Páginas

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

HOUVE UM TEMPO, EM TAGUATINGA

Aos catorze, alcancei a altura máxima, um metro e setenta e cinco centímetros, que o tempo se encarrega de diminuir.
No Cemab, eram muitos os apelidos. E eu me curvava, ao peso deles. Os que mais me afetaram: espanador da lua; vara-pau; girafa; Belém-Brasília (era o tempo da construção da estrada que serviria para que o Norte fosse desbravado: era uma rodovia comprida e mal acabada; daí a ligação comigo...). Pesadelos povoavam meus sonhos, com medo de nunca parar de crescer. E a pergunta que mais ouvia era: menina, você não vai parar de crescer, não?
Foi em Taguatinga Sul que minha família se alojou, desde o primeiro dia. Depois da primeira casa alugada, ainda passamos por mais duas até meus pais comprarem o lote onde construíram nossa casa.  No lote recém-comprado, um barraco de madeiras se impunha; era um misto de feiúra e desolação.
Até chegarmos a esta penúltima morada - o barraco de madeiras - o desbravamento foi um tempo sofrido. Contrariando minha indisposição inicial, adorei morar no barraco. Sentia-me bem, dentro dele. Sinal de pertencimento e realismo? A menina em mim fazia de conta que brincava de casinha. A mocinha tinha vergonha do primeiro namorado que, de vez em quando, passava de carro, devagar, naquela rua onde os muros e os limites entre as casas não tinham sido, ainda, necessários. O namorado, às vezes, parava o carro e olhava um olhar comprido pro lado do barraco e acabava desistindo. Lá dentro, pelas largas frestas entre as tábuas, a mocinha vigiava e torcia pro moço desistir mesmo. Não ficava bem...
Toda a cidade era um mar de barracos, salvo algumas casas de alvenaria - que pareciam pintadas a esmo -, muitas do tipo meia água, outras poucas mais elaboradas. Era aquele o cenário onde estávamos plantados e sentíamos a energia que nos induzia a perseverar, a buscar o futuro.
Era tudo tão intenso que, enquanto escrevo, custo a acreditar que em menos de três anos vivemos tantas circunstâncias impensáveis e superamos tantas adversidades. E chegou o momento quando pisamos na sala da nova casa, prontinha, cheirando a tinta fresca, imponente, na frente do barraco que precisou ser demolido.
Aprendi a sonhar mais vezes do que minha imaginação suportava, devorando livros que pegava emprestados, na minibiblioteca daquela escola que eu frequentava, nos dois horários. De manhã, o cenário era a escola: a sala-de-aula, a biblioteca, a quadra de esportes. À tarde, a biblioteca, a quadra, ou as ruas próximas à escola, onde abrandávamos a febre de bola, correndo e suando, sendo felizes enquanto a queimada, o andebol e o vôlei eram o centro do nosso mundinho.
A Taguatinga daquele tempo era áspera. A escola era o centro do universo. O movimento de gente na secretaria da escola evidenciava que as pessoas continuavam chegando à cidade e queriam seus filhos estudando. Já conhecia quase todos os colegas, mas não tinha amigos. Na escola, eu vivia o papel de construtora do meu futuro colorido.
Com o tempo, a cidade natal virou uma história escrita no passado, com personagens inesquecíveis, abrigados no meu coração. De vez em quando, meus pais decidiam que era hora de visitar parentes e de matar saudade. Viajávamos quase oitocentos quilômetros até o interior de São Paulo e era real a certeza que o passado estava guardado a sete chaves, como um tesouro intocável, de valor inestimável. O coração transbordava de alegria, ao percorrer cada pedacinho da cidade natal, misturando o passado e o presente... Cada olhar refletindo pessoas queridas, pulsando o prazer de voltar à terra querida, ouvindo o badalar dos sinos da igreja matriz...
Mas, a cada nova visita, mais e mais se acentuava a certeza de estranhamento, de perda, de choque de realidade...
Nasci lá, renasci aqui. 
Aquele coração, que transbordava de amor pelos que ficaram no passado, deixei-o aconchegadinho no peito; e abri espaço para um outro, tão importante quanto, todo em branco, onde desenhei, a cada novo dia, sem pressa e com muito empenho, cada novo minuto.
Entendi - e nunca me esqueci - a necessidade de firmar o pensamento no momento vivido, aproveitando o que a vida oferecesse, acreditando que conquistaria tudo que meus pais buscavam quando se mudaram para Taguatinga.

