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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

UM CONTO: NÃO É FÁCIL SER GENTE

É sábado. Diana e Samuel encontram-se ocupados, atendendo clientes, no petshop que montaram há um ano. Ainda não se acostumaram à barulheira e movimento, na seção onde são lavados os cachorros. É uma loja de trabalho constante e, por enquanto, os resultados financeiros não são satisfatórios. Não conseguem esquecer que, na semana seguinte, serão muitos os boletos a vencer. Eles precisam fazer dinheiro naquele específico dia. Os serviços de banho e tosa têm, infelizmente, os preços tabelados, muito por baixo. Tabelados em função da concorrência, que é muita. Mas é o serviço que atrai o cliente que, além de deixar o bichinho pra tomar banho, leva a ração, uma latinha de carne processada, leva uma roupinha, um ossinho artificial, carrapaticida, coleira anti-pulgas...
Além do casal, trabalham, na loja, a tosadora e dois ajudantes. E um responsável técnico. No caso, uma veterinária, a doutora Yara. Ela assina a loja e atua preventiva e curativamente, dando assistência em domicílio, aos animais que utilizam serviços daquele petshop.
Ela havia acabado de chegar de uma consulta, quando soube que tinha acontecido uma tragédia. Uma cachorrinha cocker-spaniel tinha conseguido fugir da gaiola onde esperava sua hora de beleza e tinha vazado rua abaixo. O Daniel, um dos ajudantes da tosadora, saiu em disparada atrás da danadinha e ela, felizmente, estava a salvo, novamente, na gaiola. Só que, quando conseguiu fugir, a cachorrinha não estava só. Tinha também um yorkshire que, depois do fuzuê, não conseguiam localizar. Muito pequeno, saiu sem que ninguém o visse.
No mesmo edifício onde fica a loja, no quarto andar, Meire acabou de tomar banho e vestiu-se para descer e buscar seu cachorrinho, no petshop que fica no térreo. O nominho dele é Ramush e foi presente de casamento do marido. Tem sido um alento esse amiguinho feliz. Sem ele, Meire ficaria só, nas noites de plantão do marido, que é médico-residente, no maior hospital público de Taguatinga.
Ramush é zero, uma pelotinha de pêlos, orelhinhas apontando pra cima, atento, engraçadinho, com um andarzinho que imita o trotear de uma miniatura da miniatura da miniatura de um cavalo mangalarga marchador. Está sempre por perto. Perto dela, quando estão só os dois. Perto do Édson, o marido, quando ele se encontra de folga, e Ramush tem de optar pelo preferido. Mas essa preferência não provoca ciúme. Pelo contrário. Meire também é apaixonada pelo marido e acha a escolha muito justa.
Naquele final de semana, Édson estava de plantão e Meire desceu com o Ramush, para dar umas voltas pela quadra e, antes de voltar pra casa, resolveu deixá-lo no petshop; a loja à direita da portaria do seu edifício, para tomar um banho caprichado. Assim que o deixou, já sentiu uma pontadinha no coração, com dó do bichinho, por causa da muvuca que ouviu lá dentro. A sala de banhos, no sábado, fica cheia de cachorros de todas as raças e tamanhos, numa barulheira danada, todos latindo freneticamente, reclamando por estarem presos, ou por conta do que sabem que vão passar.
  Assim que chegou ao térreo, já na entrada da loja, Meire soube que Ramush estava sumido. Com o coração sobressaltado, sem conseguir conter as lágrimas, ligou para o marido. O hospital fica a oito quadras dali. Ele gastou uns dez minutos pra chegar e trouxe com ele o corpinho sem vida do Ramush, que ele recolheu no caminho. Ramush tinha sido atropelado e o Édson o encontrou estendido, encostado ao meio-fio. Tinha morrido na hora, conforme informou um menininho da casa em frente ao acontecido.
Quem nunca teve um bichinho de estimação, nem viveu a cumplicidade de olhares e entendimentos telepáticos na interação com ele, nunca vai entender a dor do casal órfão do Ramush.
Foi um chororô só. De um lado, Meire e Édson, que se abraçavam, sem acreditar na perda irreparável, pensando na dor do cachorrinho quando se viu perdido na rua, sem o zelo e cuidado dos seus donos... Do outro, Diana e Samuel, que sofriam vendo o sofrimento do casal, e não conseguiam afastar o pensamento que direcionava para o prejuízo financeiro que significava essa morte...
