratinhos e talheres, ouviu a reclamação do visitante:
- A senhora pôs doce demais pra mim! Tá muito gostoso, mas acho que não aguento comer tudo isso, não...
Ele sempre recontava a anedota, sem muitas variações e, a cada vez, atentos, ríamos e achávamos divertida como se ouvíssemos pela primeira vez.
Também porque dava gosto ver a alegria estampada no rosto dele, evidenciando o tanto que a história o divertia.
Meu padrinho, Antônio Gerin, único irmão do meu pai, Ézio Gerin, nasceu, foi criado, constituiu, criou a família, faleceu e foi sepultado em Ipuã.
Foi casado com a Lourdes e tiveram cinco filhos. Minha madrinha se foi muito nova, em novembro de 77.
Ele possuía uma loja de calçados, na avenida principal da nossa cidadezinha pacata, de gente ordeira e trabalhadora. Lá onde, hoje, a filha caçula tem uma loja charmosa e variada de novidades, onde vende artigos de papelaria, de casa, brinquedos, decoração e para presentes.
Não foi uma caminhada fácil, a vida desse tio-padrinho. Foi persistente e de garra. Ele era um homem justo, de fé, muita fé na vida e no tanto que vale a pena ser bom para o próximo.
Deixou saudade e ensinamentos.
E inspira muita gratidão e sentimentos ternos no coração desta afilhada paparicada que sabia, com certeza, que as bênçãos e orações dele fizeram mais leves os enfrentamentos dos próprios percalços.

Deus o tem!