O lote que abrigou o barraco de madeira e, depois a casa nova, era vizinho a um espaço cheio de mato e lixo, onde, num futuro bem próximo, construíram o Clube dos 200. Com quase 16 anos, estudava o ensino regular, de manhã, fazia muito esporte nas quadras do Cemab, à tarde, e, três vezes na semana, pegava ônibus para a W3 e ia estudar inglês, na Casa Thomas Jefferson. 

domingo, 24 de agosto de 2014

AMIGOS PARA SEMPRE

Tenho lembrança de piqueniques com a turma do Cemab, em Taguatinga, Distrito Federal.
Turminha formada por alguns colegas e amigos que se animavam e atendiam ao chamado para um domingo diferente.
 Íamos e voltávamos felizes, cantando, na carroceria do caminhão pilotado pelo meu pai.
Duas vezes meu pai nos levou para a cachoeira do Gama. Era um lugar muito bonito. No meio do cerrado, água cristalina em profusão, correndo pelas pedras que convidavam os mais afoitos a escorregar até mergulhar num poço largo, uma piscina natural...
Uma vez meu pai nos levou pela estrada de Brazlândia.
Ali onde hoje tem uma baita plantação de eucaliptos – do lado esquerdo de quem vai – ele comprou uma chacrinha que nem casa tinha. Por pouco tempo ela foi nossa; logo, o Incra a pegou de volta.
Um córrego marcava a divisa com a chácara vizinha. Passamos o dia à beira dessa água bendita, deliciosa, piquenicando: leves e sadiamente soltos... Foi em 1965.
O lugar não é, em nada, parecido com o que merecíamos.
Tenho fotos deste passeio.
Elas comprovam a total falta de estrutura do lugar.
Para nós, jovens castigados pelo calor e falta de umidade dos ares da nova terra - onde tentávamos nos adaptar e afirmar - era o cenário ideal para um domingo diferente, com direito a congraçamento e interação! 
A primeira foto traz, à esquerda, em pé, a Maria Carmem Bessa. Do lado direito, segurando um galho de árvore, o Célio. Ele e duas irmãs estudavam na mesma sala: a Célia e ... não me lembro o nome da outra... Entre a Carmem e o Célio, um tanto de gente querida que a minha falta de memória não me permite nomear... Sentado com um rádio de pilhas sobre o joelho direito, um rapaz de quem não sei o nome (ele aparece em uma foto postada pelo Getúlio Romão, aquela dos atletas do time de futebol do Comind). Do lado esquerdo dele, a Maria Helena Okubo. Todos observando alguma bravata que o Célio prometia aprontar...

Na segunda foto, fizemos pose: eu estou com o braço esquerdo em cima do ombro da irmã da Maria Helena Okubo, a Mitinha Okubo (novamente, falha a memória; não me recordo do nome dela, só o apelido!)... Fomos vizinhas e muito amigas, quando a família delas morava na QSB 11. Os outros amigos eu não reconheço.

Na terceira foto, a Nélia está com o braço esquerdo na direção da boia que leva meu irmão caçula e a minha irmã Cármen Silene Gerin. Atrás da boia, duas mocinhas. Uma delas, a irmã do Célio (aquela que não me lembro o nome). Não sei quem é a de maiô preto, do lado direito da foto.

A quarta foto traz a irmã do Célio, em destaque. Na boia, o meu irmão caçula. O menino dentro da água é o Maurício Mancuso. O rapaz com o outro menino ficaram no passado...

Na quinta foto, estou dentro d’água e, em pé, em uma das margens, estão quatro jovens que não reconheço; a não ser a Maria Ézia, no canto esquerdo, com um lenço na cabeça.

