Esta foto do Getúlio me fez voltar no tempo. O dia foi 07/07/77. Faltavam dez minutos pras 7 da noite. Eu tinha ido buscar um frango assado, pro jantar, na distribuidora Só Frango que minha mãe tinha montado numa loja da Samdu Sul. Voltava toda tranquila, na minha Belina marrom, achando muito calma aquela pista, naquele horário que, normalmente, era de rush. Escutei barulho de freios, percebi um carro parado, à esquerda, dando seta pra descer pra QSC e uma caminhonete vindo pra cima de mim.
Estava dando seta, pra esquerda, pra deixar a Samdu, pois morava em um apartamento, no prédio da Brecol. Pretendia, pois, subir; e já me posicionava mais para a esquerda da pista. Atenta, virei, rapidamente, o volante para a direita, o mais que pude, mas a caminhonete ainda abalroou, com força, toda a lateral do meu carro. Por sorte, não foi tão impactante e consegui parar a poucos centímetros de um poste.
De onde surge tanta gente quando acontece algo sinistro? Parece que é instantâneo. Lembro-me que dei ré e parti na direção do centro da cidade, atrás do meliante que, em vez de bater no carro parado que ele viu de última hora, jogou a caminhonete pra esquerda do tal carro e acertou o meu! Ouvi pessoas me incentivando, com gritos e palmas e lá fui eu, decidida a ver a placa do carro para poder registrar a ocorrência...
Alcancei a caminhonete e consegui emparelhar minha Belina com ela, mas não consegui desvendar a placa, no meio de tanta poeira... Enxerguei três pessoas na cabine. O motorista fez menção de jogar a caminhonete pra cima do meu carro... Tudo isso, na pista ainda em construção. Tudo era só poeira ...
Na foto do Getúlio, o carro que desce no rumo do centro da cidade, levanta uma nuvenzinha de poeira. Na história que vivi, a caminhonete fugia na direção da Ceilândia e a cena era sinistra, por conta da escuridão e da poeira...
Ainda bem que eu não estava armada! Ainda bem que eu nunca aprendi a atirar...
Credo! Será que meu instinto violento foi influência dos filmes de faroeste que vi no Cine Paranoá?
Esqueci de contar que eu estava grávida, de cinco meses, do meu Pretim, meu quarto filho.
A pista irregular, a poeira e a certeza de não conseguir enxergar a placa, fizeram com que eu voltasse à razão e eu desisti da empreitada... Acompanhada da minha raiva, sentindo-me injustiçada, voltei pra casa.
Quando se é jovem, injustiça costuma ser carga enorme de suportar...
Se fosse um filme!!! Ah, se fosse um filme eu teria jogado minha linda Belina contra a caminhonete que, além de sair da estrada, teria a má sorte de cair num despenhadeiro (o lugar não tem um, mas, no filme, eu providenciaria para que tivesse), com direito a iluminar todo o cenário, quando batesse no fundo e explodisse e, de quebra, levasse minha raiva pro espaço, no meio da fumaça negra que subiria ameaçando a camada de ozônio que, naquela época, nem fazia parte das minhas preocupações...
Voltei pra casa, deixei o frango e corri pra escola, sem jantar. O horário de entrada era às 19:30 h e eu nunca fui de chegar atrasada.
Minha Belina ficou uns bons meses amassada e riscada e complexada... Professor nunca foi bem remunerado mesmo...
De afeto capturada, às vezes com sensibilidade exacerbada, sigo dançando o rebolation dos terremotos diários, tentando apagar focos de incêndio no meu habitat. Às vezes, eu mesma a incendiária... Nas horas vagas, cozinheira e, nas não vagas, mãe, avó, faxineira, revisora, poeta, conselheira, escrivã, enamorada... Na vida, em fase de testes... Meu e-mail: cleiagerin@gmail.com
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
segunda-feira, 30 de junho de 2014
MINHAS LEITURAS
Li, certa vez, que nunca devemos dizer “li tal livro!”.
Dizendo assim nós o desmerecemos. Porque fica muito de um livro em nós. E
continuamos, mesmo depois dele fechado, a saborear seus ditos...