A veterinária apossou-se do corpinho e entrou com ele no seu consultório, envolvendo-o com um jaleco branco que estava sobre sua cadeira, tentando amenizar o impacto da cena. Também porque a expressão de dor estampada no rostinho do Ramush incomodava muito. Evidenciava que os momentos finais tinham sido terríveis. Meire e Édson a acompanharam até o consultório, chorando desesperadamente, e acalmaram-se à proporção que entendiam que tinha sido uma fatalidade. Yara propôs formolizar o corpinho e, depois então, entrar em contato com eles para saber a decisão sobre o que fazer em seguida. E sugeriu cremação. Meire não aceitou. Chorando, disse que queria ter um lugar para visitar e homenagear a lembrança do amiguinho, mesmo que filho.
O resto do sábado foi de consternação e tristeza.
Na segunda, de manhãzinha, um jornal de TV local armou o maior espalhafato, com o tema. A Meire e o Édson apareceram na tela, muito tristes e chorosos, e mal conseguiram falar. A reportagem mostrou a fachada da loja e entrevistou alguns passantes que acharam uma irresponsabilidade; um absurdo que o dono da loja não cumpriu seu papel e provocou tamanha perda; que esse tipo de coisa devia ter lei pra punir responsáveis... Um verdadeiro massacre moral, contra os donos do petshop. Devia estar faltando assunto mais cabeludo, no universo televisivo. Se bem que noticiário com animais maltratados, ou desrespeitados, tem dado bastante pontuação de audiência, ultimamente.
Com isso, ficou difícil o diálogo entre os casais. E foi preciso contratar alguém para intermediar as negociações. Diana e Samuel estavam parecendo dois zumbis. Dormir era o que menos tinham feito, desde a tragédia do sábado. Tanta coisa pra decidir e deixar esse assunto no passado. Por exemplo, o corpo formolizado só aguenta sete dias até ser sepultado. Era pra cremar? Era pra enterrar? A torcida era para que autorizassem incinerar. Seria uma solução e tanto. Porque a cremação ficaria em oitocentos reais! Esta capital federal tem cada coisa! Só conta com um crematório e ele opera com preços abusivos. Onde já se viu, oitocentos reais pra fazer de um cachorrinho de menos de um quilo um punhadinho de cinzas? Qual!
A veterinária tomou a frente e foi à casa da enlutada. Conversou, conversou, não chegou a consenso algum e saiu amargurada, depois de ver o sofrimento do casal. Nada os consolava. O ponto alto da saia justa tinha sido durante a proposta de substituir o Ramush por um outro yorkshire. Nem pensar!
 Ramush foi posto no congelador da geladeira de uma clínica veterinária em Águas Claras e ficou suspenso o desenrolar do possível enterro. Veio outro final de semana. A notícia então foi veiculada em jornal impresso. Fotos do Ramush, todo feliz, no colo da dona, a Meire. Foto da Meire bem abatida, ao lado do marido, cabisbaixo. Foto da fachada da loja e parágrafos e parágrafos sobre a tragédia e o descaso dos donos da loja que nem recolheram o corpinho no local do atropelamento, na hora do acontecimento drástico: um desrespeito aos sentimentos dos donos!
Na terça, um advogado, contratado pela Diana e o Samuel, foi à casa dos enlutados. O casal propôs as exigências para um acordo: as cinzas do Ramush numa urna dourada; um outro cachorrinho da mesma raça e idade; a responsabilização pelas vacinas e atendimentos veterinários enquanto este vivesse. O advogado entendeu ser um acordo justo.
Assim que redigiu o acordo, tendo o cuidado de estipular um prazo de trinta dias para que a firma cumprisse as cláusulas estipuladas, o advogado voltou ao apartamento da Meire e do Édson, para que o assinassem. Deu-se por satisfeito. As partes pareciam satisfeitas. Mais uma vez, o bom senso tinha prevalecido e as pessoas mostraram que o combinado nunca é caro.
Qual não foi a surpresa do doutor quando, três meses depois, encontrou-se com a Meire e o Édson em um hipermercado de Taguatinga e soube que nada do que tinha sido acordado, na ocasião, tinha sido cumprido.
_ No final de semana que sucedeu à assinatura do acordo, a Diana e o Samuel fizeram a mudança, na madrugada. A loja ficou fechada um bom tempo. Lá, no momento, funciona um salão de beleza, disse o Édson.
A Meire acrescentou:
_ Soubemos que a firma era registrada em nome de um laranja. Nem pensamos em procurar o doutor. Sabíamos que era causa perdida. Aí, descobri que estou grávida e resolvi esquecer toda essa história. Afinal, cachorro e criança pequena não combinam, não é mesmo, doutor? 
                                     Sítio Rosa Mística, 9 de agosto de 2011

