Páginas

quarta-feira, 4 de março de 2015

QUANDO EU MORRER

O poema “Quando eu morrer” foi publicado por Mário de Andrade no livro Lira Paulistana, em 1942, três anos antes de sua morte. Mário de Andrade escreveu uma primeira quadra assim: “Quando eu morrer quero ficar/ Não contem aos meus inimigos/ Sepultado em minha cidade/ Saudade.” E continuou divagando, esquartejando-se e distribuindo seus membros, seus sentidos, os sentimentos... num poema inteiro que vale como uma declaração de amor à cidade de São Paulo, à cidade onde ele nasceu. Minha quadra favorita é a quinta: “O nariz guardem nos rosais/ A língua no alto do Ipiranga/ Para cantar a liberdade/ Saudade...”. E, como última estrofe, primorosa, vem: “As mãos atirem por aí/ Que desvivam como viveram/ As tripas atirem pro Diabo/ Que o espírito será de Deus/ Adeus.”
Ao contrário do poeta, não divago sobre meu combalido esqueleto: não me pertence decidir sobre o destino desta embalagem que me tem servido há 64 anos. Inspirada no poeta, no entanto, ouso garantir que vou continuar perambulando pela minha cidade. Com toda prerrogativa que minha memória me oferecer. Porque entendo que, ao dispor do corpo, a liberdade transcende o tempo. Em CinemaScope, em widescreen, no meu próprio formato, e com lentes mais poderosas que as anamórficas criadas pelo então presidente da Twentieth Century Fox, em 1953, vou reler cada página escrita com meus próprios passos, usando lentes especialmente projetadas pelo meu coração que, a exemplo do que determina Mário de Andrade, referindo-se ao seu, o meu coração também vai estar bem vivo.
Vai ser uma epopeia a minha revisita aos meus momentos. De menina-moça; de moça-menina; de mãe-menina... Sem aquele sentimento de tensão pela incerteza do porvir.
Um dia, uma mocinha me disse que morava na Zagá. Era uma colega de turma, do Cemab. Ela precisou explicar-me o significado. Naquele tempo, meu pai caminhoneiro não media esforços em passear com a família. Passei muitas vezes pelas quadras H, na carroceria de um caminhão Chevrolet, mas nem sonhava em prestar atenção ao endereço, ocupada que estava com as minhas circunstâncias e angústias e sonhos.
Costumo ter muita paciência quando acontece de alguém perguntar meu endereço (mesmo morando em chácara, minha referência é em Taguatinga) e, após anotar, a pessoa vir com a pergunta: é Taguatinga Sul? Respondo que sim e acrescento: você mora em Taguatinga? Sendo sim, ou não, a resposta, explico que o Q é de Quadra e que o S é de Sul. Porque desde que não entendi o significado de Zagá percebi que pertencimento passa pela obrigação de conhecer e reconhecer as adjacências.
Pois os endereços todos, nessa nomenclatura tão nossa, vão ser espaço livre para me debruçar sobre a eternidade.
Na QSB, onde vivi decisões que definiram meus caminhos, atalhos e descaminhos; nas quadras da QSA, QNA, CSB, QSC, QI, QNE, QNG, QSD, QSE; QNL; nas ruas da Samdu – sul e norte; e da Comercial – norte e sul; nos clubes; nos cinemas; nas igrejas, nas escolas; nas praças, hospitais... está decidido! cada pedacinho da nossa cidade - construída com a nossa esperança de ser - vai abarcar minha essência.
Porque, de nascimento, sou paulista. Mas de escolha, pertinência e teimosia, sou taguatinguense.
Costumo dizer que vou viajar muito depois.
Por ter escapado de um acidente sinistro, em 86, não encontro prazer em viajar. Tenho adiado minha ida a muitos lugares... Se depender de mim, vai correr muita água embaixo da ponte até chegar o dia do embarque...
Também vou me permitir muitas idas à minha cidade natal: tenho desenhos mágicos de interação com parentes e amigos de infância que pretendo colorir e enfeitar com glitter... Do alto da torre da minha igreja, ao lado dos sinos da minha aldeia, quero espichar meu olhar de 360 graus para quando meus sonhos vinham em borbotões e, mesmo esquecidos, no tempo e no espaço, foram estocados e serviram de reforço para a minha fé no concreto da vida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