Minha pretensão é a de marcar aqui, neste blog, leituras que
fazem parte de mim. De vez em quando, vou postar trechos das minhas
escrevinhações resultantes dessas minhas leituras.
Hoje, homenageio o Josué Montello. Esse escritor profícuo se
foi em 15 de março de 2006, aos 88 anos, depois de escrever quase (ou mais de?) 80 livros.
Ocupou a cadeira de n° 29, na Academia Brasileira de Letras. Foi eleito em
1954, aos 37 anos. O mais jovem integrante em toda a história da instituição.
De um livro que me passou pelas mãos, ficou muita lembrança
doce. O título é “Na Casa dos 40”. O livro publicado pela Livraria Martins Editora (São Paulo) não traz a data de publicação. Traz um retrato do autor, desenho feito a bico de pena, com dedicatória e a data 1962.
O autor conquistou-me cedo e fez-me
cativa da sua escrita que, como escreveu Manuel Bandeira (consta da contracapa
do livro citado) "[...] parece passada a limpo. Não há nunca, um excesso,
um desleixo."
Meu livro predileto, escrito por este talentoso autor de obra tão vasta, é “Os Tambores de São Luís”; livro considerado, pela Unesco, um dos patrimônios culturais da humanidade. Em tempos de internet, caso alguém se interesse, dá pra saber a sinopse; resenhas e as críticas sempre positivas...
Também morro de amores por “Um Rosto de Menina e outras novelas reais”. Especialmente, porque uma das novelas é ‘O Milagre’. Nem sei quantas vezes a li... Nesta novela, Josué Montello começa discorrendo sobre santos, beatos e bem-aventurados da Igreja. E cita nomes que, como faz questão de afirmar, "[...] hoje ninguém mais invoca" (MONTELLO, 1978, p. 107). E lista alguns meus conhecidos (não é de estranhar, já estou bem adiantada nos anos: no meu tempo de menina, padres rezavam a missa em latim, de costas para os fiéis), como Santa Brígida; São Godofredo; Santo Arcádio; São Juventino. E lista outros, bem estranhos, como Vivina; Nimásio; Sabas; Polixena; Feba; Tecla...
Tudo isso, com o intuito de mostrar que Santos também vivem o apogeu e, claro, o crepúsculo. Levando-nos a valorizar, ainda mais, nosso amado Santo Antônio, a quem o autor alia fama e reputação ilibada: “Nascido em Lisboa, a 15 de agosto de 1195, vai o Taumaturgo a caminho de um milênio, sem que haja diminuído no mundo a sua clientela, tão vasta que se estende por toda a cristandade” (MONTELLO, 1978, p. 108).
Mas, estou me afastando do meu objetivo (em outro momento volto a esta novela que tem Santo Antônio e Djanira como personagens principais) e dando a ideia errada de que sou uma beata que só reza. Não sou. Sou, apenasmente, muito chegada a meus santos e tenho recebido muita proteção divina na minha caminhada...
Meu livro predileto, escrito por este talentoso autor de obra tão vasta, é “Os Tambores de São Luís”; livro considerado, pela Unesco, um dos patrimônios culturais da humanidade. Em tempos de internet, caso alguém se interesse, dá pra saber a sinopse; resenhas e as críticas sempre positivas...
Também morro de amores por “Um Rosto de Menina e outras novelas reais”. Especialmente, porque uma das novelas é ‘O Milagre’. Nem sei quantas vezes a li... Nesta novela, Josué Montello começa discorrendo sobre santos, beatos e bem-aventurados da Igreja. E cita nomes que, como faz questão de afirmar, "[...] hoje ninguém mais invoca" (MONTELLO, 1978, p. 107). E lista alguns meus conhecidos (não é de estranhar, já estou bem adiantada nos anos: no meu tempo de menina, padres rezavam a missa em latim, de costas para os fiéis), como Santa Brígida; São Godofredo; Santo Arcádio; São Juventino. E lista outros, bem estranhos, como Vivina; Nimásio; Sabas; Polixena; Feba; Tecla...
