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sexta-feira, 12 de junho de 2015

MINHA CASA DA QNL


Não tenho certeza, mas acho que foi em março de 73 que soubemos que havia inscrição para comprar casa da SHIS, em prestações facilitadas.
Estava casada desde agosto de 70 e nosso primeiro filho tinha nascido em agosto de 71. Meu marido, meu filho e eu morávamos numa casinha de três cômodos, nos fundos da casa dos meus pais. Na QSB 13.
Eu estudava, de manhã, na UnB e lecionava língua portuguesa, à noite, no curso Supletivo Fernandes’, que funcionava no Marista de Taguatinga. Minha amiga querida, a Isabel Perna, tinha sido a professora até fevereiro de 72 e escolheu-me para substituí-la, quando sua família se mudou para o Lago Norte.
A notícia sobre a possibilidade da casa própria nos animou e Djalma e eu fomos para o local da inscrição, achando que seria só para preencher uma ficha. Mas, não era assim tão simples! Era uma sexta-feira à tarde... Minha memória não me permite afirmar se era numa escola, mas sei que era ali perto do local onde funcionou o Buritinga; acho que era uma garagem. A fila estava formada do lado de fora de um lote bem grande, cercado de muros altos. Na nossa frente, já tinha mais de trinta pessoas. Alguém explicou que seria preciso dormir ali para guardar lugar. No outro dia, quando abrissem os portões, entregariam fichas. Só a partir da segunda-feira, quem estivesse com a ficha, e uma numeração específica, saberia quando comparecer ao prédio da SHIS para informar os dados e inscrever-se. Na esperança de que, um dia, conseguiria ser contemplado para comprar a casa própria, financiada, a perder de vista.
Éramos pobres de marré de si, como diz a música... Precisávamos de ajuda para ter a casa própria. Meu sogro tinha “emprestado” uma certa quantia para o Djalma entrar de sociedade na mercearia da minha mãe. E a lida era árdua! E o retorno era inconsistente e debilitado.
Meu marido resolveu ficar e fazer parte da fila que aumentava, a olhos vistos, numa proporção incrível. Fui até nossa casa, na nossa vemaguete vermelha, e voltei com o jantar, umas bolachas, roupa de frio, cigarros, cobertor, travesseiro e uma garrafa de café. A fila já tinha dobrado umas três vezes.
Na manhã seguinte, cheguei antes das sete, para render o marido. O combinado era que ele iria para casa dormir e eu ficaria até a hora do almoço. Um dos companheiros de vigília avisou para ele não ir, pois já iam abrir os portões. E abriram mesmo! Rapidamente, a fila andou e, lá dentro do lote, alguém entregava as tais fichas e as pessoas seguiam e saíam por outro portão. Segui, ao lado do marido e, para minha surpresa, também recebi uma ficha.
Foi uma euforia voltar para casa com duas fichas! Djalma sugeriu que poderíamos dá-la para algum parente meu. Os dois mais próximos, a quem oferecemos, não se interessaram. À noite, fomos à casa de um dos irmãos do Djalma, o que tinha mais filhos e morava, de favor, num barraco do patrão. O irmão nem se deu ao trabalho de responder; deu um muxoxo e balançou a cabeça, dando a entender que não tinha interesse. O outro irmão, quando foi procurado e soube da história toda, ao ver a ficha sendo oferecida, deu um sorrisinho e falou:
- O dia que você souber que moro numa casa da SHIS, pode ter certeza que desisti de subir na vida!
Na época, meu marido e minha mãe eram sócios numa mercearia de pequeno porte, numa loja alugada, naquele comércio entre a rua que desce para o Clube Primavera e a rua que desce para o Setor de Mansões de Taguatinga. Esta era a rua que, naquele tempo, dava acesso ao Barro Preto, como era conhecida aquela região onde, hoje, é a QSC 19.
A mercearia abria no domingo, até meio-dia. As duas fichas ainda estavam com o Djalma. E matutávamos e trocávamos ideia, tentando saber o que fazer com a ficha extra. Pensávamos em ajudar alguém que, como nós, começava a constituir sua família. Tinha que ser casal com filho, ou filhos.
À tarde, naquele domingo, oferecemos para o marido de uma amiga; ele também não se interessou.
Na segunda, na mercearia, meu marido conseguiu se “desfazer” dela, da tal ficha extra: deu-a para o moço que vendia bebidas. Não nos lembramos do nome dele, pois o conhecíamos pelo apelido: Grapete. Ele pagava aluguel, era pai de três filhos e a esposa encontrava-se grávida do quarto.
Feliz da vida, dali mesmo ele foi até o endereço carimbado na parte de trás da ficha e soube qual era o cronograma de atendimento. Voltou e informou para o Djalma que, na quarta, seria o dia da numeração deles e teriam que levar alguns documentos, com cópias.
Naquele mesmo ano, assim que as casas ficaram prontas, naquela primeira fase de entregas, na QNL, o tal moço recebeu a casa dele.
A nossa demorou um bocado de tempo mais.
Lembro-me, muito bem, que foi num domingo que minha mãe me acordou, logo cedo, para dizer que o nome do Djalma estava no Correio Braziliense daquele domingo, o que trazia a lista dos contemplados com casa da SHIS! Finalmente, iríamos receber a nossa casa. Foi um dia de luz mais intensa e de sensações maravilhosas. Eu esperava meu segundo filho.
Nossa casa ficava na QNL 23, conjunto H, casa 1. Era de esquina.
As despesas para passar documentos, as primeiras prestações e as reformas exigidas para torná-la um pouquinho mais confortável levaram nossa vemaguete.
Em 75, decidimos vender a casa.
Usamos o dinheiro como entrada na compra de um apartamento; financiamento feito na Caixa Econômica Federal.
Nosso apartamento ficava no segundo andar do prédio da Brecol, em Taguatinga Sul.