UMA VIAGEM

Mais das minhas leituras:

Tem dia q só na companhia dos bons consigo animar-me. 
Peguei, na escrivaninha do meu quarto, o exemplar maltratado do Solo de Clarineta, segundo volume, escrito pelo Érico Veríssimo. Nele, o autor conta sobre algumas viagens. É autobiográfico. Comecei a relê-lo, antes do Natal. Parei na parte que o Érico descreve as sensações sentidas quando entrou, pela primeira vez, no Mosteiro de Alcobaça. Consultei o Google e vi as imagens. Então, reli as páginas 111/113 da publicação da Editora Globo, de Porto Alegre, 1976.
E olhei, de novo, as imagens.
Não gosto de viajar, fisicamente. Viagens assim, na companhia de quem sabe sentir e expressar o que sente, vendo fotos (a internet disponibiliza tantas!) e filme (Mosteiro de Alcobaça - Leiria - Portugal - you tube, ao som da Ave Maria (Gratia Plena), de Schubert) e aprendendo sobre a história do lugar visitado - definitivamente - fazem meu gênero.
Sou fã do Érico. Não passo uma semana sem reler trechos de livros dele. Meu predileto é O Tempo e o Vento, claro! A partir de Olhai os lírios do campo, todos me encantam. Em destaque: Saga; O Senhor Embaixador; Incidente em Antares; Solo de Clarineta I e II... Em Solo de Clarineta I, o autor conta sobre seu processo de construção dos seus personagens, a partir das figuras que conheceu, ao longo da vida. Tem muito da família nas caracterizações.
Da página 111 até 113 temos:

"[...] Chegamos a Alcobaça e nosso carro se detém à frente da entrada principal da igreja do famoso mosteiro. Não posso esconder meu desapontamento. Não vejo nessa fachada sua esperada beleza, sua tão apregoada grandiosidade. Bom, não negarei que é bonita. Construída de pedra calcária, dum creme dourado pelo sol - esse templo, considerado um dos maiores e mais importantes de todo Portugal, é um exemplo visível e palpável da teoria do devir aplicada aos monumentos arquitetônicos. Apesar de ter sido construído no período de transição do românico para o gótico, de gótico só vejo nele agora a porta ogival e, um pouco acima dela, uma rosácea. A parte superior da fachada - isso salta logo à vista - tem muito de manuelino e de barroco.