Tudo isso, com o intuito de mostrar que Santos também vivem o apogeu e, claro, o crepúsculo. Levando-nos a valorizar, ainda mais, nosso amado Santo Antônio, a quem o autor alia fama e reputação ilibada: “Nascido em Lisboa, a 15 de agosto de 1195, vai o Taumaturgo a caminho de um milênio, sem que haja diminuído no mundo a sua clientela, tão vasta que se estende por toda a cristandade” (MONTELLO, 1978, p. 108).
Mas, estou me afastando do meu objetivo (em outro momento volto a esta novela que tem Santo Antônio e Djanira como personagens principais) e dando a ideia errada de que sou uma beata que só reza. Não sou. Sou, apenasmente, muito chegada a meus santos e tenho recebido muita proteção divina na minha caminhada...
No primeiro livro citado, “Na casa dos 40”, dedicado a dois amigos e à memória de Viriato
Correia, o autor escreve episódios acontecidos na Academia Brasileira de Letras.
Na sua apresentação, Montello (1962?) conta que o título foi
dado por Adelmar Tavares, na última conversa que tiveram, antes da morte deste poeta pernambucano. Josué só soube depois da morte de Adelmar que ele também
tinha a pretensão de escrever um livro assim. Resolveu, então, homenagear o saudoso amigo, atendendo-o em relação ao título. Adelmar, inclusive, tinha publicado dois
ou três capítulos referentes a esta temática, na imprensa de Pernambuco. Um desses capítulos traz um chiste
de Machado de Assis, que a minha parte leitora gosta muito.
Josué Montello conta-o, na Apresentação. Envolve um grupo de
escritores, entre os quais, Ferreira de Araújo; Sousa Bandeira; Machado de
Assis; Raul Pompeia e Capistrano de Abreu. Caso acontecido por volta de
1883-1884. Consta que estes escritores resolveram estudar alemão com um
professor que dominava a língua tão bem que “[...] ao transpor o “Dom Quixote”
para o português, preferiu deixar de lado o original castelhano e socorrer-se
de uma tradução alemã... (p.16)”.
Entusiasmado com a possibilidade de aprender o idioma,
Capistrano de Abreu sugeriu convidar também o crítico Sílvio Romero para
integrar-se à turma. O crítico tinha acabado de chegar “[...] do Recife com a
fama ruidosa de conhecer a fundo os mestres germânicos.”
Machado de Assis fez sua objeção:
“- Infelizmente o Sílvio não pode mais aprender porque
espalhou que já sabe” (p. 17).
Neste livro, são muitos os episódios assim. Esses casos
anedóticos nos permitem conhecer um pouco do que tem sido a Casa de Machado de
Assis, a partir da sua fundação.
Josué Montello conta que Afrânio Peixoto também era um
coletor de anedotários: “Estou a vê-lo, esfuziando jovialidade, na tarde em que
me fez este reparo, numa das janelas da Biblioteca Nacional:
- O Governo, no Brasil, é uma instituição destinada a criar
postos e impostos: os impostos para pagar os postos...” (p. 18).
Que bom que ele morreu sem ver que havia possibilidade de ser
pior ainda...
Muitos são os episódios com o Viriato Correia, o escritor do
livro Cazuza. Outros, com Afonso Arinos de Melo Franco. Traz ainda Afrânio
Peixoto; Getúlio, o baixinho de São Borja; Olegário Mariano; José Veríssimo;
Humberto de Campos...
Sobre a conquista de vaga, na Academia, o autor do livro em
tela nos conta que “[...[ se faz por dois processos: um, por amadurecimento
natural da candidatura e a sua aceitação pacífica pela instituição; outro pela
disputa renhida em termos de competição eleitoral” (p. 32).
Uma dessas disputas marcantes foi a da sucessão de José Lins
do Rêgo. Havia dois candidatos inscritos: Afonso Arinos e João Guimarães Rosa.
Foi um senhor embate: “Inscritos, Afonso Arinos e Guimarães Rosa, as duas
candidaturas, embora plenamente amadurecidas, dividiram, naturalmente, a
instituição, criando aquela expectativa ansiosa que agrava o silêncio da urna à
medida que se aproxima a hora da eleição” (p. 33).