Foi um dos irmãos do Djalma quem comprou minha linda casa da QNL...

terça-feira, 2 de junho de 2015

UM PADRINHO DOCE E SORRIDENTE


Nas ocasiões festivas que meu padrinho nos visitou, no Distrito Federal, a alegria vinha junto e perdurava na nossa companhia, mesmo tendo passado semanas depois da volta dele para nossa Ipuã, no interior de São Paulo.
Divertido, bom contador de casos, um repertório bom de anedotas – mesmo se repetidas - era uma companhia muito agradável.
Nosso amor era recíproco!
Ele falec
eu dia 05 de junho de 2001.
Eu estava preparada, psicologicamente, para visitá-lo e passar o aniversário dele, comemorando sua vida, no dia 07.
No entanto, não foi assim que aconteceu!

(Nesta foto, meu padrinho veste camisa branca. Veio comemorar Bodas de Ouro dos meus pais, Ézio e Jandira, casal à direita)

A anedota dele, mais representativa e lembrada, é a que envolve um doce que foi servido para um visitante, em uma casa simples, de gente hospitaleira:
A conversa já rendia um tempo e, como era de praxe, em ocasiões assim, era chegada a hora do cafezinho; sinal de hospitalidade. Mas a visita disse que não tomava café. A dona da casa, então, providenciou um doce. Buscou a linda compoteira, cheia de doce de abóbora com coco e a colher de servir e voltou à cozinha para buscar pratinhos e colheres pequenas, para ela, a visita e o marido. Nesse meio tempo, o marido saiu e foi ao banheiro e, quando ela chegou com os pratinhos e talheres, ouviu a reclamação do visitante:
- A senhora pôs doce demais pra mim! Tá muito gostoso, mas acho que não aguento comer tudo isso, não...
Ele sempre recontava a anedota, sem muitas variações e, a cada vez, atentos, ríamos e achávamos divertida como se ouvíssemos pela primeira vez.
Também porque dava gosto ver a alegria estampada no rosto dele, evidenciando o tanto que a história o divertia.
Meu padrinho, Antônio Gerin, único irmão do meu pai, Ézio Gerin, nasceu, foi criado, constituiu, criou a família, faleceu e foi sepultado em Ipuã.
Foi casado com a Lourdes e tiveram cinco filhos. Minha madrinha se foi muito nova, em novembro de 77.
Ele possuía uma loja de calçados, na avenida principal da nossa cidadezinha pacata, de gente ordeira e trabalhadora. Lá onde, hoje, a filha caçula tem uma loja charmosa e variada de novidades, onde vende artigos de papelaria, de casa, brinquedos, decoração e para presentes.
Não foi uma caminhada fácil, a vida desse tio-padrinho. Foi persistente e de garra. Ele era um homem justo, de fé, muita fé na vida e no tanto que vale a pena ser bom para o próximo.
Deixou saudade e ensinamentos.
E inspira muita gratidão e sentimentos ternos no coração desta afilhada paparicada que sabia, com certeza, que as bênçãos e orações dele fizeram mais leves os enfrentamentos dos próprios percalços.