Quando, porém, entramos no templo este filho de D. Bega experimentou a sua mais profunda sensação de beleza desde que sentara pés em terras de Portugal. Foi uma espécie de "susto estético", se é que me faço entender... Já da porta divisei três longas naves ogivais de pedra cinzenta, as três da mesma altura, e em puro estilo gótico primitivo: o mais simples, harmoniosos e austero conjunto arquitetônico religioso que até então eu encontrara, digamos assim, face a face. O interior do santuário me causou um impacto tão forte que me cortou por um átimo a respiração. Foi como se eu tivesse sido arrebatado para a quarta dimensão, como já me acontecera algumas vezes na vida sob o sortilégio de certas peças de música. Nunca experimentara em ambiente algum tamanha sensação de recolhimento, silêncio e paz. Aquele conjunto de naves (que importa a cronologia?) bem podia ser a versão em pedra duma tocata de J. S. Bach para órgão, grandiosa apesar  - ou por causa da singeleza - da singeleza de sua linha melódica, tão olimpicamente serena na sua intemporalidade e no entanto tão sugestiva dos dramas do homem e dos mistérios da vida e da morte.
Fazia frio dentro do templo, mas não devia ser só essa a causa do arrepio que me percorria o corpo abrigado por grosso sobretudo. Perdi de vista os companheiros. Ouvia apenas o murmúrio de suas vozes. Continuei a contemplar, extasiado, a nave central - despida de ornamentos tanto na abóbada como nas altas colunas - e sutilmente me veio a revelação de que sua perspectiva não fugia apenas no espaço mas também no tempo e, não fosse o medo que tenho às palavras enormes, eu acrescentaria - na Eternidade. De súbito compreendi o misticismo, cheguei a ser eu próprio um místico, embora apenas por uma fração de segundo. Continuei a respirar um pouco ofegante, os olhos piscos e já meio úmidos, como à espera de que algo de sobrenatural estivesse prestes a acontecer. No fundo da nave central a luz da manhã entrava intensa por três janelas. Seriam os olhos fulgurantes de Deus que me contemplavam, querendo revelar-me um Mistério, algo capaz de mudar inteiramente minha vida interior?
Volto aos poucos ao mundo tridimensional e digo aos companheiros algumas palavras que me soam estúpidas, inanes. E os cinco nos encaminhamos para a ábside, lá no fundo. Visitamos depois o Claustro do Silêncio, mandado construir por D. Dinis. E estes dois sarcófagos de pedra tão delicadamente esculpidos que parecem obras de ourivesaria? Num deles jazem ps restos de D. Inês de Castro, a que pois de morta foi rainha. Sobre a pesada tampa vejo estendida sua figura talhada em pedra, em tamanho maior que o natural. Seis anjos de asas abertas contemplam-lhe o rosto com uma expressão de terna tristeza. Este sarcófago foi desenhado e esculpido sob a fiscalização pessoal de D. Pedro I, seu desvairado amante, cujos despojos aqui se encontram também, num sarcófago idêntico ao de sua bem-amada. Assim -imaginava ele e acredita até hoje a fantasia popular - no dia em que os arcanjos fizerem soar suas trombetas, anunciando o Juízo Final, ao se erguerem de suas tumbas Inês e Pedro se encontrarão frente a frente, cairão um nos braços do outro e, de mãos dadas, comparecerão à presença de Deus, por quem serão julgados e naturalmente absolvidos, permanecendo depois juntos na Eternidade. (Já notaram como essa palavra anda me perseguindo?)
Souza Pinto consulta seu relógio-pulseira e convida-nos a visitar o resto do mosteiro. Antes, porém, de deixar o templo torno a caminhar por entre suas naves, pensando assim: "Talvez eu esteja vendo estas pedras pela última vez na minha vida. Sei que vou encontrar na Espanha, na França e na Itália catedrais românicas, góticas e barrocas mais grandiosas do que esta igreja monacal. Mas prometo, ó santuário de Alcobaça, que jamais te esquecerei. E se um dia eu tentar descrever em palavras o que senti hoje dentro de ti, perdoa à nossa língua pelas suas limitações e principalmente a este escriba por não saber manejá-la bem. E adeus!"" (VERÍSSIMO, 1976, p. 111 a 113).

Esse livro póstumo foi publicado graças a Flávio Loureiro Chaves, professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em acordo com a família do escritor, falecido em novembro de 1975. Coube ao Flávio por ele ser um "[...] conhecedor abalizado da obra de Érico Veríssimo e do seu método narrativo." (Nota dos Editores)

Os capítulos I, II, III e IV - correspondendo a 251 páginas já estavam inclusive impressos. Faltava apenas a conclusão.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cinquenta anos sem a Nona Rosa!