O primeiro candidato, apoiado por Ribeiro Couto, saiu
vencedor. O segundo recebeu o apoio de João Neves da Fontoura. Foi quem incentivou
o Rosa a inscrever-se, entusiasmando-o durante toda a campanha. Mas, também era
admirador e amigo de Afonso Arinos e ansiava pela companhia dele na Academia...
Eleito Afonso Arinos, a vida seguiu seu curso: “O reparo de
Hamlet a Horácio, segundo o qual há muita coisa no céu e na terra que escapa à
nossa filosofia, parece que também se aplica, com o seu cabedal de mistérios
sutis, às eleições acadêmicas” (p. 33).
Quem é capaz de prever o que a vida nos reserva? Cabe-nos
somente seguir adiante, aceitando o que está posto: “João Neves da Fontoura,
que desejava para João Guimarães Rosa uma eleição por unanimidade, não chegou a
ver realizada essa aspiração: ele próprio abriria a vaga que seria preenchida,
sem um voto discordante dos acadêmicos, pelo romancista de “Grande Sertão
Veredas” (p. 33).
Deve ter sido glorioso para Guimarães Rosa o momento da sua
posse: cumpria o desejo de um amigo que o queria acolhido por unanimidade e
sabia-se simpático a todos que faziam parte daquela casa.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
MEMÓRIAS
Remexendo fundo de baú
Não tenho lembrança se a biblioteca da
UnB foi invadida à tarde, ou pela manhã. Não sei o dia e estou com preguiça de
buscar a informação correta... Eu estava com 17 anos, e cursava o segundo grau, no Ciem.
Tratava-se de uma escola onde o ensino público era praticado de um jeito diferente. E, para entrar, o aluno passava por um “vestibular”. As aulas aconteciam, com
enfoque e didática bem atípica, em dois períodos diários.
No dia da invasão, no horário do
recreio, duas colegas e eu passeávamos lá fora, na frente da escola, caminhando,
à beira do asfalto, descendo para o estacionamento, devagar, desatentas,
conversando. E eu estava do lado esquerdo da Isabel, bem perto de onde passaram
os caminhões... Caminhões que apareceram do nada. E seguiram, com firme
determinação, rumo à UnB; passando pelas curvas acentuadas da pista asfaltada
de acesso ao nosso santuário de promessas de um futuro que a magia da educação
concretizaria. O modelo dos caminhões era daqueles antigos, com bancos, na
carroceria, carregando muitos policiais fardados, e cães.
Enquanto passavam, eu levei, de graça,
uma cassetetada, no braço esquerdo. Com força. Lembro-me da dor e da
solidariedade dos colegas que comentaram muito, o incidente; no dia, e nos
próximos, enquanto durou a marca roxa...
De família pobre (meu pai tinha um
caminhão de mudanças e minha mãe era sócia em uma mercearia de porte pequeno),
meus estudos eram bancados, com sacrifício. Porque, apesar de não pagar
mensalidade, manter-me em escola, na Asa Norte, sendo moradora de Taguatinga,
onerava muito o orçamento familiar. E eu ainda fazia inglês, na Thomas
Jefferson.
Meus pais empenhavam-se – muito – para
que eu tivesse oportunidades. Se tinha uma coisa que não me preocupava, naquele
tempo, era a situação política do país!
Foi o acaso que contribuiu para que eu
estudasse ali, no Ciem. Um incidente que culminou com a expulsão de parte
expressiva de uma turma abriu a brecha para que entrássemos, fora de época. Uma
amiga, a Isabel Perna, chamou-me para fazer o “vestibular” que nos gabaritou.
Todos que fizemos as provas entramos. E isso gerou procedimentos de bullying, ao
longo de todo o nosso percurso, naquela escola que nos foi de grande valia.
Tive uma colega de classe que nunca me dirigiu a palavra, nunca respondeu a um
cumprimento meu, nunca olhou para mim... Sempre entendi a postura dela: não se
sentia bem, acolhendo quem, por WO, tomou o lugar de gente que merecia, de
verdade, estar ali...