Deus o tem!


quarta-feira, 4 de março de 2015

QUANDO EU MORRER

O poema “Quando eu morrer” foi publicado por Mário de Andrade no livro Lira Paulistana, em 1942, três anos antes de sua morte. Mário de Andrade escreveu uma primeira quadra assim: “Quando eu morrer quero ficar/ Não contem aos meus inimigos/ Sepultado em minha cidade/ Saudade.” E continuou divagando, esquartejando-se e distribuindo seus membros, seus sentidos, os sentimentos... num poema inteiro que vale como uma declaração de amor à cidade de São Paulo, à cidade onde ele nasceu. Minha quadra favorita é a quinta: “O nariz guardem nos rosais/ A língua no alto do Ipiranga/ Para cantar a liberdade/ Saudade...”. E, como última estrofe, primorosa, vem: “As mãos atirem por aí/ Que desvivam como viveram/ As tripas atirem pro Diabo/ Que o espírito será de Deus/ Adeus.”
Ao contrário do poeta, não divago sobre meu combalido esqueleto: não me pertence decidir sobre o destino desta embalagem que me tem servido há 64 anos. Inspirada no poeta, no entanto, ouso garantir que vou continuar perambulando pela minha cidade. Com toda prerrogativa que minha memória me oferecer. Porque entendo que, ao dispor do corpo, a liberdade transcende o tempo. Em CinemaScope, em widescreen, no meu próprio formato, e com lentes mais poderosas que as anamórficas criadas pelo então presidente da Twentieth Century Fox, em 1953, vou reler cada página escrita com meus próprios passos, usando lentes especialmente projetadas pelo meu coração que, a exemplo do que determina Mário de Andrade, referindo-se ao seu, o meu coração também vai estar bem vivo.
Vai ser uma epopeia a minha revisita aos meus momentos. De menina-moça; de moça-menina; de mãe-menina... Sem aquele sentimento de tensão pela incerteza do porvir.
Um dia, uma mocinha me disse que morava na Zagá. Era uma colega de turma, do Cemab. Ela precisou explicar-me o significado. Naquele tempo, meu pai caminhoneiro não media esforços em passear com a família. Passei muitas vezes pelas quadras H, na carroceria de um caminhão Chevrolet, mas nem sonhava em prestar atenção ao endereço, ocupada que estava com as minhas circunstâncias e angústias e sonhos.
Costumo ter muita paciência quando acontece de alguém perguntar meu endereço (mesmo morando em chácara, minha referência é em Taguatinga) e, após anotar, a pessoa vir com a pergunta: é Taguatinga Sul? Respondo que sim e acrescento: você mora em Taguatinga? Sendo sim, ou não, a resposta, explico que o Q é de Quadra e que o S é de Sul. Porque desde que não entendi o significado de Zagá percebi que pertencimento passa pela obrigação de conhecer e reconhecer as adjacências.
Pois os endereços todos, nessa nomenclatura tão nossa, vão ser espaço livre para me debruçar sobre a eternidade.
Na QSB, onde vivi decisões que definiram meus caminhos, atalhos e descaminhos; nas quadras da QSA, QNA, CSB, QSC, QI, QNE, QNG, QSD, QSE; QNL; nas ruas da Samdu – sul e norte; e da Comercial – norte e sul; nos clubes; nos cinemas; nas igrejas, nas escolas; nas praças, hospitais... está decidido! cada pedacinho da nossa cidade - construída com a nossa esperança de ser - vai abarcar minha essência.
Porque, de nascimento, sou paulista. Mas de escolha, pertinência e teimosia, sou taguatinguense.
Costumo dizer que vou viajar muito depois.
Por ter escapado de um acidente sinistro, em 86, não encontro prazer em viajar. Tenho adiado minha ida a muitos lugares... Se depender de mim, vai correr muita água embaixo da ponte até chegar o dia do embarque...
Também vou me permitir muitas idas à minha cidade natal: tenho desenhos mágicos de interação com parentes e amigos de infância que pretendo colorir e enfeitar com glitter... Do alto da torre da minha igreja, ao lado dos sinos da minha aldeia, quero espichar meu olhar de 360 graus para quando meus sonhos vinham em borbotões e, mesmo esquecidos, no tempo e no espaço, foram estocados e serviram de reforço para a minha fé no concreto da vida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