A Nona Rosa está sepultada no Cemitério de Ipuã, desde 13 de dezembro de 1964. Ela foi um misto de bondade e energia que deixou marcas profundas na minha vida. No início da segunda metade do século passado, quando se falava que a pessoa era enérgica, misturava-se o sentido do termo braveza com o de retidão. Minha Nona era uma pessoa enérgica!
Em fevereiro de 1964, quando eu estava com treze anos recém-feitos, nossa família veio de mudança, pra Taguatinga, no Distrito Federal. Na cidadezinha natal, ficaram muitos dos meus entes queridos. Entre eles, a Nona Rosa.
Era uma senhorinha de caráter, que prezava a honra e os bons costumes. E era respeitada até quando precisava chamar alguém da família de volta ao bom senso...
Apesar de ter levado uns bons pitos dela, durante os poucos anos de convivência, eu a respeitava e admirava. Na mesma proporção do meu temor.
Aos dez anos, vesti minha primeira calça comprida e fui, a mando da minha mãe, mostrar minha roupa nova pra Nona Rosa.
Ficou muito bonito, disse minha mãe! Vai lá mostrar pra Nona, depois vai mostrar pra tia Arlinda e pra tia Pina...
Era mesmo um lindo modelo que minha mãe copiou das revistas da moda e costurou, ela mesma! Minha mãe sempre foi muito prendada! O modelito era a grande novidade naquele comecinho dos anos 60! As mulheres se permitiam ser mais ousadas e a moda retratava isso muito bem! Quem diria, mulheres usando calças, imitando homens! Almocei e fui, primeiro, à casa da tia Pina. Ela não gostou. Mas nada falou sobre não gostar. Fez comentários sobre o tempo dela, de moça que trabalhava na roça, e contou que as moças de então usavam calças do tipo que homem usava, mas eram usadas por baixo das saias longas. Era costume. Era vestimenta de proteção contra o sol. Também usavam camisas de mangas compridas e lenço nos cabelos, amarrado sob o queixo, além de chapéu... Mas, assim, mostrando a divisão da bunda, as moças do tempo dela não usavam, não...
Ou seja, fez uma ressalva brava - dissimulada como se fosse um comentário velado - mas uma ressalva explícita para a mocinha que começava a entender das coisas do mundo...
Saí da casa da tia Pina e fui pra casa da Nona, toda importante, ainda me sentindo moderna e chique... Levei um baita susto; e só não apanhei porque fui esperta e saí correndo. Mas, mesmo de longe, ouvia a Nona, aos gritos:
- Fala pra sua mãe que ela vem aqui!!!! Onde já se viu? Na nossa famia num tem moça desfrutável! E vai tirar essa carcinha, sua indecente! Isso é roupa de homem! E vem de novo, vorta aqui sem essa poca vergonha, ou eu corto essa carçola na tesoura!
Foi um escarcéu! A Nona pôs a família em polvorosa! Contou pra todo mundo que apareceu na casa dela, nos próximos meses. Vi essa história sendo contada, de muitas maneiras, por muito tempo. Nunca achei graça!
Eu sabia bem que a Nona era muito brava, pois eram muitas as histórias que comprovavam isso.
Hoje, Nona, depois de passados cinquenta anos, depois de ter assistido a tantas mudanças de costumes, eu a entendo, perfeitamente. Era um tempo de cuidados com a reputação. Os mais velhos tinham a obrigação de evidenciar o entendimento do mundo para os seus descendentes, para prevenir excessos.
Muita coisa mudou! Muitos têm falhado neste propósito!
Sei, no entanto, Nona Rosa, que entendi e pratico o significado do seu o recado. Cabe a nós passar aos nossos descendentes o sentido da vida. Vestindo saias, ou calças, não importa mais... O que importa - e eu mantenho dentro de mim - é o respeito que devemos ao legado dos que nos antecederam, à base da simplicidade, do trabalho, da retidão e do amor à família...
Lembro-me que, daqui do DF, só soubemos da sua morte uma semana após ter acontecido. E era um sábado. E que foi um dia muito chuvoso. E, além de rezar pela sua alma, eu também exercitei – bastante – a minha memória fotográfica, tentando resguardar no coração e na mente as cenas vividas ao seu lado.
Minha homenagem e agradecimento são constantes, mas, hoje, têm um misto de saudade e alegria. Alegria porque a figura matriarcal pulso firme que a senhora representa, na memória da família, é padrão que vejo repetir-se nas netas, nas bisnetas, nas trinetas, nas tetranetas... e vai seguir sendo multiplicada pelas gerações seguintes...
Desafio, aqui, os homens da família a contestar este legado...