sábado, 1 de fevereiro de 2014

MEU POTE DE ÁGUA

Em 1998, em visita à casa da minha prima Idalma Tazinaffo, em Orizona, GO, fiquei de boca aberta quando ela me disse:
- Quer beber água do pote que era da Nona Rosa?
Foi uma emoção incrível voltar a beber a água geladinha daquele pote que tinha ficado esquecido na minha infância. 
Adorei saber que ele ainda estava inteiro, tinha utilidade e era cuidado com o mesmo zelo.
A herdeira do pote é filha do meu saudoso tio Arlindo Tazinaffo, um dos filhos da Nona.
Quando contei pra prima Diomar Móris, filha da saudosa tia Arlinda Tazinaffo (outra filha da Nona) que eu tinha bebido água daquele pote da minha infância, na casa da Idalma, ela ficou com os olhinhos marejados de emoção e disse: "Num fala! Então ainda tem o pote da Nona? Eu gostava de ver..."
E acrescentou: "Então... se você gosta tanto assim de pote, vou dar o que foi da minha mãe pra você. Ele tá jogado num quartinho, lá no quintal..."
E foi assim que me tornei a feliz possuidora do pote que pertenceu à família da minha querida tia Arlinda Tazinaffo.
Na primeira oportunidade, fui a Ipuã buscá-lo.
Ele fica na minha sala.
Claro que não ponho água nele: tenho medo de quebrá-lo!
Ele é lisinho e frio. 
E é meu!
E eu gosto muito da sensação de olhar pra ele. 
A sobrevivência dele já driblou, no mínimo, 85 anos.
 Minha prima Diomar é um arquivo vivo e adoro ouvir as histórias que ela conta sobre nossos antepassados. 
Foi ela quem me contou a história da soda cáustica e o motivo da casa da Nona ser sempre tão limpinha... 
Ela sabe (e já me falou, mas não me lembro) o nome do senhor que fez o pote comprado pelo pai dela.
Por conta dessa informação, meu pai que tem 87 anos fez os cálculos e chegou àquele número.
Na foto, o pote parece um pote comum...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O TRONO