Na sexta e última foto, uma visão mais ampla do nosso pedacinho de céu. Na boia, a Célia, irmã do Célio e a moça que não identifiquei. Do lado direito, meu irmão caçula...

Que pena! Poucas fotos (tiradas pela minha mãe) documentam nosso passeio. Eram bem escassas as nossas opções de lazer, numa cidade sem parques, sem clubes...
Foram intensas as nossas experiências.

Éramos depositários de sonhos distantes - que vislumbrávamos - e sabíamos que tínhamos garra para conquistar, apesar do cenário áspero, da pobreza, das moradias sem conforto...   

terça-feira, 12 de agosto de 2014

ROBERTO CARLOS, MARIANA E EU

Minha amiga Mariana Bergamaschi era minha mentora. Alguns meses mais velha, a mocinha sabida era bem descolada. Também tinha vindo do interior de São Paulo e morava com os pais e os irmãos, na QSB. Era cheia de atitude. Sua personalidade contrastava com a minha que teimava em esconder-se debaixo de muita timidez e complexos.
E teve um dia - acho que no ano de 65, numa segunda-feira - que a Mariana me contou que rolava um boato pelos corredores do Cemab. Estávamos no recreio. O sinal tinha acabado de nos libertar de uma aula enfadonha, no bloco recém-construído, o Bloco B.
Nosso bedel era o temível Marcelo Homem de Faria. Ele costumava atemorizar-nos, com avisos e ameaças, para coibir atitudes de excesso comuns entre adolescentes. Com o tempo, entendemos que ele fazia tempestade em copo d’água, para impor a disciplina que ele queria - e conseguia – com a simpatia que espalhava entre os jovens.
Era costume nosso andar pela escola, aproveitando o sol. Conversando o tempo todo. Saíamos da sala, Mariana e eu, e dávamos a volta em direção às quadras de esportes, pra ver se havia atividades. Depois, continuávamos caminhando pelas calçadas que circundavam o prédio antigo, rodeávamos os dois blocos e voltávamos pra área das quadras.
Curiosa pra saber o boato - esperava por alguma novidade de namoro, ou de desavença entre conhecidos - nem acreditei quando ela falou:
- O Roberto Carlos vai cantar naquele circo que está instalado em frente ao Bar Estrela. Tão falando aí. Será? Não tou acreditando não.
Nosso mundo se restringia à escola, televisão e filmes no Paranoá. Aos domingos, as nossas tardes eram passadas com os olhos grudados na tv (isso, antes do Clube dos 200 brotar do chão, trazendo nossas domingueiras famosas), corações sobressaltados, músicas na ponta da língua e muitas emoções: a Jovem Guarda tomava conta de nossas vidas. Nosso mundo girava em torno de um eixo: Roberto Carlos.
Não me lembro de muitos detalhes.
Que pena!
Pudera! Foi há quase cinquenta anos!
Combinamos, Mariana e eu, que compraríamos os ingressos à tarde e pagaríamos para ver se ele apareceria mesmo. Queríamos acreditar que sim, mas, no fundo, duvidávamos que a grandiosidade do fenômeno que a tv nos mostrava caberia num palco de um circo chinfrim, armado naquela área onde hoje se encontra a Praça do Relógio. Lá havia um descampado onde, eventualmente, circos ou parques ofereciam temporadas de novas opções de lazer, na nossa Taguatinga de criaturas carentes de emoções.
Na hora marcada, quando começou o espetáculo circense, tinha gente saindo pelo ladrão... Entendemos que todos os jovens da cidade resolveram adotar a mesma estratégia que escolhemos seguir: também pagaram pra ver!
A cada novo intervalo entre as apresentações de praxe, gritávamos o nome dele, o nome doce do Robeeeertooooo. Queríamos acreditar que ele nos escutava! Era muita expectativa nos nossos corações de adolescentes sonhadores!
Contrariando todo o pessimismo e encantando nossos sentimentos de mocinhas deslumbradas, ele apareceu.
E cantou e cantou e cantou!
E foi sublime!
Foi uma noite de sonho!
Inesquecível!
Mesmo agora, quase meio século depois, a lembrança traz alento e alegria.
Mas o show chegou ao fim.
Nosso cantor se despediu e saiu, deixando-nos cheias de enlevo e gratidão.
A Mariana cochichou que íamos ficar esperando pelo Roberto, paradas, na entrada do circo, pois ele teria de voltar pra buscar o cachê. Alguém tinha comentado com ela que o Roberto tinha sido contratado com porcentagem extra, de acordo com o público pagante. Portanto, ele teria de buscar o resultado do fechamento do caixa.
Por volta de meia-noite, ainda nos encontrávamos na entrada do circo, comentando o encantamento do espetáculo que ele nos proporcionou, cantando todas as músicas que conhecíamos e sabíamos. Éramos uma turma de pouco mais de dez pessoas, aguardando, em dúvida, se nosso palpite se concretizaria.
Então, ele apareceu!
Inacreditável estar de frente com o famoso cantor, nosso ídolo maior naqueles tempos de iê iê iê.
Lembro-me que eu só olhava.
Não tive coragem de fazer perguntas, ou comentários... Só sacudi a cabeça - afirmativa e enfaticamente - quando ele perguntou “gostaram do show?”
Estava embasbacada!
A Mariana conversava, contava, perguntava, respondia às perguntas que ele fazia sobre nossa cidade... e teve a presença de providenciar nossos autógrafos, em pedaços de papel que ela levou de casa.
Mais tarde, na minha cama, lembro-me de demorar muito pra fechar os olhos, com medo de entregar-me ao sono e acordar, no dia seguinte, sem aquela sensação mágica que tomava conta de mim.
Na escola, na hora do recreio, o papelzinho com a assinatura do rei fez tanto sucesso que sumiu...
Por mais duas vezes tive a chance de ver o Roberto assim, bem de perto.
Também em Taguatinga.
Cantando, no Clube dos 200. 
No Ginásio de Esportes, onde só fui uma vez, ele era só um ponto brilhante lá longe. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A AVENIDA ELMO SEREJO E EU