UMA VIAGEM

Mais das minhas leituras:

Tem dia q só na companhia dos bons consigo animar-me. 
Peguei, na escrivaninha do meu quarto, o exemplar maltratado do Solo de Clarineta, segundo volume, escrito pelo Érico Veríssimo. Nele, o autor conta sobre algumas viagens. É autobiográfico. Comecei a relê-lo, antes do Natal. Parei na parte que o Érico descreve as sensações sentidas quando entrou, pela primeira vez, no Mosteiro de Alcobaça. Consultei o Google e vi as imagens. Então, reli as páginas 111/113 da publicação da Editora Globo, de Porto Alegre, 1976.
E olhei, de novo, as imagens.
Não gosto de viajar, fisicamente. Viagens assim, na companhia de quem sabe sentir e expressar o que sente, vendo fotos (a internet disponibiliza tantas!) e filme (Mosteiro de Alcobaça - Leiria - Portugal - you tube, ao som da Ave Maria (Gratia Plena), de Schubert) e aprendendo sobre a história do lugar visitado - definitivamente - fazem meu gênero.
Sou fã do Érico. Não passo uma semana sem reler trechos de livros dele. Meu predileto é O Tempo e o Vento, claro! A partir de Olhai os lírios do campo, todos me encantam. Em destaque: Saga; O Senhor Embaixador; Incidente em Antares; Solo de Clarineta I e II... Em Solo de Clarineta I, o autor conta sobre seu processo de construção dos seus personagens, a partir das figuras que conheceu, ao longo da vida. Tem muito da família nas caracterizações.
Da página 111 até 113 temos:

"[...] Chegamos a Alcobaça e nosso carro se detém à frente da entrada principal da igreja do famoso mosteiro. Não posso esconder meu desapontamento. Não vejo nessa fachada sua esperada beleza, sua tão apregoada grandiosidade. Bom, não negarei que é bonita. Construída de pedra calcária, dum creme dourado pelo sol - esse templo, considerado um dos maiores e mais importantes de todo Portugal, é um exemplo visível e palpável da teoria do devir aplicada aos monumentos arquitetônicos. Apesar de ter sido construído no período de transição do românico para o gótico, de gótico só vejo nele agora a porta ogival e, um pouco acima dela, uma rosácea. A parte superior da fachada - isso salta logo à vista - tem muito de manuelino e de barroco.