De Taguatinga, éramos uns nove, ou dez.
A já citada Isabel Perna (foi o irmão dela, o Pedro Perna quem nos alertou para
a chance); o irmão Nonato Perna; a Liana Gonzales; a Nelize de Araújo Santos; o
Ivon Lopes; o Vicente Vives Gil... fomos os que pegamos carona e entramos na
escola de elite que tinha a nata da juventude brasiliense, no seu quadro
discente. Pela manhã, as aulas iam de 7:30h até 12h e, à tarde, de 14h às 18h.
Lá fora, no estacionamento, o movimento dos inícios e términos de turno era,
estranhamente, pontilhado de carros chapa-branca, com motoristas uniformizados,
que levavam e buscavam os filhos dos funcionários públicos do alto escalão;
sempre uma mordomia. Tínhamos como colegas de escola o Paulo Otávio, o Collor,
o Luís Estêvão e tantos, tantos mais...
Cursei Letras e Biblioteconomia, na
UnB, enquanto criei 4 filhos e trabalhei na então Fundação Educacional do DF.
Fui professora de língua portuguesa; coordenadora local e intermediária; chefe
da Seção de Bibliotecas Escolares e Comunitárias – Sebec, do DF; coordenadora
de estágio e, atualmente, trabalho como revisora de textos (tanto técnica,
quanto linguagem científica e de criação literária), em língua portuguesa.
Tenho meu nome de revisora em centenas de livros e dissertações e teses. Depois
de aposentada, cursei um mestrado em Educação.
Meu tempo de Ciem foi pesado – foram
muitas batalhas e perdi algumas. Para mim, o Ciem foi um portal que rompi, na
raça, sem mágica. Foi um tempo valioso, gratificante, emblemático e traumático.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
O CINEMA DA MINHA TERRA
Minha primeira
lembrança marcante e dileta, da primeira vez que estive num cinema, vem do filme “O Pequeno Polegar”, da Disney.
Colorido e sublime.
Colorido e sublime.
Antes dele, nada parece ter sido assim digno de ser memorizado.
Quero crer que
seja por ter crescido vendo cinema.
Nasci numa
cidade que tinha um Cine Teatro, a cidade de Ipuã, no interior do estado de São
Paulo.
A fachada desse espaço de sonhos era cheia de cartazes atrativos, anunciando “Para Breve, Novas Emoções!”.
Era tudo tão
maravilhoso!
Um mundo à
parte, onde a imaginação era a impávida e cativante jornada para o infinito.
A cada nova
experiência, mais e mais sonhos se apoderavam dos corações incautos...
Eu era feliz. E
sabia!
Eu ia à porta do
cinema, todos os dias, onde as paredes exibiam fotos de
artistas apaixonantes, nos cartazes chamativos (inicialmente, muitos filmes eram franceses; e, com o tempo, os americanos se destacavam mais), buscando
saber qual a fita da noite e a faixa etária correspondente.
Lembro-me que,
às segundas, terças e quartas, eram filmes repetidos.
Na quinta, o
filme era novo: eu ia.
Na sexta, era
filme de terror: não perdia, por nada! Quase morria de medo, depois!
No sábado, era
de amor: eu ia.
No domingo,
tinha a matinê: eu ia. À noite, nova fita: eu ia!
Depois que
completei treze anos, virei um varapau (como diziam). O fato de ter crescido tanto tinha suas vantagens e
desvantagens e eu tinha muitos complexos e muito medo de nunca parar de
crescer. Mas, o certo era que o meu tamanho me permitia, à noite, transformar-me em uma moça. Além de compor-me com
mais cuidado, acrescentava um sutiã à minha indumentária, completava o espaço dele
todo com algodão, empertigava meu manequim de Visconde de Sabugosa e via filmes
permitidos para maiores de dezoito anos! Era emocionante ver beijos na boca!
Eu tinha uma
prima querida, a Vilma Cleire Giorgiani, minha melhor amiga de infância, que
anotava, dia após dia, todos os títulos e protagonistas e diretores dos filmes
que o cinema exibia. Por volta das cinco da tarde, íamos as duas, pelas
calçadas, em direção ao nosso cinema. Ela, com um caderninho e a caneta na mão.