Esta foto do Getúlio me fez voltar no tempo. O dia foi 07/07/77. Faltavam dez minutos pras 7 da noite. Eu tinha ido buscar um frango assado, pro jantar, na distribuidora Só Frango que minha mãe tinha montado numa loja da Samdu Sul. Voltava toda tranquila, na minha Belina marrom, achando muito calma aquela pista, naquele horário que, normalmente, era de rush. Escutei barulho de freios, percebi um carro parado, à esquerda, dando seta pra descer pra QSC e uma caminhonete vindo pra cima de mim.
Estava dando seta, pra esquerda, pra deixar a Samdu, pois morava em um apartamento, no prédio da Brecol. Pretendia, pois, subir; e já me posicionava mais para a esquerda da pista. Atenta, virei, rapidamente, o volante para a direita, o mais que pude, mas a caminhonete ainda abalroou, com força, toda a lateral do meu carro. Por sorte, não foi tão impactante e consegui parar a poucos centímetros de um poste. 
De onde surge tanta gente quando acontece algo sinistro? Parece que é instantâneo. Lembro-me que dei ré e parti na direção do centro da cidade, atrás do meliante que, em vez de bater no carro parado que ele viu de última hora, jogou a caminhonete pra esquerda do tal carro e acertou o meu! Ouvi pessoas me incentivando, com gritos e palmas e lá fui eu, decidida a ver a placa do carro para poder registrar a ocorrência...
Alcancei a caminhonete e consegui emparelhar minha Belina com ela, mas não consegui desvendar a placa, no meio de tanta poeira... Enxerguei três pessoas na cabine. O motorista fez menção de jogar a caminhonete pra cima do meu carro... Tudo isso, na pista ainda em construção. Tudo era só poeira ...
Na foto do Getúlio, o carro que desce no rumo do centro da cidade, levanta uma nuvenzinha de poeira. Na história que vivi, a caminhonete fugia na direção da Ceilândia e a cena era sinistra, por conta da escuridão e da poeira...
Ainda bem que eu não estava armada! Ainda bem que eu nunca aprendi a atirar... 
Credo! Será que meu instinto violento foi influência dos filmes de faroeste que vi no Cine Paranoá?
Esqueci de contar que eu estava grávida, de cinco meses, do meu Pretim, meu quarto filho. 
A pista irregular, a poeira e a certeza de não conseguir enxergar a placa, fizeram com que eu voltasse à razão e eu desisti da empreitada... Acompanhada da minha raiva, sentindo-me injustiçada, voltei pra casa.
Quando se é jovem, injustiça costuma ser carga enorme de suportar...
Se fosse um filme!!! Ah, se fosse um filme eu teria jogado minha linda Belina contra a caminhonete que, além de sair da estrada, teria a má sorte de cair num despenhadeiro (o lugar não tem um, mas, no filme, eu providenciaria para que tivesse), com direito a iluminar todo o cenário, quando batesse no fundo e explodisse e, de quebra, levasse minha raiva pro espaço, no meio da fumaça negra que subiria ameaçando a camada de ozônio que, naquela época, nem fazia parte das minhas preocupações...
Voltei pra casa, deixei o frango e corri pra escola, sem jantar. O horário de entrada era às 19:30 h e eu nunca fui de chegar atrasada.
Minha Belina ficou uns bons meses amassada e riscada e complexada... Professor nunca foi bem remunerado mesmo...