O TRONO
                                                          
Cléia Gerin

A casa da Nona Rosa

A menina cresceu se aventurando pelas ruas da sua cidade natal, visitando parentes e pessoas distribuídas pelos cantos todos daquela pequena aldeia que misturava, num mesmo bem querer, conhecidos, amigos e familiares.
A casa predileta, quando ela começou a fazer o percurso na bicicleta que herdou do irmão mais velho, era a da Nona Rosa.
Era lugar acolhedor, feita de tijolinho maciço, nas paredes e no piso que era alvo e limpo, porque era lavado com soda cáustica, tijolo por tijolo, duas vezes na semana. A tarefa cabia a algumas das netas mais velhas, que se revezavam na limpeza e no cuidado com os velhinhos que criaram nove filhos e moravam sozinhos.
Na entrada, um pequeno hall, com acesso, à esquerda, para o quarto do casal e, em linha reta, para uma sala comprida, onde se viam as portas de mais dois quartos, também à esquerda. Num dos cantos, o pote de água. Detalhe: feito de barro e queimado em forno exageradamente quente, como era comum naquele tempo, era o que mais atraía a menina àquela casa!
Ela chegava, pedia a bênção, toda suada pelo esforço da subida e do exercício do pedal, dirigia-se ao pote e era servida, pela cuidadosa velhinha. Zelosa pela higiene da água nele contida, a Nona mantinha um prato de alumínio sobre esse pote tão limpinho, usando o prato como tampa e bandeja. No prato, descansavam dois copos, também de alumínio: um para retirar a água de beber e outro que podia ser levado à boca. À distância, a lembrança nítida se funde a uma mais recente: a menina, agora avó, reviu o pote, em uma cidade de Goiás, bem cuidado, na casa de uma neta da Nona. Terá sido a labuta de lavar a casa da Nona, sistematicamente, por anos a fio, com soda cáustica, o critério para que a relíquia fosse destinada, como herança, exatamente àquela específica neta? 
Uns passos mais e aparecia a cozinha, com seu fogão de lenha; uma mesa de dois lugares, para as refeições; e uma pia pequena com torneira. Uma das portas levava à despensa. Outra porta dava acesso ao quintal, e, lá fora, do lado direito, encostado à parede da cozinha, ficava um jirau com uma bacia esmaltada, usada para lavar roupas e vasilhas maiores e mais difíceis. Destacava-se, bem perto, a cisterna.
Do lado esquerdo, ficava a casinha das primeiras necessidades...
Afastada, estrategicamente, a casinha de madeira tinha, dentro dela, bem no meio do cômodo quadradinho, um trono, também de madeira: um caixote grande, sem encosto, com um buraco, de utilidade óbvia, em cima dele, quase no meio. Sempre limpos e revestidos de jornal, tanto o trono, quanto o chão, ao redor dele. Característica estranha, considerando que poucos desperdiçavam jornais, nos idos de 1957. Esse trono-caixote tinha a altura apropriada para uma pessoa adulta sentar-se e fazer suas necessidades, confortavelmente.
A Nona morava em uma casa de esquina, caiada de branco, com a porta da sala voltada para a rua Carlos Fernandes. Um jardinzinho de flores singelas ficava entre a porta da frente e o murinho baixo. Murinho dividido em dois, com passagem, no meio.
Do lado direito, entre a casa e a rua transversal, ficava um pedaço do quintal, cercado de muro baixo, que permitia aos passantes divisarem uma hortinha bem cuidada, um pé de romã e duas janelas, sempre abertas: uma na sala e outra na cozinha. 
A menina costumava chegar pela lateral da casa, ainda na rua Campos Sales, para entrar pelo quintal, onde deixava sua bicicleta.
Olhando por cima do muro lateral, quando as janelas se encontravam abertas, era possível ver a Nona, aquela senhora séria, alta e exigente, sempre lidando; ora cuidando dos afazeres domésticos, ora fazendo rendinhas de crochê; mimos que ela distribuía nos aniversários das netas e bisnetas. Eram quatro metros de rendinha, para cada uma, a serem utilizadas como enfeite nas calcinhas que, naquele tempo, eram feitas de saco de algodão alvejado.
Cercando e protegendo o quintal do fundo, o muro continuava paralelo àquela rua transversal, a Campos Sales, a que dá acesso à entrada do Campo de Futebol, na pequena Ipuã, que era, então, uma cidadezinha de poucos habitantes e poucas casas.
Quando o pé de romã estava carregado, era feita a previsão do dia propício pra buscar a fruta madura, antecipadamente destinada, que a Nona determinava ser de cada merecedor. Na véspera do dia marcado, chegava o recado: "A Nona pediu pra você ir lá amanhã, buscar sua romã". 