Quando, porém, entramos no templo este filho de D. Bega experimentou a sua mais profunda sensação de beleza desde que sentara pés em terras de Portugal. Foi uma espécie de "susto estético", se é que me faço entender... Já da porta divisei três longas naves ogivais de pedra cinzenta, as três da mesma altura, e em puro estilo gótico primitivo: o mais simples, harmoniosos e austero conjunto arquitetônico religioso que até então eu encontrara, digamos assim, face a face. O interior do santuário me causou um impacto tão forte que me cortou por um átimo a respiração. Foi como se eu tivesse sido arrebatado para a quarta dimensão, como já me acontecera algumas vezes na vida sob o sortilégio de certas peças de música. Nunca experimentara em ambiente algum tamanha sensação de recolhimento, silêncio e paz. Aquele conjunto de naves (que importa a cronologia?) bem podia ser a versão em pedra duma tocata de J. S. Bach para órgão, grandiosa apesar  - ou por causa da singeleza - da singeleza de sua linha melódica, tão olimpicamente serena na sua intemporalidade e no entanto tão sugestiva dos dramas do homem e dos mistérios da vida e da morte.
Fazia frio dentro do templo, mas não devia ser só essa a causa do arrepio que me percorria o corpo abrigado por grosso sobretudo. Perdi de vista os companheiros. Ouvia apenas o murmúrio de suas vozes. Continuei a contemplar, extasiado, a nave central - despida de ornamentos tanto na abóbada como nas altas colunas - e sutilmente me veio a revelação de que sua perspectiva não fugia apenas no espaço mas também no tempo e, não fosse o medo que tenho às palavras enormes, eu acrescentaria - na Eternidade. De súbito compreendi o misticismo, cheguei a ser eu próprio um místico, embora apenas por uma fração de segundo. Continuei a respirar um pouco ofegante, os olhos piscos e já meio úmidos, como à espera de que algo de sobrenatural estivesse prestes a acontecer. No fundo da nave central a luz da manhã entrava intensa por três janelas. Seriam os olhos fulgurantes de Deus que me contemplavam, querendo revelar-me um Mistério, algo capaz de mudar inteiramente minha vida interior?
Volto aos poucos ao mundo tridimensional e digo aos companheiros algumas palavras que me soam estúpidas, inanes. E os cinco nos encaminhamos para a ábside, lá no fundo. Visitamos depois o Claustro do Silêncio, mandado construir por D. Dinis. E estes dois sarcófagos de pedra tão delicadamente esculpidos que parecem obras de ourivesaria? Num deles jazem ps restos de D. Inês de Castro, a que pois de morta foi rainha. Sobre a pesada tampa vejo estendida sua figura talhada em pedra, em tamanho maior que o natural. Seis anjos de asas abertas contemplam-lhe o rosto com uma expressão de terna tristeza. Este sarcófago foi desenhado e esculpido sob a fiscalização pessoal de D. Pedro I, seu desvairado amante, cujos despojos aqui se encontram também, num sarcófago idêntico ao de sua bem-amada. Assim -imaginava ele e acredita até hoje a fantasia popular - no dia em que os arcanjos fizerem soar suas trombetas, anunciando o Juízo Final, ao se erguerem de suas tumbas Inês e Pedro se encontrarão frente a frente, cairão um nos braços do outro e, de mãos dadas, comparecerão à presença de Deus, por quem serão julgados e naturalmente absolvidos, permanecendo depois juntos na Eternidade. (Já notaram como essa palavra anda me perseguindo?)
Souza Pinto consulta seu relógio-pulseira e convida-nos a visitar o resto do mosteiro. Antes, porém, de deixar o templo torno a caminhar por entre suas naves, pensando assim: "Talvez eu esteja vendo estas pedras pela última vez na minha vida. Sei que vou encontrar na Espanha, na França e na Itália catedrais românicas, góticas e barrocas mais grandiosas do que esta igreja monacal. Mas prometo, ó santuário de Alcobaça, que jamais te esquecerei. E se um dia eu tentar descrever em palavras o que senti hoje dentro de ti, perdoa à nossa língua pelas suas limitações e principalmente a este escriba por não saber manejá-la bem. E adeus!"" (VERÍSSIMO, 1976, p. 111 a 113).

Esse livro póstumo foi publicado graças a Flávio Loureiro Chaves, professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em acordo com a família do escritor, falecido em novembro de 1975. Coube ao Flávio por ele ser um "[...] conhecedor abalizado da obra de Érico Veríssimo e do seu método narrativo." (Nota dos Editores)

Os capítulos I, II, III e IV - correspondendo a 251 páginas já estavam inclusive impressos. Faltava apenas a conclusão.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cinquenta anos sem a Nona Rosa!