segunda-feira, 30 de junho de 2014

MINHAS LEITURAS

Li, certa vez, que nunca devemos dizer “li tal livro!”. Dizendo assim nós o desmerecemos. Porque fica muito de um livro em nós. E continuamos, mesmo depois dele fechado, a saborear seus ditos...
Minha pretensão é a de marcar aqui, neste blog, leituras que fazem parte de mim. De vez em quando, vou postar trechos das minhas escrevinhações resultantes dessas minhas leituras.
Hoje, homenageio o Josué Montello. Esse escritor profícuo se foi em 15 de março de 2006, aos 88 anos, depois de escrever quase (ou mais de?) 80 livros. Ocupou a cadeira de n° 29, na Academia Brasileira de Letras. Foi eleito em 1954, aos 37 anos. O mais jovem integrante em toda a história da instituição.
De um livro que me passou pelas mãos, ficou muita lembrança doce. O título é “Na Casa dos 40”. O livro publicado pela Livraria Martins Editora (São Paulo) não traz a data de publicação. Traz um retrato do autor, desenho feito a bico de pena, com dedicatória e a data 1962. 
O autor conquistou-me cedo e fez-me cativa da sua escrita que, como escreveu Manuel Bandeira (consta da contracapa do livro citado) "[...] parece passada a limpo. Não há nunca, um excesso, um desleixo."
Meu livro predileto, escrito por este talentoso autor de obra tão vasta, é “Os Tambores de São Luís”; livro considerado, pela Unesco, um dos patrimônios culturais da humanidade. Em tempos de internet, caso alguém se interesse, dá pra saber a sinopse; resenhas e as críticas sempre positivas...
Também morro de amores por “Um Rosto de Menina e outras novelas reais”. Especialmente, porque uma das novelas é ‘O Milagre’. Nem sei quantas vezes a li... Nesta novela, Josué Montello começa discorrendo sobre santos, beatos e bem-aventurados da Igreja. E cita nomes que, como faz questão de afirmar, "[...] hoje ninguém mais invoca" (MONTELLO, 1978, p. 107). E lista alguns meus conhecidos (não é de estranhar, já estou bem adiantada nos anos: no meu tempo de menina, padres rezavam a missa em latim, de costas para os fiéis), como Santa Brígida; São Godofredo; Santo Arcádio; São Juventino. E lista outros, bem estranhos, como Vivina; Nimásio; Sabas; Polixena; Feba; Tecla...
Tudo isso, com o intuito de mostrar que Santos também vivem o apogeu e, claro, o crepúsculo. Levando-nos a valorizar, ainda mais, nosso amado Santo Antônio, a quem o autor alia fama e reputação ilibada: “Nascido em Lisboa, a 15 de agosto de 1195, vai o Taumaturgo a caminho de um milênio, sem que haja diminuído no mundo a sua clientela, tão vasta que se estende por toda a cristandade” (MONTELLO, 1978, p. 108).
Mas, estou me afastando do meu objetivo (em outro momento volto a esta novela que tem Santo Antônio e Djanira como personagens principais) e dando a ideia errada de que sou uma beata que só reza. Não sou. Sou, apenasmente, muito chegada a meus santos e tenho recebido muita proteção divina na minha caminhada...
No primeiro livro citado, “Na casa dos 40”, dedicado a dois amigos e à memória de Viriato Correia, o autor escreve episódios acontecidos na Academia Brasileira de Letras.
Na sua apresentação, Montello (1962?) conta que o título foi dado por Adelmar Tavares, na última conversa que tiveram, antes da morte deste poeta pernambucano. Josué só soube depois da morte de Adelmar que ele também tinha a pretensão de escrever um livro assim. Resolveu, então, homenagear o saudoso amigo, atendendo-o em relação ao título. Adelmar, inclusive, tinha publicado dois ou três capítulos referentes a esta temática, na imprensa de Pernambuco. Um desses capítulos traz um chiste de Machado de Assis, que a minha parte leitora gosta muito.