Eu, tagarelando... Tudo anotado, resolvíamos qual seria nosso programa noturno.
Voltávamos, cada
uma para a sua casa, jantávamos e tomávamos nosso rumo: ou íamos passar parte
da noite com os olhos grudadinhos na tela do Cine Theatro - aquele provedor de
emoções e sensações nos nossos coraçõezinhos carentes de aventuras e felicidade;
ou íamos para a praça da igreja matriz, brincar de ser feliz, ao som dos sinos
da minha terra...
sábado, 5 de abril de 2014
O TEMPO QUE VIVE EM MIM
O tempo é processo elástico
na nossa mente: estica pra frente e pra trás, a nosso bel prazer.
Quando a viagem é pelo
futuro, a experiência adquirida nestes 63 anos de vida deixa antever saldo
muito positivo. Fiz a minha parte e já entrego muitas das minhas atribuições a
meus descendentes.
E depende do que rola,
no momento, para que as viagens sejam agradáveis e produtivas.
Gosto de revisitar os
momentos de aprendizagem, mesmo os de dor, porque, à distância, eles se mostram
proveitosos: pessoas são desvendadas; o conhecimento interior vem à tona; decepções
são vistas com os olhos despidos de imediatismo...
Mas, continuam sendo decepções.
quarta-feira, 26 de março de 2014
OUTRO CONTO: ONDE MORA O AMOR
Sofia, na solidão do quarto
frio, tem os olhos fixos na página do livro que relê pela nona vez.
Mais do que o foco
narrativo, o que a encanta e prende é o estilo do autor.
Com mais de sessenta anos,
já aposentada, ela é acometida de algumas mazelas, próprias da idade. Como
agora, que sente as mãos formigando e a sensação de segurar o livro se torna
muito incômoda. Deixa a cadeira de ler e aproxima-se da escrivaninha onde apoia
o livro. A mudança, a cadeira menos cômoda, a nova posição sem segurar o livro
com as mãos trazem novo alento.
Ao recomeçar a leitura,
mergulha no último trecho:
“(...) Tinha cansado de
esperar pelo homem que ficou, pelos homens que foram embora, pelos incontáveis
homens que erraram o caminho da sua casa, confundidos pela incerteza das
cartas. Na espera, sua pele tinha enrugado, seus seios tinham murchado e se
havia apagado a brasa do coração. (...)”
A página 65 do livro Cem Anos de Solidão, de
Gabriel Garcia Marques, na sua 23ª edição, foi devorada pela leitora que seguiu
viagem e só quando se lembrou de olhar a hora de relógio foi que entendeu que
precisava parar.
Deitada, de olhos abertos e
o coração descansando em plumas, vê seus pensamentos tomados pelos personagens
e acontecimentos lidos. Ler é entrar em estado de graça... Sabe que nunca vai
ser escritora, porque o livro que ela queria ter escrito era este que relê.
Sofia teve o privilégio de
nascer em uma casa com livros. Lembra-se que desde pequena ama livros. Desde
que aprendeu a ler, nunca deixou de terminar de ler um livro que lhe caiu nas
mãos...
O primeiro dia de aula não
foi fácil; numa sala de aula cheia de menino barulhento. E a professora de nome
Lurdinha a mandou ao quadro. E ela foi, toda envergonhada e sem saber nem pra
quê! Era pra pegar um giz e virar pro quadro e escrever... Qual! Foi um susto
só! Nem ouviu o que a professora a mandava fazer... Levou um beliscão bem na
bunda! E doído que só! Envergonhada, ela soltou o giz no chão e voltou pro seu
lugar, onde ficou de cabeça baixa e vermelha igual àquela pimenta dedo-de-moça
que a mãe tem plantada na horta lá dela.
E ela ficou com muita raiva.
Raiva de si mesma! Porque apesar de perceber que o menino se aproximava - já
tinha ouvido falar que aquele menino era o Juca, filho da professora, e que ele
tinha mania de beliscar as meninas – ela não se preveniu contra. E ele beliscou
bem na bunda! Que vergonha!