A Nona Rosa está sepultada no Cemitério de Ipuã, desde 13 de dezembro de 1964. Ela foi um misto de bondade e energia que deixou marcas profundas na minha vida. No início da segunda metade do século passado, quando se falava que a pessoa era enérgica, misturava-se o sentido do termo braveza com o de retidão. Minha Nona era uma pessoa enérgica!
Em fevereiro de 1964, quando eu estava com treze anos recém-feitos, nossa família veio de mudança, pra Taguatinga, no Distrito Federal. Na cidadezinha natal, ficaram muitos dos meus entes queridos. Entre eles, a Nona Rosa.
Era uma senhorinha de caráter, que prezava a honra e os bons costumes. E era respeitada até quando precisava chamar alguém da família de volta ao bom senso...
Apesar de ter levado uns bons pitos dela, durante os poucos anos de convivência, eu a respeitava e admirava. Na mesma proporção do meu temor.
Aos dez anos, vesti minha primeira calça comprida e fui, a mando da minha mãe, mostrar minha roupa nova pra Nona Rosa.
Ficou muito bonito, disse minha mãe! Vai lá mostrar pra Nona, depois vai mostrar pra tia Arlinda e pra tia Pina...
Era mesmo um lindo modelo que minha mãe copiou das revistas da moda e costurou, ela mesma! Minha mãe sempre foi muito prendada! O modelito era a grande novidade naquele comecinho dos anos 60! As mulheres se permitiam ser mais ousadas e a moda retratava isso muito bem! Quem diria, mulheres usando calças, imitando homens! Almocei e fui, primeiro, à casa da tia Pina. Ela não gostou. Mas nada falou sobre não gostar. Fez comentários sobre o tempo dela, de moça que trabalhava na roça, e contou que as moças de então usavam calças do tipo que homem usava, mas eram usadas por baixo das saias longas. Era costume. Era vestimenta de proteção contra o sol. Também usavam camisas de mangas compridas e lenço nos cabelos, amarrado sob o queixo, além de chapéu... Mas, assim, mostrando a divisão da bunda, as moças do tempo dela não usavam, não...
Ou seja, fez uma ressalva brava - dissimulada como se fosse um comentário velado - mas uma ressalva explícita para a mocinha que começava a entender das coisas do mundo...
Saí da casa da tia Pina e fui pra casa da Nona, toda importante, ainda me sentindo moderna e chique... Levei um baita susto; e só não apanhei porque fui esperta e saí correndo. Mas, mesmo de longe, ouvia a Nona, aos gritos:
- Fala pra sua mãe que ela vem aqui!!!! Onde já se viu? Na nossa famia num tem moça desfrutável! E vai tirar essa carcinha, sua indecente! Isso é roupa de homem! E vem de novo, vorta aqui sem essa poca vergonha, ou eu corto essa carçola na tesoura!
Foi um escarcéu! A Nona pôs a família em polvorosa! Contou pra todo mundo que apareceu na casa dela, nos próximos meses. Vi essa história sendo contada, de muitas maneiras, por muito tempo. Nunca achei graça!
Eu sabia bem que a Nona era muito brava, pois eram muitas as histórias que comprovavam isso.
Hoje, Nona, depois de passados cinquenta anos, depois de ter assistido a tantas mudanças de costumes, eu a entendo, perfeitamente. Era um tempo de cuidados com a reputação. Os mais velhos tinham a obrigação de evidenciar o entendimento do mundo para os seus descendentes, para prevenir excessos.
Muita coisa mudou! Muitos têm falhado neste propósito!
Sei, no entanto, Nona Rosa, que entendi e pratico o significado do seu o recado. Cabe a nós passar aos nossos descendentes o sentido da vida. Vestindo saias, ou calças, não importa mais... O que importa - e eu mantenho dentro de mim - é o respeito que devemos ao legado dos que nos antecederam, à base da simplicidade, do trabalho, da retidão e do amor à família...
Lembro-me que, daqui do DF, só soubemos da sua morte uma semana após ter acontecido. E era um sábado. E que foi um dia muito chuvoso. E, além de rezar pela sua alma, eu também exercitei – bastante – a minha memória fotográfica, tentando resguardar no coração e na mente as cenas vividas ao seu lado.
Minha homenagem e agradecimento são constantes, mas, hoje, têm um misto de saudade e alegria. Alegria porque a figura matriarcal pulso firme que a senhora representa, na memória da família, é padrão que vejo repetir-se nas netas, nas bisnetas, nas trinetas, nas tetranetas... e vai seguir sendo multiplicada pelas gerações seguintes...
Desafio, aqui, os homens da família a contestar este legado...