Josué Montello conta-o, na Apresentação. Envolve um grupo de escritores, entre os quais, Ferreira de Araújo; Sousa Bandeira; Machado de Assis; Raul Pompeia e Capistrano de Abreu. Caso acontecido por volta de 1883-1884. Consta que estes escritores resolveram estudar alemão com um professor que dominava a língua tão bem que “[...] ao transpor o “Dom Quixote” para o português, preferiu deixar de lado o original castelhano e socorrer-se de uma tradução alemã... (p.16)”.
Entusiasmado com a possibilidade de aprender o idioma, Capistrano de Abreu sugeriu convidar também o crítico Sílvio Romero para integrar-se à turma. O crítico tinha acabado de chegar “[...] do Recife com a fama ruidosa de conhecer a fundo os mestres germânicos.”
Machado de Assis fez sua objeção:
“- Infelizmente o Sílvio não pode mais aprender porque espalhou que já sabe” (p. 17). 
Neste livro, são muitos os episódios assim. Esses casos anedóticos nos permitem conhecer um pouco do que tem sido a Casa de Machado de Assis, a partir da sua fundação.
Josué Montello conta que Afrânio Peixoto também era um coletor de anedotários: “Estou a vê-lo, esfuziando jovialidade, na tarde em que me fez este reparo, numa das janelas da Biblioteca Nacional:
- O Governo, no Brasil, é uma instituição destinada a criar postos e impostos: os impostos para pagar os postos...” (p. 18).
Que bom que ele morreu sem ver que havia possibilidade de ser pior ainda...
Muitos são os episódios com o Viriato Correia, o escritor do livro Cazuza. Outros, com Afonso Arinos de Melo Franco. Traz ainda Afrânio Peixoto; Getúlio, o baixinho de São Borja; Olegário Mariano; José Veríssimo; Humberto de Campos...
Sobre a conquista de vaga, na Academia, o autor do livro em tela nos conta que “[...[ se faz por dois processos: um, por amadurecimento natural da candidatura e a sua aceitação pacífica pela instituição; outro pela disputa renhida em termos de competição eleitoral” (p. 32).
Uma dessas disputas marcantes foi a da sucessão de José Lins do Rêgo. Havia dois candidatos inscritos: Afonso Arinos e João Guimarães Rosa. 
Foi um senhor embate: “Inscritos, Afonso Arinos e Guimarães Rosa, as duas candidaturas, embora plenamente amadurecidas, dividiram, naturalmente, a instituição, criando aquela expectativa ansiosa que agrava o silêncio da urna à medida que se aproxima a hora da eleição” (p. 33).
O primeiro candidato, apoiado por Ribeiro Couto, saiu vencedor. O segundo recebeu o apoio de João Neves da Fontoura. Foi quem incentivou o Rosa a inscrever-se, entusiasmando-o durante toda a campanha. Mas, também era admirador e amigo de Afonso Arinos e ansiava pela companhia dele na Academia...
Eleito Afonso Arinos, a vida seguiu seu curso: “O reparo de Hamlet a Horácio, segundo o qual há muita coisa no céu e na terra que escapa à nossa filosofia, parece que também se aplica, com o seu cabedal de mistérios sutis, às eleições acadêmicas” (p. 33).
Quem é capaz de prever o que a vida nos reserva? Cabe-nos somente seguir adiante, aceitando o que está posto: “João Neves da Fontoura, que desejava para João Guimarães Rosa uma eleição por unanimidade, não chegou a ver realizada essa aspiração: ele próprio abriria a vaga que seria preenchida, sem um voto discordante dos acadêmicos, pelo romancista de “Grande Sertão Veredas” (p. 33).