Alguém se habilita?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

HOMENAGEM

Sítio Rosa Mística, outubro de 2003 
Há vezes em que mais que lamentar o ente querido que se vai, preocupamo-nos com quem  fica. Foi assim quando morreu o padrinho David. Só pensávamos no sofrimento da madrinha Landa.
A morte arrebatou dela, da madrinha tão querida, a engrenagem que movimentava toda alegria e razão de ser dos dois que viveram como se um fosse complemento do outro..
Não que ela não goste dos filhos tanto quanto gosta do padrinho. Mas eles, assim como todos os filhos, seguem seus caminhos e só às vezes, fazem um atalho no percurso diário, para ver os pais. É assim que outras famílias se formam. Eles também têm seus amores e seus filhos. Os dois, padrinho e madrinha, no entanto, são/foram extensão um do outro.
 A bem da verdade, ele não morreu. Tenho certeza que ele não se foi, está por perto. O que parece morte é ausência física. Nada mais é do jeito a que ela estava acostumada, mas ele continua fazendo parte da vida dela. Fosse eu escritora e fossem eles meus personagens, dar-lhes-ia a graça de morrerem juntos, mas não neste dia vinte e cinco de setembro de 2003. Permaneceriam juntos e felizes por mais um bom tempo. Viveram juntos por cinqüenta anos. Dar-lhes-ia mais cinqüenta anos de convivência e de amor. 
Se me pedissem para definir o padrinho com uma só palavra, eu diria presença. Onde a madrinha estivesse, ouviam-se as gargalhadas dela, misturadas aos casos vividos, que contava, enfatizando a presença e anuência do padrinho: “Não é, David?”
À proporção que cresci, acostumei-me a vê-lo, sempre ao lado dela, a cabeça inclinada ora para a esquerda, ora para a direita, olhando-a amorosamente. É assim que eu o vejo na memória.
Meus pais decidiram sair de Ipuã, não tive a companhia constante dos meus padrinhos durante a adolescência e a idade adulta. Porque houve a mudança para longe, não nos víamos com freqüência. Mas eles sempre se empenharam em visitar-nos, apesar da distância e das dificuldades.
A madrinha sempre foi motivo de orgulho para todos que temos a graça de tê-la. Ela é uma inspiração para mim. Meu modelo e personagem constante das histórias que conto quando discorro sobre as coisas maravilhosas que a vida me deu. Não há quem a conheça e não compartilhe desse agradecimento. Deus a criou em um momento de luz tão intensa que o anjo que O auxiliava tomou forma de gente e veio para cuidar dela: o seu David.
Nada me tira a certeza de que esse anjo continua olhando amorosamente por ela. 
O momento é de perda. A respiração é curta. As cores estão embaçadas. A alegria se foi.
Deus olha por ela nesta fase difícil de adaptação e há de restaurar nela a certeza da presença do padrinho. E a certeza de que vão reencontrar-se e ser novamente felizes, na eternidade.
Repito aqui sua frase predileta para todos que a conhecem: “Deus te abençoe!” Deus te abençoe, madrinha! Sempre te amei! Cléia. 
(Escrevi este texto no dia seguinte à morte do meu padrinho David. Depois, quando minha irmã foi a Ipuã, em janeiro do ano seguinte, enviei-o pra ela, em forma de carta, acompanhado do texto a seguir). 

Madrinha,

Queria pessoalmente ler este texto que escrevi em homenagem a vocês dois, casal querido que sempre foi só carinho com todos da minha família. Queria, pessoalmente, ler com a senhora, conversarmos bastante e chorar, uma ao lado da outra, para desapertar o peito oprimido. Todos passam pela vida, chega a hora para cada um de nós, mas não é fácil aceitar que o padrinho se foi. Principalmente para a senhora, bem sei. Conformar-se não é tarefa possível quando se foi abençoada por uma vida tão cheia da presença do amor. Só as lembranças não aplacam a dor da perda. Resta-nos pedir a Deus que lhe permita amenizar o sofrimento, que a ajude a manter viva a lembrança do padrinho nos corações dos que conviveram com ele e dos que não tiveram a graça de participar da alegria das conversas ao redor da sua mesa farta e carinhosa. Por enquanto está difícil ir até aí, mas uma hora dessas dará certo e poderei então, pessoalmente, demonstrar meu carinho e solidariedade. Cuide-se e lembre-se que agora a sua responsabilidade é maior porque lhe cabe a tarefa de ensinar as pessoas a se amarem como vocês dois sempre se amaram. Fica com Deus e que Deus a abençoe cada vez mais. Muitos beijos e um abraço do tamanho da minha saudade, Cléia. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