Mas a vergonha e a raiva
passaram.
Também pudera, a escola era
um lugar de encantamento tão grande; lugar de aprender tanta letra e tanto
número que acabava que a menina ficava até tonta, com a cabeça tão cheia de
sinais que se juntavam e que se afastavam e que se juntavam...
_ A gema do ovo faz mal à saúde.
_ O quê, menina, você falou alguma coisa?
Fia repetiu a frase que
estava escrita no jornal. E a mãe surtou!
_ Você está lendo? Meu Deus,
essa menina está lendo!
E a família toda soube que a
menina lia igual papagaio: ela repete e fala o que está escrito, mas nem sabe o
que lê...
Chegava visita e a menina
tinha de buscar um jornal pra mostrar que sabia ler.
Mas durou pouco o entusiasmo
da mãe.
É que a Fia parecia que
vivia com a cabeça nas nuvens. Escrevia no ar.
Descobrir as letras, juntar
as letras, escrever palavras... Fia não parava! E ela rodava, rodava, rodava e,
num repente, parava, do nada, e estendia o braço, e esticava o indicador e
escrevia, e escrevia e escrevia... no ar!
A lapada na mão veio com
vontade e xingamento da mãe. Cada frase parecia um soco:
_ Menina mais
escalafobética! Cheia de mania! Te arranco o couro! Palerma! Aprendeu a
escrever e fica com essa boca aberta! Esse braço no ar! Riscando o nada! Isso,
quando não fala sozinha! Só falta babar! Escalafobética!
Fia sentiu o ardume na mão,
da lapada! Correu pro quarto, pra chorar. Com muita raiva! Raiva de si mesma! Afinal,
a mãe já tinha corrigido, já tinha prometido surra, já tinha comentado com o
pai (e ela ouviu!) essa menina parece palerma; fica escrevendo no ar. Na
próxima vez, vou lascar a mão nela.
Com o pai a mãe falava
macio, contando, parecia que tinha dó dela; mesmo com raiva...
E ela parou? Parou. Depois
da lapada e do choro.
Quando não estava na escola,
Fia ficava no quintal. Com as árvores. Falava com as árvores. Abraçava, com
seus bracinhos magrinhos, o tronco do pé de manga sabina; a goiabeira; o pé de
caju. Sozinha, cantava música da igreja que aprendia na missa rezada em latim:
“Ave Maria, gratia plena, dominus tecum, Benedicta Tu...” Música do parque que
tinha chegado na cidade e tinha um alto-falante que tocava, na maior altura,
aquele som que cutucava os ossos e arrepiava os cabelinhos do braço: “Tornei-me
um ébrio e na bebida...” Subia nas árvores e ficava pendurada, de cabeça pra
baixo...
Alegria mesmo, quase tão
grande quanto a de aprender a ler, foi quando a professora contou que não podia
ficar estragando papel; que papel custava caro; que papel era feito de árvore!
Fia nem acreditou!
Já tinha sete anos essa
abraçadora de árvores que nem tinha conhecimento de coisa assim tão importante!
A página 65 do livro
predileto traz a narração das preliminares do sexo praticado por Aureliano e
Pilar Ternera. Satisfeita a ansiedade da carne, ela entende que ele a procurou,
mas, em seus devaneios de prazer, era uma outra quem ele tinha nos braços,
entranhada na sua alma e no seu gozo. Pilar pergunta e ele responde: Remedios!
E Pilar Ternera o ajuda a abrir as portas da felicidade. E Aureliano e Remedios se casam.
Sofia virou uma devoradora
de livros.
O autor de cada livro é a
Pilar Ternera que abre todas as portas.
Sofia costuma encostar, no
peito, o livro aberto, como se o abraçasse, sempre que alguma parte lida a faz
flutuar. Sempre que os acontecimentos todos – somatizados - são sintetizados
num momento de estupor que a paralisa...
O livro da vez e ela, em
simbiose, voltados para o sentir.