Alguém se habilita?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

HOMENAGEM

Sítio Rosa Mística, outubro de 2003 
Há vezes em que mais que lamentar o ente querido que se vai, preocupamo-nos com quem  fica. Foi assim quando morreu o padrinho David. Só pensávamos no sofrimento da madrinha Landa.
A morte arrebatou dela, da madrinha tão querida, a engrenagem que movimentava toda alegria e razão de ser dos dois que viveram como se um fosse complemento do outro..
Não que ela não goste dos filhos tanto quanto gosta do padrinho. Mas eles, assim como todos os filhos, seguem seus caminhos e só às vezes, fazem um atalho no percurso diário, para ver os pais. É assim que outras famílias se formam. Eles também têm seus amores e seus filhos. Os dois, padrinho e madrinha, no entanto, são/foram extensão um do outro.
 A bem da verdade, ele não morreu. Tenho certeza que ele não se foi, está por perto. O que parece morte é ausência física. Nada mais é do jeito a que ela estava acostumada, mas ele continua fazendo parte da vida dela. Fosse eu escritora e fossem eles meus personagens, dar-lhes-ia a graça de morrerem juntos, mas não neste dia vinte e cinco de setembro de 2003. Permaneceriam juntos e felizes por mais um bom tempo. Viveram juntos por cinqüenta anos. Dar-lhes-ia mais cinqüenta anos de convivência e de amor. 
Se me pedissem para definir o padrinho com uma só palavra, eu diria presença. Onde a madrinha estivesse, ouviam-se as gargalhadas dela, misturadas aos casos vividos, que contava, enfatizando a presença e anuência do padrinho: “Não é, David?”
À proporção que cresci, acostumei-me a vê-lo, sempre ao lado dela, a cabeça inclinada ora para a esquerda, ora para a direita, olhando-a amorosamente. É assim que eu o vejo na memória.
Meus pais decidiram sair de Ipuã, não tive a companhia constante dos meus padrinhos durante a adolescência e a idade adulta. Porque houve a mudança para longe, não nos víamos com freqüência. Mas eles sempre se empenharam em visitar-nos, apesar da distância e das dificuldades.
A madrinha sempre foi motivo de orgulho para todos que temos a graça de tê-la. Ela é uma inspiração para mim. Meu modelo e personagem constante das histórias que conto quando discorro sobre as coisas maravilhosas que a vida me deu. Não há quem a conheça e não compartilhe desse agradecimento. Deus a criou em um momento de luz tão intensa que o anjo que O auxiliava tomou forma de gente e veio para cuidar dela: o seu David.
Nada me tira a certeza de que esse anjo continua olhando amorosamente por ela. 
O momento é de perda. A respiração é curta. As cores estão embaçadas. A alegria se foi.
Deus olha por ela nesta fase difícil de adaptação e há de restaurar nela a certeza da presença do padrinho. E a certeza de que vão reencontrar-se e ser novamente felizes, na eternidade.
Repito aqui sua frase predileta para todos que a conhecem: “Deus te abençoe!” Deus te abençoe, madrinha! Sempre te amei! Cléia. 
(Escrevi este texto no dia seguinte à morte do meu padrinho David. Depois, quando minha irmã foi a Ipuã, em janeiro do ano seguinte, enviei-o pra ela, em forma de carta, acompanhado do texto a seguir). 

Madrinha,

Queria pessoalmente ler este texto que escrevi em homenagem a vocês dois, casal querido que sempre foi só carinho com todos da minha família. Queria, pessoalmente, ler com a senhora, conversarmos bastante e chorar, uma ao lado da outra, para desapertar o peito oprimido. Todos passam pela vida, chega a hora para cada um de nós, mas não é fácil aceitar que o padrinho se foi. Principalmente para a senhora, bem sei. Conformar-se não é tarefa possível quando se foi abençoada por uma vida tão cheia da presença do amor. Só as lembranças não aplacam a dor da perda. Resta-nos pedir a Deus que lhe permita amenizar o sofrimento, que a ajude a manter viva a lembrança do padrinho nos corações dos que conviveram com ele e dos que não tiveram a graça de participar da alegria das conversas ao redor da sua mesa farta e carinhosa. Por enquanto está difícil ir até aí, mas uma hora dessas dará certo e poderei então, pessoalmente, demonstrar meu carinho e solidariedade. Cuide-se e lembre-se que agora a sua responsabilidade é maior porque lhe cabe a tarefa de ensinar as pessoas a se amarem como vocês dois sempre se amaram. Fica com Deus e que Deus a abençoe cada vez mais. Muitos beijos e um abraço do tamanho da minha saudade, Cléia. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

VIAGEM

Na estrada...
Atrás de mim, 
o verde da saudade.
À frente,
o verde-eu
intenso-na-esperança.
De um lado, 
desilusões e sobressaltos.
Do outro,
Aprendizagens...