VIAGEM

Na estrada...
Atrás de mim, 
o verde da saudade.
À frente,
o verde-eu
intenso-na-esperança.
De um lado, 
desilusões e sobressaltos.
Do outro,
Aprendizagens...

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

HOMENAGEM DE AMOR

Luzia foi sempre uma criatura com os pés no chão e feliz. De uma felicidade latente que ela demonstrava com o sorriso e com os olhos. Nascida em uma família de muitos irmãos e muitos tios, teve infância de magia. Os afazeres, na roça, eram em conjunto. As músicas eram cantadas em coro (isso ela me contou um dia, lá na minha infância!). A alegria era uma vibração que transcendia o entendimento. Se bem que alegria é para se sentir, não precisa ser explicada.
Quando conheceu o amor, acompanhou-o sem questionar-se. Levou consigo a felicidade de quem sabe seguir os desígnios de Deus. Sua simplicidade e meiguice eram cativantes. Distribuía simpatia. Em sua nova casa, já se divisava que o futuro seria de grandes alegrias. Nasceu a primeira filha; depois o primeiro filho, o segundo filho e a segunda filha. Quatro alegres crianças.
A concentração era na própria vida. Preocupações havia, a lida era árdua e ingrata. Mas não se foge da realidade.
No início do casamento, o marido, homem risonho, bom e trabalhador, era só chamego. Com o tempo, foi ficando ausente. Luzia, para não construir muros, continuou fazendo da sua felicidade a ponte de ligação dos filhos com a alegria da convivência e com a realidade de se poder contar com o que se tem. Há a certeza de que hoje estamos aqui. Amanhã, quem sabe onde?
Quem vê de fora há de achar uma atitude passiva diante dos problemas. Não há de ter alcance das razões e das ações. Porque amar é doar. A vida que lhe foi dada é amor em doses diárias. Cabe a ela receber a vida e agradecer. Com alegria. Sempre sorrindo.
Ao respeitar e valorizar as histórias cotidianas, recebe-se melhor a morte. Que é estrada que leva ao que está designado para todos. Cada um a seu tempo. Foi assim com seus pais e muitos dos seus irmãos. Com alguns amigos e vários tios e uns tantos primos e conhecidos. Foi assim com a neta de oito meses, que regurgitou e morreu asfixiada no berço, enquanto dormia o soninho da tarde. Quando isso aconteceu, aquela alegria que se divisava nos seus olhos, era já uma alegria triste, pesada, sustentada mais pela fé. “Não há mal que sempre dure...” Como se uma névoa ofuscasse o caminho do riso que antes vinha do coração e explodia nos olhos. Era agora um sorriso triste, um costume, marca de um rosto acostumado à condição de alguém que é passageiro e está quase chegando ao derradeiro...
A cidade onde nasceu e morreu tem um clima muito quente, na maioria dos dias do ano. O ar pesado, a atmosfera abafada, um peso a mais que se carrega na lida diária. E muita poeira, apesar do asfalto e das calçadas lavadas diariamente, uma prática que virou tradição. O dia só segue seu curso normal depois que se lava a calçada da frente da casa. É bonito de se ver as mulheres com suas roupas coloridas, o movimento de suas figuras, os braços que se esticam e encolhem com a extensão das mangueiras e da água que se espalha e escorre pelo asfalto, lavando, varrendo, afastando temporariamente a sujeira, a monotonia, o mormaço.
E chega o dia em que se lê a última página que relata as ações da sua própria história. Aquela que sintetiza e encerra todos os atos.  Que é convite para que aquele que ficou reconheça-se na realidade do que é presente. Que é emoção para se chorar o acontecido, para se condoer e despedir de alguém que cumpriu seu destino na terra e, com certeza, chegou às portas do céu e recuperou o sorriso aberto e a mesma alegria da infância.   
O dia de calor intenso a tirou da cama bem cedo, como de costume. Preparou o café. Arrumou a mesa com todos os deliciosos pães, biscoitos, bolos e roscas que preparava com antecedência. E foi para a calçada, brincar de ser criança, jogar água para o alto e rever o arco-íris. Um mal súbito, fulminante, e a queda fizeram com que a festa das mulheres coloridas ficasse estarrecida, tumultuada e, então, estática. A morte chegara silenciosa e a levara.
O sol brilhou intensamente naquele dia. Choveu à noitinha, durante o cortejo fúnebre.