Depois que aprendeu a morar
nos livros, Sofia ainda estudava, ainda sonhava, namorou, viu filmes, viu TV,
casou-se, teve filhos, teve netos, envelheceu...
Não foi de pedrinhas de
brilhantes o chão que ela pisou.
Foi de devaneios e prazeres
o chão que ela desenhou, sempre que sobrava tempo e ela mergulhava nos
brilhantes dos livros e dos personagens todos que moram nas histórias e
misturam a realidade e a ficção.
As pessoas se perdem na
caminhada.
Mas os livros, as
personagens e peripécias não.
Ao acordar, na manhã daquele
novo dia, o livro da releitura a olhava da escrivaninha.
Ela se lembrou do dia que
esperava a filha voltar de uma viagem, no aeroporto de Brasília, e viu uma moça
sentadinha, encolhidinha de frio – chovia muito e era verão! - lendo o Cem Anos
do Garcia Marques. Sofia se aproximou e perguntou se era a primeira vez que ela
o lia. Com olhinhos de encantamento, a moça que esperava o voo para Palmas, a
capital do Tocantins, disse que sim, que estava adorando, que não conseguia
parar de ler... Sofia contou que já o tinha lido muitas vezes e que morria de
inveja de quem o lia pela primeira vez... A mocinha se despediu dizendo que
tinha certeza que também o leria muitas vezes.
Sofia deixou a cama,
carregando um sorriso, e foi lidar com as horas do dia que a mantinham no chão,
com a certeza que o livro a esperaria e abriria o caminho das nuvens quando ela
precisasse voar...
Sítio
Rosa Mística, janeiro de 2014
sábado, 1 de março de 2014
O PÃO-DE-MEL
A tia Carminha é craque na
sobremesa! Nota MIL! Rainha dos cupcakes, dos bolos confeitados, dos doces
variados, manjares, docim de festa, brigadeirão...
Um crime de lesa-silhueta!
No domingo passado, a
surpresa foi um pão-de-mel!
Que maravilha!
Acabado o almoço e revelada
a surpresa, todos se posicionaram em torno do tesouro.
Enquanto a delícia era
saboreada, meus hóspedes, uns saguizinhos, apareceram à janela da cozinha. No horário de sempre!
São adestrados, há umas 20 gerações, a pedir comida assim, na janela. Nunca
entraram: eles têm o lugarzinho certo pra serem servidos. Antigamente, eram: bolo de fubá; gelatina e geleia de mocotó. Agora, estão recebendo apenas doses
diárias de geleia. E, de vez em quando, se a vó estiver disposta, tem bolo. A Giovanna ficou com dó, quando
me viu contando pros danadinhos que só tinha geleia, porque o vô tinha comido o
último pedaço de bolo, no café da manhã, e sugeriu, inocentemente:
- Dá um pedaço de
pão-de-mel.
Quase apanhou! Onde já se
viu? Se macaco sabe apreciar quitutes assim elaborados...
Pois a vó aprovou e
consentiu. E ela contrariou a maioria e foi lá e pôs um pedaço bem
pequenininho. Eles cheiraram e nem experimentaram! Pode?
Foram muitas as conjeturas,
levantadas pelos observadores da natureza, que continuavam à volta do
bolo/pão-de-mel/manjar de deuses: é engordante, eles preferiram evitar;
escutaram que nós achamos que não eram merecedores e esnobaram a turma; não
comem o que vão ver uma vez a cada 15 anos; já comeram por aí e pela aparência,
acham que é do mesmo...
Pois é, tia Cármen, fique
sabendo que a turminha aprovou.
Apesar dos pequenos terem
detonado a gelatina colorida (com direito a leite “começado” por cima).
Só um pedido: quando fizer o
pão-de-mel, não faça surpresa!
Ou traga num dia de sol,
quando a meninada gasta energia na piscina.
Mais um domingo de menino
pulando, gritando, brigando, tocando o terror dentro de casa e a casa cai, ou
muitos de nós vamos pedir asilo noutra praça...
De todo jeito, tia querida e paparicadora da meninada, valeu, e muito!, passar uns perrengues saboreando a iguaria.
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