Deve ter sido glorioso para Guimarães Rosa o momento da sua posse: cumpria o desejo de um amigo que o queria acolhido por unanimidade e sabia-se simpático a todos que faziam parte daquela casa.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

MEMÓRIAS



Remexendo fundo de baú

Não tenho lembrança se a biblioteca da UnB foi invadida à tarde, ou pela manhã. Não sei o dia e estou com preguiça de buscar a informação correta... Eu estava com 17 anos, e cursava o segundo grau, no Ciem. Tratava-se de uma escola onde o ensino público era praticado de um jeito diferente. E, para entrar, o aluno passava por um “vestibular”. As aulas aconteciam, com enfoque e didática bem atípica, em dois períodos diários.
No dia da invasão, no horário do recreio, duas colegas e eu passeávamos lá fora, na frente da escola, caminhando, à beira do asfalto, descendo para o estacionamento, devagar, desatentas, conversando. E eu estava do lado esquerdo da Isabel, bem perto de onde passaram os caminhões... Caminhões que apareceram do nada. E seguiram, com firme determinação, rumo à UnB; passando pelas curvas acentuadas da pista asfaltada de acesso ao nosso santuário de promessas de um futuro que a magia da educação concretizaria. O modelo dos caminhões era daqueles antigos, com bancos, na carroceria, carregando muitos policiais fardados, e cães.
Enquanto passavam, eu levei, de graça, uma cassetetada, no braço esquerdo. Com força. Lembro-me da dor e da solidariedade dos colegas que comentaram muito, o incidente; no dia, e nos próximos, enquanto durou a marca roxa...
De família pobre (meu pai tinha um caminhão de mudanças e minha mãe era sócia em uma mercearia de porte pequeno), meus estudos eram bancados, com sacrifício. Porque, apesar de não pagar mensalidade, manter-me em escola, na Asa Norte, sendo moradora de Taguatinga, onerava muito o orçamento familiar. E eu ainda fazia inglês, na Thomas Jefferson.
Meus pais empenhavam-se – muito – para que eu tivesse oportunidades. Se tinha uma coisa que não me preocupava, naquele tempo, era a situação política do país!
Foi o acaso que contribuiu para que eu estudasse ali, no Ciem. Um incidente que culminou com a expulsão de parte expressiva de uma turma abriu a brecha para que entrássemos, fora de época. Uma amiga, a Isabel Perna, chamou-me para fazer o “vestibular” que nos gabaritou. Todos que fizemos as provas entramos. E isso gerou procedimentos de bullying, ao longo de todo o nosso percurso, naquela escola que nos foi de grande valia. Tive uma colega de classe que nunca me dirigiu a palavra, nunca respondeu a um cumprimento meu, nunca olhou para mim... Sempre entendi a postura dela: não se sentia bem, acolhendo quem, por WO, tomou o lugar de gente que merecia, de verdade, estar ali...
De Taguatinga, éramos uns nove, ou dez. A já citada Isabel Perna (foi o irmão dela, o Pedro Perna quem nos alertou para a chance); o irmão Nonato Perna; a Liana Gonzales; a Nelize de Araújo Santos; o Ivon Lopes; o Vicente Vives Gil... fomos os que pegamos carona e entramos na escola de elite que tinha a nata da juventude brasiliense, no seu quadro discente. Pela manhã, as aulas iam de 7:30h até 12h e, à tarde, de 14h às 18h. Lá fora, no estacionamento, o movimento dos inícios e términos de turno era, estranhamente, pontilhado de carros chapa-branca, com motoristas uniformizados, que levavam e buscavam os filhos dos funcionários públicos do alto escalão; sempre uma mordomia. Tínhamos como colegas de escola o Paulo Otávio, o Collor, o Luís Estêvão e tantos, tantos mais...
Cursei Letras e Biblioteconomia, na UnB, enquanto criei 4 filhos e trabalhei na então Fundação Educacional do DF. Fui professora de língua portuguesa; coordenadora local e intermediária; chefe da Seção de Bibliotecas Escolares e Comunitárias – Sebec, do DF; coordenadora de estágio e, atualmente, trabalho como revisora de textos (tanto técnica, quanto linguagem científica e de criação literária), em língua portuguesa. Tenho meu nome de revisora em centenas de livros e dissertações e teses. Depois de aposentada, cursei um mestrado em Educação.
Meu tempo de Ciem foi pesado – foram muitas batalhas e perdi algumas. Para mim, o Ciem foi um portal que rompi, na raça, sem mágica. Foi um tempo valioso, gratificante, emblemático e traumático.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