Minha homenagem de amor à Luzia do Raul, que só nos deixou lembranças boas. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

NOSSA HOMENAGEM, LUCY DO CARMO FERREIRA DOS SANTOS

Lembro-me que a conheci em uma festa no edifício Saint Etienne, em Taguatinga. Dominava a rodinha que se formou encantada com a fala dela. Soube que era professora da então Fundação Educacional do D.F. – hoje, Secretaria de Educação. Ela narrava sua história recente, um amor que a fazia muito feliz. O moço ao lado dela, sorridente, ouvia e concordava.
Tempos depois, ela apareceu no Centro de Ensino 05 de Taguatinga, com um grupo de professoras da Regional de Ensino, em um mutirão de apoio, com representantes de cada Núcleo da Regional. Todas falaram, mas foi a Lucy quem deu o show, orientando-nos e dando dicas de experiências exitosas, em sala de aula, com seu carisma peculiar e demonstração de amor ao que fazia. Eram tempos muito difíceis. A Boca da Mata era um mar de barracos – à espera da mudança para formar a região que hoje chamam de Chaparral - e a escola chegava a ter turmas de 60 alunos. Além das duas turmas de Aceleração (sétima e oitava séries, em um único ano, nos dois turnos), eu tinha uma de quinta série com 57 alunos, sendo que, desses, 23 eram disléxicos. Enquanto durou o problema de salas superlotadas, a ajuda da Lucy foi preciosa.
Quando fui trabalhar nessa mesma Regional, no Núcleo de Coordenação Pedagógica-NCP, a sala onde atuava permitia acesso à Biblioteca Comunitária, por uma porta providencial que facilitava consultas ao acervo e utilização do banheiro. A Lucy era, então, quem implementava a utilização da Biblioteca. No finalzinho da tarde, ela costumava aparecer na nossa sala e contava as dificuldades e peripécias para conseguir seu intento, um objetivo grandioso, que ela buscava alcançar. Estava responsável pela Biblioteca e queria transformá-la em Pública, para alcançar vantagens para a comunidade taguatinguense. Seus dias, então, eram verdadeiras odisseias, tentando abrir as portas do convencimento, lutando contra a burocracia burra de poderosos eventuais que não enxergavam a grandeza de uma Biblioteca amparada e bem assistida. Com a ajuda da Professora Vandercy de Camargos, a então diretora da Regional, a Lucy do Carmo Ferreira dos Santos, idealizadora da transformação que tanto bem trouxe a nossa Taguatinga, alcançou seu intento.
Lucy sempre conseguiu cativar e convencer. Sua beleza vinha casada ao carisma da sua convicção: ela idealizava e realizava, com a certeza do seu altruismo. 
O dia da inauguração da nossa Biblioteca Pública Machado de Assis, bem programado para ser um evento grandioso, foi de uma energia inesquecível. As coordenadoras da nossa sala ajudaram as pessoas que trabalhavam com a Lucy a organizar a Biblioteca, para receber autoridades e convidados. Fiz, com muita honra, parte da turma. Na hora do grande evento, teve discursos, apresentação musical, encenação de uma peça e, durante o coquetel, uma música de Richard Clayderman, acompanhado ao piano por uma orquestra (quem dera minha memória soubesse especificar qual!), invadiu o ambiente, em alto e bom som e emocionou a todos os que lá se encontravam. Lembro-me que aplaudimos, demoradamente, a emocionada e feliz Lucy.