A Nona

A Nona e o Nono se conheceram jovens, cheios de sonhos, casaram-se, viveram seus percalços, criaram seus filhos, e viram as gerações futuras chegar...
Comportaram-se de acordo com o que o destino teceu, nas urdiduras do tempo, até serem sepultados, cada um a seu tempo, no cemitério de Ipuã, onde esparramaram suas raízes.
A menina sabia bem que a Nona era muito brava; ouvia muitos casos sobre o jeito sério como essa senhora entendia a vida. Como as pessoas diziam, naquele tempo, o Nono cortava um doze com ela... 
O Cine Theatro Ipuã tinha sido construído e o povo se empolgava com a novidade. O Nono a convidou para irem ver uma fita. Qual!, disse a Nona, mas não vou nunca gastar dinheiro por nada! Ele se calou. Fazer o quê? Sabia que não a convenceria. Ainda mais que ela andava chateada, porque queria colocar chapa e o dinheiro andava curto.
E teve um dia que escureceu e o Nono demorou muito pra voltar pra casa. Fato incomum... Cidade pequena, todos sabiam da vida de todos, mas ninguém tinha visto o Nono. Eram tantas casas pra visitar; de filhos, de netos já casados; havia de ter ficado pra jantar em alguma casa; ele estava por ali mesmo, diziam...
Naquele tempo, era incomum carregar dinheiro, ou carteira. As pessoas andavam com uns trocados, no bolso, para o pão, umas balinhas, porque tudo era comprado no armazém e era marcado na caderneta. No dia de pagar, pegava-se o dinheiro que ficava guardado em caixa de papelão, dentro do guarda-roupa, e quitava-se a dívida. Assim, era fácil pra Nona saber a quantia que o Nono carregava, no bolso. Quando o Nono chegou e não deu explicações, resmungando que nem tinha saído dali de perto, ela ficou enfurecida, mas calou-se. Esperou que ele dormisse e, sem ele perceber, foi direto ao bolso e contou o dinheiro, comprovando que faltavam alguns réis. No dia seguinte, perguntou, então, para um dos netos:
- Quanto custa pra ir naquela casa de pouca-vergonha, a cinema?
E a resposta foi, justamente, o equivalente ao que faltava no bolso do Nono; o suficiente para ela ver comprovada a certeza do descaramento dele!
Constrangido pelo mau exemplo, depois de ver a Nona alardear, aos quatro ventos e em ritmo de tempestade, sua conduta de desrespeito, o Nono se arrependeu: pra tanta briga e cara feia, tão pouco proveito!
A Nona já tinha passado muita coisa nesta vida! Até filha casada e mãe de dois filhos ela viu sofrer de câncer, sem recursos, sem remédio, sem assistência, até morrer.
Quando os pais da Nona decidiram mudar para o Brasil, escolheram o Rio Grande do Sul. Foi onde ela nasceu. Mas a mãe não se adaptou e voltaram para a Itália. Vieram em quatro e, ao retornar, eram cinco: o casal e três mocinhas. Lá na Itália, a vida continuava dura, e a mãe da Nona trabalhava na rua, vendendo carvão, empurrando um carrinho, pra ajudar no sustento de casa. Num dia muito triste, a mãe sofreu um acidente e faleceu. O pai das três mocinhas voltou, então, para o Brasil e, desta última e definitiva vez, construiu seu futuro no estado de São Paulo, em Batatais. As outras duas irmãs da Nona viveram e morreram nessa cidade.

O aniversário e a discórdia

Gente é bicho que precisa passar por muito aprendizado.
Por mais que o vivente aprende, mais e mais é preciso botar tento no que ele faz, para que a sequência não seja eterna tentativa de superação da própria pequenez.
O ser humano tem, dentro de si, algumas certezas e, quando ele quer, ele aprende a lidar com elas.
Uma delas é que a pequenez de um ato seu pode ser marca eterna na vida de outras pessoas.
Outra, é que o prazo de validade vai-se extinguindo, em direção à morte; peso que se carrega no peito e na alma, a partir da chegada do entendimento do que é a vida.
Neste meio tempo, ele precisa apreender e treinar a tolerância.
Só o entendimento dá margem a um coração aberto ao perdão.
Na lembrança mais remota da menina, numa reunião comemorativa do aniversário do Nono, ela sofreu a primeira injustiça, marcadamente traumatizante, na sua vidinha de apenas seis aninhos de falta de experiência.
O Nono morreu logo depois, um mês e poucos dias depois, e a menina dedicou um bom período e muito treinamento para conseguir perdoá-lo...
Aconteceu que, no aniversário do Nono, no ano de 1957, os pais da menina foram à casa da esquina, cumprimentá-lo pela data. Passava um pouco dos 80 anos, esse senhor empertigado e muito simpático, que ainda jogava bocha, pelo menos uma vez por semana.
A Nona abriu a porta da sala, sorrindo, e fez o mesmo comentário de sempre sobre as flores de cor branca e lilás; que ela cultivava e enfeitavam o jardinzinho:
- Já contei que essas flor chama peido-de-veia?

O Nono era um italianão bravo e esta senhora que compartilhava sua história entrelaçada à dele respeitava seus rompantes. Toda a família respeitava. Ele era figura querida e bom contador de casos. Antes de envelhecer, era um mascate: ganhou a vida vendendo produtos de armazém, nas fazendas das redondezas.
O aniversário dele, naquele ano de 57, caiu num dia de semana. Durante todo o dia, muitos passaram pela casa e cumprimentaram aquele senhor alto, de vozeirão e sotaque marcantes, e cabeça branca.
Passado tanto tempo, a menina não se lembra de detalhes sobre pessoas, assuntos, comida... Gente grande conversava, criança brincava, fazendo algazarra e correndo, fazendo a volta, pela sala e quintal, numa gritaria alegre, empolgada e sem fim!
Adiantava-se a hora, muito além do que os velhos costumavam esperar para recolherem-se, encerrando o dia.
A meninada mantinha-se com a corda toda; todas as crianças numa farra interminável, numa energia enervante, dando voltas e mais voltas...
E os adultos tentando conversar.
E nem durava um minuto pra volta ser dada e, da porta da frente da casa, surgiam os gritos que cutucavam os nervos daqueles adultos que se encontravam naquela sala onde, normalmente, só ficavam cadeiras dispostas nas paredes laterais.
A menina era uma das encapetadas criaturinhas: magrelinha, estabanada, de voz estridente... Destacava-se das outras crianças, naquela correria incessante, da sala para a cozinha, para o quintal, aparecendo, novamente, com o coração quase saindo pela boca, suando. 
De repente, alguém a pegou pelo braço, com força, num tranco só, sacudindo-a, fazendo-a sentir-se um saco de ossos...
De olhos arregalados; coração descompassado; a menina, paralisada, tremia...
Bem alto, ouviu-se uma voz, cuspindo irritação:
- Dio mio! Ma che! parece que essa criança tem bicho carpinteiro no cu!
Seguiu-se um silêncio sem cor e então, muito riso alto e palavras soltas, quando todos entenderam que o Nono tinha perdido a paciência...
Aquela última palavra concreta chocou a menina.
De suada e vermelha, ela ficou amarela: de susto e medo!
Sentiu-se envergonhada, quando olhou para o pai impotente que não a acudiu: era um tempo de muito respeito aos mais velhos.
No coração da menina entrou um ódio pecaminoso e devorador que pareceu incêndio devastando o respeito que devotara, até ali, ao Nono...
A menina não o viu mais.
Veio o período de férias e o pai a levou pra Ribeirão Preto, para passar uma semana na casa da tia Luísa e do tio Caetano, dois tios queridos que moravam na esquina do Bosque daquela cidade.
Quando o pai a buscou, no final dos dias maravilhosos de peripécias e carinho recebidos naquela casa onde morava a alegria, o pai contou que o Nono tinha morrido, vítima de um mal que parou o coração lá dele.
E que foi a Nona quem o encontrou, lá, na casinha...
A Nona estranhou tanta demora, foi até a casinha, e lá estava ele, sentadinho no trono:
- Parecia que dormia, o poveretto!



          Sítio Rosa Mística, 19 de outubro de 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ENQUANTO: UM POEMA



                          Esta poesia 
               foi escrita para ser exposta em evento de incentivo à leitura. 
                                   No Dia Nacional da Árvore. 
                    No Rio de Janeiro. 
                                                   Não fez parte de competição. 
           Todas as enviadas 
                    foram impressas e presas às árvores
                                                              de uma praça da cidade...
      De modo a serem visualizadas e lidas, com facilidade.

Enquanto

"Quando em meu peito rebentar-se a fibra,"
minhas flores caiam ao léu
e que o tempo
esparrame pelo chão
minhas folhas murchas
em desenhados gravetos.
Que minhas raízes de pedra
amarras da ilusão cativa
da minha mente
à flor do chão desvalidas
desfaçam-se
enquanto
"Ao longe, o vento vai falando em mim..."
enquanto
o tronco
de tráfego incessante
da minha seiva e sangue
"... jaz morto e apodrece..."
inerte.
O porvir seja
exuberante júbilo
no etéreo fluir
da minha alma
pois me foi dado
"... rir meu riso e derramar meu pranto..."
na natureza festiva

do meu ser natureza.

- 2013 –

     Os versos entre aspas são de outras poesias. Poesias marcantes. 
     O primeiro é de Lembrança de Morrer, de Álvares de Azevedo. 
     O segundo, d'O Quarto Motivo da Rosa, da Cecília Meireles. 

    O terceiro, de O Menino de Sua Mãe, do Fernando Pessoa.
                   E o último, do Poema de Natal, do Vinícius de Morais.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

AI QUE RICA!

Esta foto foi tirada em 1921 ou 22, em Ipuã, no interior de São Paulo. Ela nos foi dada por um tio, irmão mais velho do meu pai, o Antônio (o Tonico) Gerin.
No centro da foto está um casal idoso: o Nono Antônio Gerin e a Nona Amália Peressin Gerin (meus bisavós). Atrás deles, a única filha, a mocinha de branco, a tia Maria Gerin. Do lado direito do Nono, está minha avó Ernesta Tazinafo Gerin, com meu tio Anésio (o primeiro filho; ele morreu afogado aos três anos), no colo; e, ao lado direito dela, em pé, o tio Antônio Hermes Gerin. Atrás desse tio, meu avô João Gerin. Do lado esquerdo do meu avô, o tio Pedro Gerin.
Agora, as pessoas do lado esquerdo da Nona Amália: sentada, a tia Aninha, casada com o tio Rodolfo Gerin. No colo da tia Aninha, uma criança que meu pai, o Ézio Gerin (que não está na foto, pois nasceu em março de 1926), não sabe dizer o nome e, encostado no braço esquerdo da tia Aninha, o tio Júlio Gerin. 
Portanto, a Nona e o Nono tiveram seis filhos. Desses, três deles se casaram com três irmãs de sobrenome Tazinafo: o João e a Ernesta (meus avós); o Antônio e a Aristida; e o Júlio e a Adelina. 
Linda foto de um tempo que passou e resultou em tantas histórias; em tantos descendentes... O legado desse povo simples, ordeiro, honesto, trabalhador, de fé, de devoção e de amor à vida está nas nossas mãos! Que saibamos honrá-los, com muita responsabilidade! Que Deus nos ajude! Amém! 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS

A ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS
Já conhecia a oração dos cinco dedos? É muito famosa.
E o seu autor é o Papa Francisco, no tempo em que era bispo na Argentina. 
Lindíssima!
1 .DEDO POLEGAR: O dedo polegar é aquele que está mais próximo de ti.
Assim, começa a rezar por aqueles que estão mais unidos a ti.
São aqueles que mais facilmente recordamos.
Rezar pelos que amamos é uma "tarefa doce".
2. DEDO INDICADOR: O próximo dedo é o indicador: reza pelos que ensinam, instruem e curam. Para conduzirem os outros na direcção correcta, eles necessitam de apoio. Mantém-nos presentes na tua oração.
3. DEDO MÉDIO: O dedo seguinte é o mais alto: faz-nos recordar os nossos líderes, os governantes, aqueles que detêm a autoridade. Eles necessitam da direcção divina.
4. DEDO ANELAR: O próximo dedo é o do anel. Surpreendentemente, este é o nosso dedo mais débil. Lembra-nos o dever de rezarmos pelos fracos, doentes ou atormentados pelos problemas. Eles precisam das tuas orações.
5. DEDO PEQUENO: Finalmente, temos o dedo pequeno, o mais pequeno de todos. O mindinho deveria fazer-te recordar que deves rezar por ti mesmo. Depois de teres rezado pelos outros quatro grupos de pessoas, então as tuas próprias necessidades aparecerão numa perspectiva correcta e estarás preparado para rezar por ti mesmo, de modo mais adequado.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sobre a morte e o morrer

Sobre a morte e o morrer
Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.

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