O CINEMA DA MINHA TERRA

Minha primeira lembrança marcante e dileta, da primeira vez que estive num cinema, vem do filme “O Pequeno Polegar”, da Disney. 
Colorido e sublime.
Antes dele, nada parece ter sido assim digno de ser memorizado.
Quero crer que seja por ter crescido vendo cinema.
Nasci numa cidade que tinha um Cine Teatro, a cidade de Ipuã, no interior do estado de São Paulo.
A fachada desse espaço de sonhos era cheia de cartazes atrativos, anunciando “Para Breve, Novas Emoções!”.
Era tudo tão maravilhoso!
Um mundo à parte, onde a imaginação era a impávida e cativante jornada para o infinito.
A cada nova experiência, mais e mais sonhos se apoderavam dos corações incautos...
Eu era feliz. E sabia!
Eu ia à porta do cinema, todos os dias, onde as paredes exibiam fotos de artistas apaixonantes, nos cartazes chamativos (inicialmente, muitos filmes eram franceses; e, com o tempo, os americanos se destacavam mais), buscando saber qual a fita da noite e a faixa etária correspondente.
Lembro-me que, às segundas, terças e quartas, eram filmes repetidos.
Na quinta, o filme era novo: eu ia.
Na sexta, era filme de terror: não perdia, por nada! Quase morria de medo, depois!
No sábado, era de amor: eu ia.
No domingo, tinha a matinê: eu ia. À noite, nova fita: eu ia!
Depois que completei treze anos, virei um varapau (como diziam). O fato de ter crescido tanto tinha suas vantagens e desvantagens e eu tinha muitos complexos e muito medo de nunca parar de crescer. Mas, o certo era que o meu tamanho me permitia, à noite, transformar-me em uma moça. Além de compor-me com mais cuidado, acrescentava um sutiã à minha indumentária, completava o espaço dele todo com algodão, empertigava meu manequim de Visconde de Sabugosa e via filmes permitidos para maiores de dezoito anos! Era emocionante ver beijos na boca!
Eu tinha uma prima querida, a Vilma Cleire Giorgiani, minha melhor amiga de infância, que anotava, dia após dia, todos os títulos e protagonistas e diretores dos filmes que o cinema exibia. Por volta das cinco da tarde, íamos as duas, pelas calçadas, em direção ao nosso cinema. Ela, com um caderninho e a caneta na mão. Eu, tagarelando... Tudo anotado, resolvíamos qual seria nosso programa noturno.

Voltávamos, cada uma para a sua casa, jantávamos e tomávamos nosso rumo: ou íamos passar parte da noite com os olhos grudadinhos na tela do Cine Theatro - aquele provedor de emoções e sensações nos nossos coraçõezinhos carentes de aventuras e felicidade; ou íamos para a praça da igreja matriz, brincar de ser feliz, ao som dos sinos da minha terra...