Na quinta-feira passada, dia 30 de outubro, soube que ela morreu, há mais de três anos. Eu já a havia procurado na internet, porque sentia falta de saber sobre as peripécias dela. Mas nunca imaginava que a realidade era dura. Desde então, estou convicta de que preciso espalhar a crônica da vida dessa professora cheia de energia e pensamentos grandiosos.
Fui procurar sobre ela no site da Biblioteca Pública Machado de Assis - bibliotecadetaguatinga.blogspot.com.br/2014 07 01 archive.html – e achei informações sobre acervo, horários, atividades extras.
E uma reportagem (o link se encontra no blog de endereço acima) sobre a importância da Biblioteca para tantos usuários:
http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/alem-dos-livros-as-multiplas-funcoes-de-uma-biblioteca-publica/n1597369382299.html
No entanto, nada sobre a professora que transformou um espaço de acervo pequeno e poucos usuários num ambiente de grandioso destino.
Com certeza, ela se foi antes do tempo! Muitos dos seus objetivos, naquele ano de 2011, ficaram por alcançar. Lá de cima, ela nos contempla e regozija-se vendo que somos reconhecidos e gratos porque a tivemos no comando de muitas batalhas, na nossa cidade que surgiu da vontade de guerreiros iguais a ela. De gente que não se envolveu apenas com a própria causa. Gente que enxergou possibilidades e lutou para fazer com que acontecessem.
Nosso muito obrigada, professora-doutora decidida e comprometida com a Educação; energia poderosa que espalha sua luz em outras paragens!
A Lucy, depois de sua aposentadoria, fez mestrado, cursava doutoramento e dava aulas em Faculdades do D.F. e entorno.
Pesquisei seu Currículo Lattes (http://lattes.cnpq.br/1246056055998172), no site do CNPq (última atualização do currículo em 07 de julho de 2011, feitas pela própria) e encontrei essas informações:
“Possui mestrado em Educação pela Universidade Católica de Brasília (2002). Possui Doutorado em Educação, pela Universidade de la Empresa (uy), com defesa de tese prevista para julho/2011. Atualmente é Professora de Pós-Graduação do INSTITUTO DE EDUCAÇÃO FILADÉLFIA, da ASSOCIAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA, (ASEP), do IDESB, da FACULDADE INTENACIONAL DE CURITIBA- FACINTER /UNINTER, da FACULDADE LS. É Professora de Ensino Superior - SANTANA INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR. Tem experiência na área de Educação, com ênfase no Ensino-Aprendizagem da Língua Portuguesa.”
O Lattes da Lucy traz, também, especificidades de sua trajetória social:

2009
SÓCIO BENEMÉRITO BIBLIOTECA PÚBLICA DE TAGUATINGA MACHADO DE ASSIS, ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS/ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE TAGUATINGA.
2004
MULHERES FANTÁSTICAS, ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE CEILÂNDIA.
2003
SÓCIA-FUNDADORA BIBLIOTECA PÚBLICA DE TAGUATINGA MACHADO DE ASSIS/ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS/ADMINSTRAÇÃ OREGIONAL DE TAGUATINGA.
1995
MULHERES ATUANTES, ACADEMIA TAGUATINGUENSE DE LETRAS.
1993
PERSONALIDADE DESTAQUE- ÁREA DE EDUCAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE TAGUATINGA/ LYONS CLUBE INTERNACIONAL.
1990
PERSONALIDADE DESTAQUE ÁREA DE EDUCAÇÃO E CULTURA, ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE TAGUATINGA RAIII.
1984

MÉRITO EDUCACIONAL DO DISTRITO FEDERAL, SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO.