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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O TRONO

O TRONO
                                                          
Cléia Gerin

A casa da Nona Rosa

A menina cresceu se aventurando pelas ruas da sua cidade natal, visitando parentes e pessoas distribuídas pelos cantos todos daquela pequena aldeia que misturava, num mesmo bem querer, conhecidos, amigos e familiares.
A casa predileta, quando ela começou a fazer o percurso na bicicleta que herdou do irmão mais velho, era a da Nona Rosa.
Era lugar acolhedor, feita de tijolinho maciço, nas paredes e no piso que era alvo e limpo, porque era lavado com soda cáustica, tijolo por tijolo, duas vezes na semana. A tarefa cabia a algumas das netas mais velhas, que se revezavam na limpeza e no cuidado com os velhinhos que criaram nove filhos e moravam sozinhos.
Na entrada, um pequeno hall, com acesso, à esquerda, para o quarto do casal e, em linha reta, para uma sala comprida, onde se viam as portas de mais dois quartos, também à esquerda. Num dos cantos, o pote de água. Detalhe: feito de barro e queimado em forno exageradamente quente, como era comum naquele tempo, era o que mais atraía a menina àquela casa!
Ela chegava, pedia a bênção, toda suada pelo esforço da subida e do exercício do pedal, dirigia-se ao pote e era servida, pela cuidadosa velhinha. Zelosa pela higiene da água nele contida, a Nona mantinha um prato de alumínio sobre esse pote tão limpinho, usando o prato como tampa e bandeja. No prato, descansavam dois copos, também de alumínio: um para retirar a água de beber e outro que podia ser levado à boca. À distância, a lembrança nítida se funde a uma mais recente: a menina, agora avó, reviu o pote, em uma cidade de Goiás, bem cuidado, na casa de uma neta da Nona. Terá sido a labuta de lavar a casa da Nona, sistematicamente, por anos a fio, com soda cáustica, o critério para que a relíquia fosse destinada, como herança, exatamente àquela específica neta? 
Uns passos mais e aparecia a cozinha, com seu fogão de lenha; uma mesa de dois lugares, para as refeições; e uma pia pequena com torneira. Uma das portas levava à despensa. Outra porta dava acesso ao quintal, e, lá fora, do lado direito, encostado à parede da cozinha, ficava um jirau com uma bacia esmaltada, usada para lavar roupas e vasilhas maiores e mais difíceis. Destacava-se, bem perto, a cisterna.
Do lado esquerdo, ficava a casinha das primeiras necessidades...
Afastada, estrategicamente, a casinha de madeira tinha, dentro dela, bem no meio do cômodo quadradinho, um trono, também de madeira: um caixote grande, sem encosto, com um buraco, de utilidade óbvia, em cima dele, quase no meio. Sempre limpos e revestidos de jornal, tanto o trono, quanto o chão, ao redor dele. Característica estranha, considerando que poucos desperdiçavam jornais, nos idos de 1957. Esse trono-caixote tinha a altura apropriada para uma pessoa adulta sentar-se e fazer suas necessidades, confortavelmente.
A Nona morava em uma casa de esquina, caiada de branco, com a porta da sala voltada para a rua Carlos Fernandes. Um jardinzinho de flores singelas ficava entre a porta da frente e o murinho baixo. Murinho dividido em dois, com passagem, no meio.
Do lado direito, entre a casa e a rua transversal, ficava um pedaço do quintal, cercado de muro baixo, que permitia aos passantes divisarem uma hortinha bem cuidada, um pé de romã e duas janelas, sempre abertas: uma na sala e outra na cozinha. 
A menina costumava chegar pela lateral da casa, ainda na rua Campos Sales, para entrar pelo quintal, onde deixava sua bicicleta.
Olhando por cima do muro lateral, quando as janelas se encontravam abertas, era possível ver a Nona, aquela senhora séria, alta e exigente, sempre lidando; ora cuidando dos afazeres domésticos, ora fazendo rendinhas de crochê; mimos que ela distribuía nos aniversários das netas e bisnetas. Eram quatro metros de rendinha, para cada uma, a serem utilizadas como enfeite nas calcinhas que, naquele tempo, eram feitas de saco de algodão alvejado.
Cercando e protegendo o quintal do fundo, o muro continuava paralelo àquela rua transversal, a Campos Sales, a que dá acesso à entrada do Campo de Futebol, na pequena Ipuã, que era, então, uma cidadezinha de poucos habitantes e poucas casas.
Quando o pé de romã estava carregado, era feita a previsão do dia propício pra buscar a fruta madura, antecipadamente destinada, que a Nona determinava ser de cada merecedor. Na véspera do dia marcado, chegava o recado: "A Nona pediu pra você ir lá amanhã, buscar sua romã". 

A Nona

A Nona e o Nono se conheceram jovens, cheios de sonhos, casaram-se, viveram seus percalços, criaram seus filhos, e viram as gerações futuras chegar...
Comportaram-se de acordo com o que o destino teceu, nas urdiduras do tempo, até serem sepultados, cada um a seu tempo, no cemitério de Ipuã, onde esparramaram suas raízes.
A menina sabia bem que a Nona era muito brava; ouvia muitos casos sobre o jeito sério como essa senhora entendia a vida. Como as pessoas diziam, naquele tempo, o Nono cortava um doze com ela... 
O Cine Theatro Ipuã tinha sido construído e o povo se empolgava com a novidade. O Nono a convidou para irem ver uma fita. Qual!, disse a Nona, mas não vou nunca gastar dinheiro por nada! Ele se calou. Fazer o quê? Sabia que não a convenceria. Ainda mais que ela andava chateada, porque queria colocar chapa e o dinheiro andava curto.
E teve um dia que escureceu e o Nono demorou muito pra voltar pra casa. Fato incomum... Cidade pequena, todos sabiam da vida de todos, mas ninguém tinha visto o Nono. Eram tantas casas pra visitar; de filhos, de netos já casados; havia de ter ficado pra jantar em alguma casa; ele estava por ali mesmo, diziam...
Naquele tempo, era incomum carregar dinheiro, ou carteira. As pessoas andavam com uns trocados, no bolso, para o pão, umas balinhas, porque tudo era comprado no armazém e era marcado na caderneta. No dia de pagar, pegava-se o dinheiro que ficava guardado em caixa de papelão, dentro do guarda-roupa, e quitava-se a dívida. Assim, era fácil pra Nona saber a quantia que o Nono carregava, no bolso. Quando o Nono chegou e não deu explicações, resmungando que nem tinha saído dali de perto, ela ficou enfurecida, mas calou-se. Esperou que ele dormisse e, sem ele perceber, foi direto ao bolso e contou o dinheiro, comprovando que faltavam alguns réis. No dia seguinte, perguntou, então, para um dos netos:
- Quanto custa pra ir naquela casa de pouca-vergonha, a cinema?
E a resposta foi, justamente, o equivalente ao que faltava no bolso do Nono; o suficiente para ela ver comprovada a certeza do descaramento dele!
Constrangido pelo mau exemplo, depois de ver a Nona alardear, aos quatro ventos e em ritmo de tempestade, sua conduta de desrespeito, o Nono se arrependeu: pra tanta briga e cara feia, tão pouco proveito!
A Nona já tinha passado muita coisa nesta vida! Até filha casada e mãe de dois filhos ela viu sofrer de câncer, sem recursos, sem remédio, sem assistência, até morrer.
Quando os pais da Nona decidiram mudar para o Brasil, escolheram o Rio Grande do Sul. Foi onde ela nasceu. Mas a mãe não se adaptou e voltaram para a Itália. Vieram em quatro e, ao retornar, eram cinco: o casal e três mocinhas. Lá na Itália, a vida continuava dura, e a mãe da Nona trabalhava na rua, vendendo carvão, empurrando um carrinho, pra ajudar no sustento de casa. Num dia muito triste, a mãe sofreu um acidente e faleceu. O pai das três mocinhas voltou, então, para o Brasil e, desta última e definitiva vez, construiu seu futuro no estado de São Paulo, em Batatais. As outras duas irmãs da Nona viveram e morreram nessa cidade.

O aniversário e a discórdia

Gente é bicho que precisa passar por muito aprendizado.
Por mais que o vivente aprende, mais e mais é preciso botar tento no que ele faz, para que a sequência não seja eterna tentativa de superação da própria pequenez.
O ser humano tem, dentro de si, algumas certezas e, quando ele quer, ele aprende a lidar com elas.
Uma delas é que a pequenez de um ato seu pode ser marca eterna na vida de outras pessoas.
Outra, é que o prazo de validade vai-se extinguindo, em direção à morte; peso que se carrega no peito e na alma, a partir da chegada do entendimento do que é a vida.
Neste meio tempo, ele precisa apreender e treinar a tolerância.
Só o entendimento dá margem a um coração aberto ao perdão.
Na lembrança mais remota da menina, numa reunião comemorativa do aniversário do Nono, ela sofreu a primeira injustiça, marcadamente traumatizante, na sua vidinha de apenas seis aninhos de falta de experiência.
O Nono morreu logo depois, um mês e poucos dias depois, e a menina dedicou um bom período e muito treinamento para conseguir perdoá-lo...
Aconteceu que, no aniversário do Nono, no ano de 1957, os pais da menina foram à casa da esquina, cumprimentá-lo pela data. Passava um pouco dos 80 anos, esse senhor empertigado e muito simpático, que ainda jogava bocha, pelo menos uma vez por semana.
A Nona abriu a porta da sala, sorrindo, e fez o mesmo comentário de sempre sobre as flores de cor branca e lilás; que ela cultivava e enfeitavam o jardinzinho:
- Já contei que essas flor chama peido-de-veia?

O Nono era um italianão bravo e esta senhora que compartilhava sua história entrelaçada à dele respeitava seus rompantes. Toda a família respeitava. Ele era figura querida e bom contador de casos. Antes de envelhecer, era um mascate: ganhou a vida vendendo produtos de armazém, nas fazendas das redondezas.
O aniversário dele, naquele ano de 57, caiu num dia de semana. Durante todo o dia, muitos passaram pela casa e cumprimentaram aquele senhor alto, de vozeirão e sotaque marcantes, e cabeça branca.
Passado tanto tempo, a menina não se lembra de detalhes sobre pessoas, assuntos, comida... Gente grande conversava, criança brincava, fazendo algazarra e correndo, fazendo a volta, pela sala e quintal, numa gritaria alegre, empolgada e sem fim!
Adiantava-se a hora, muito além do que os velhos costumavam esperar para recolherem-se, encerrando o dia.
A meninada mantinha-se com a corda toda; todas as crianças numa farra interminável, numa energia enervante, dando voltas e mais voltas...
E os adultos tentando conversar.
E nem durava um minuto pra volta ser dada e, da porta da frente da casa, surgiam os gritos que cutucavam os nervos daqueles adultos que se encontravam naquela sala onde, normalmente, só ficavam cadeiras dispostas nas paredes laterais.
A menina era uma das encapetadas criaturinhas: magrelinha, estabanada, de voz estridente... Destacava-se das outras crianças, naquela correria incessante, da sala para a cozinha, para o quintal, aparecendo, novamente, com o coração quase saindo pela boca, suando. 
De repente, alguém a pegou pelo braço, com força, num tranco só, sacudindo-a, fazendo-a sentir-se um saco de ossos...
De olhos arregalados; coração descompassado; a menina, paralisada, tremia...
Bem alto, ouviu-se uma voz, cuspindo irritação:
- Dio mio! Ma che! parece que essa criança tem bicho carpinteiro no cu!
Seguiu-se um silêncio sem cor e então, muito riso alto e palavras soltas, quando todos entenderam que o Nono tinha perdido a paciência...
Aquela última palavra concreta chocou a menina.
De suada e vermelha, ela ficou amarela: de susto e medo!
Sentiu-se envergonhada, quando olhou para o pai impotente que não a acudiu: era um tempo de muito respeito aos mais velhos.
No coração da menina entrou um ódio pecaminoso e devorador que pareceu incêndio devastando o respeito que devotara, até ali, ao Nono...
A menina não o viu mais.
Veio o período de férias e o pai a levou pra Ribeirão Preto, para passar uma semana na casa da tia Luísa e do tio Caetano, dois tios queridos que moravam na esquina do Bosque daquela cidade.
Quando o pai a buscou, no final dos dias maravilhosos de peripécias e carinho recebidos naquela casa onde morava a alegria, o pai contou que o Nono tinha morrido, vítima de um mal que parou o coração lá dele.
E que foi a Nona quem o encontrou, lá, na casinha...
A Nona estranhou tanta demora, foi até a casinha, e lá estava ele, sentadinho no trono:
- Parecia que dormia, o poveretto!



          Sítio Rosa Mística, 19 de outubro de 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ENQUANTO: UM POEMA



                          Esta poesia 
               foi escrita para ser exposta em evento de incentivo à leitura. 
                                   No Dia Nacional da Árvore. 
                    No Rio de Janeiro. 
                                                   Não fez parte de competição. 
           Todas as enviadas 
                    foram impressas e presas às árvores
                                                              de uma praça da cidade...
      De modo a serem visualizadas e lidas, com facilidade.

Enquanto

"Quando em meu peito rebentar-se a fibra,"
minhas flores caiam ao léu
e que o tempo
esparrame pelo chão
minhas folhas murchas
em desenhados gravetos.
Que minhas raízes de pedra
amarras da ilusão cativa
da minha mente
à flor do chão desvalidas
desfaçam-se
enquanto
"Ao longe, o vento vai falando em mim..."
enquanto
o tronco
de tráfego incessante
da minha seiva e sangue
"... jaz morto e apodrece..."
inerte.
O porvir seja
exuberante júbilo
no etéreo fluir
da minha alma
pois me foi dado
"... rir meu riso e derramar meu pranto..."
na natureza festiva

do meu ser natureza.

- 2013 –

     Os versos entre aspas são de outras poesias. Poesias marcantes. 
     O primeiro é de Lembrança de Morrer, de Álvares de Azevedo. 
     O segundo, d'O Quarto Motivo da Rosa, da Cecília Meireles. 

    O terceiro, de O Menino de Sua Mãe, do Fernando Pessoa.
                   E o último, do Poema de Natal, do Vinícius de Morais.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

AI QUE RICA!

Esta foto foi tirada em 1921 ou 22, em Ipuã, no interior de São Paulo. Ela nos foi dada por um tio, irmão mais velho do meu pai, o Antônio (o Tonico) Gerin.
No centro da foto está um casal idoso: o Nono Antônio Gerin e a Nona Amália Peressin Gerin (meus bisavós). Atrás deles, a única filha, a mocinha de branco, a tia Maria Gerin. Do lado direito do Nono, está minha avó Ernesta Tazinafo Gerin, com meu tio Anésio (o primeiro filho; ele morreu afogado aos três anos), no colo; e, ao lado direito dela, em pé, o tio Antônio Hermes Gerin. Atrás desse tio, meu avô João Gerin. Do lado esquerdo do meu avô, o tio Pedro Gerin.
Agora, as pessoas do lado esquerdo da Nona Amália: sentada, a tia Aninha, casada com o tio Rodolfo Gerin. No colo da tia Aninha, uma criança que meu pai, o Ézio Gerin (que não está na foto, pois nasceu em março de 1926), não sabe dizer o nome e, encostado no braço esquerdo da tia Aninha, o tio Júlio Gerin. 
Portanto, a Nona e o Nono tiveram seis filhos. Desses, três deles se casaram com três irmãs de sobrenome Tazinafo: o João e a Ernesta (meus avós); o Antônio e a Aristida; e o Júlio e a Adelina. 
Linda foto de um tempo que passou e resultou em tantas histórias; em tantos descendentes... O legado desse povo simples, ordeiro, honesto, trabalhador, de fé, de devoção e de amor à vida está nas nossas mãos! Que saibamos honrá-los, com muita responsabilidade! Que Deus nos ajude! Amém! 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS

A ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS
Já conhecia a oração dos cinco dedos? É muito famosa.
E o seu autor é o Papa Francisco, no tempo em que era bispo na Argentina. 
Lindíssima!
1 .DEDO POLEGAR: O dedo polegar é aquele que está mais próximo de ti.
Assim, começa a rezar por aqueles que estão mais unidos a ti.
São aqueles que mais facilmente recordamos.
Rezar pelos que amamos é uma "tarefa doce".
2. DEDO INDICADOR: O próximo dedo é o indicador: reza pelos que ensinam, instruem e curam. Para conduzirem os outros na direcção correcta, eles necessitam de apoio. Mantém-nos presentes na tua oração.
3. DEDO MÉDIO: O dedo seguinte é o mais alto: faz-nos recordar os nossos líderes, os governantes, aqueles que detêm a autoridade. Eles necessitam da direcção divina.
4. DEDO ANELAR: O próximo dedo é o do anel. Surpreendentemente, este é o nosso dedo mais débil. Lembra-nos o dever de rezarmos pelos fracos, doentes ou atormentados pelos problemas. Eles precisam das tuas orações.
5. DEDO PEQUENO: Finalmente, temos o dedo pequeno, o mais pequeno de todos. O mindinho deveria fazer-te recordar que deves rezar por ti mesmo. Depois de teres rezado pelos outros quatro grupos de pessoas, então as tuas próprias necessidades aparecerão numa perspectiva correcta e estarás preparado para rezar por ti mesmo, de modo mais adequado.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sobre a morte e o morrer

Sobre a morte e o morrer
Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.

Rubem Alves: tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

Visitem "A casa de Rubem Alves".

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Reflexos da vida

Ser feliz é um estágio da alma que independe das mãos envelhecidas ou da imagem do rosto amarrotado por prêmios dos dias vividos em função dos sonhos realizados, ou desfeitos. Tem a ver com o empenho para que a vida receba as homenagens que merece, somando lugares comuns a momentos importantes, a passagens inglórias, a constrangimentos, à sensação de utilidade e valor, à saudade, à consciência de que se é único e resultado de muitos, com a incumbência de oportunizar que venham outros mais, numa sequência infinita... Com o passar do tempo, a felicidade se faz constante na vida de quem se enreda com crianças. Principalmente aquelas que trazem reflexos de sempre na memória do coração: os netos.  

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Sorriso Amarelo

Um mineiro de Uberaba, recém-chegado à minha cidade natal, falou tanto sobre a nova capital, que meu pai se decidiu e acertou que nos levaria para ver de perto tanta maravilha.
Nossa primeira longa viagem, envolvendo toda família, aconteceu em julho de 1963. Viajamos para conhecer Brasília, na kombi azul e branca, zerada, que meu pai tinha adquirido bem recentemente. Não conhecia aquele pai brincalhão, conversador, que deixava transparecer que se divertia a valer com a viagem e a companhia. Ficamos hospedados no hotel Paranoá, no centro de Taguatinga, ao lado da igreja do Perpétuo Socorro. Foram três dias de sonho. Depois de rodar pelos principais pontos turísticos de Brasília, seguimos rumo a Belo Horizonte, onde passamos dois dias, com direito a parque de diversões muito iluminado e emoções inesperadas como a mulher que virava gorila e ameaçava soltar-se das grades onde estava aprisionada. Dali, seguimos viagem até Aparecida do Norte, onde meus pais pagaram promessa para nossa santinha protetora.


De volta a Ipuã, nossa cidade no interior de São Paulo, meu pai retornou ao mesmo padrão de homem trabalhador, sério, de poucas palavras, temente a Deus, exemplo de arrimo de família.

Quando ouvi que nos mudaríamos, definitivamente, para Taguatinga, fiquei apreensiva; sabia que perderia meu pedaço de céu. A ideia era buscar um local onde os filhos teriam mais ofertas de estudo, com um futuro melhor, já que meus pais sabiam que a educação move montanhas. Com mais tempo para pensar, depois de ouvir e ver o entusiasmo deles, exultei, pois queria de volta aquele pai da viagem.

O pai que, no último dia vinte de março acabou de completar oitenta e seis anos, passou por tantos percalços, teve tantos desenganos... Se não fossem as histórias que ouvimos, quase sempre as mesmas, nos nossos almoços de domingo, diria que ele foi abduzido e, no seu lugar, deixaram uma figura tensa, ectoplasmática; sombra da minha mãe.

Sem querer dar a entender que ele não tem vontade própria, mas já dando, percebo que ele se tornou uma pessoa tão cordata, virou um ser tão avesso a desavenças, uma figura de convivência tão sem desafios, que olho e olho e não vejo aquele pai que nos acompanhou e guiou na viagem e na mudança...

Pois não é que no domingo passado, na hora do almoço, ele veio com uma conversa que deixou todo mundo de boca aberta?

Pois é! No domingo, durante o almoço, meu pai confessou que passou a vida inteira tentando manter a calma, evitando confrontos, entendendo o lado do outro. E acrescentou que, com isso, imitava o próprio pai. Riu amarelo e soltou um “não passei nem perto!”.

Quando meu pai nasceu, no interior do estado de São Paulo, na cidade de Ipuã, em condição de muita pobreza, ele herdou a história de uma tragédia que fez da mãe dele uma mulher muito triste: o primeiro filho tinha morrido afogado.

A tragédia aconteceu no início de 1923. A vida estava muito difícil e foi aí que meus avós arrumaram emprego numa fazenda, no interior do mesmo estado, na cidade de Assis, longe da cidade onde nasceram, onde casaram e onde tiveram o primeiro filho. Na tal fazenda, minha avó tinha levantado cedo para lavar roupas e deixou o menino de recém-feitos três aninhos brincando por perto. Por um desses tais azares do destino, enquanto estendia uma baciada de roupa já limpa, esqueceu-se que o diabo atenta e que menino é bicho muito malino e o pior do pior aconteceu... Ele morreu afogado, dentro da tina que ficava embaixo da bica d’água.

Meus avós pegaram seus trecos, puseram na carroça e voltaram para Ipuã, desacorçoados. O tempo se encarregou de mostrar a força do seu curso, a vida de durezas deu uma trégua, meu avô arrumou emprego na cidade e nasceram dois filhos: o Antônio, em 1924, e meu pai, o Ézio, em 26.

Os dois meninos cresceram numa situação de muita carência. Porque era um tempo assim, para a maioria da população. Faltava emprego, faltava escola, vivia-se em regime de quase escambo. Para piorar, a minha avó virou uma pessoa triste, doente, um poço de dores. Em conseqüência de tudo que passava, sofria dos nervos. Eram comuns cenas contra meu avô. Num dia caótico, quando o coitado chegou tarde do serviço e ainda teria de fazer o jantar para os quatro, ela jogou um prato de louça nele e, por pouco, não o deixou de cabeça partida. Os meninos a tudo assistiram, quietinhos. Eles respeitavam o jeito da mãe, mãe doente, muitas vezes de cama, à mercê da caridade alheia e da madorna que servia de couraça para que meu avô levasse adiante os percalços que a vida lhe infringia, com paciência. Os meninos observavam o silêncio e a tolerância do pai.

Quando meus pais resolveram mudar para a nova capital, em 1964, a notícia mexeu muito com a família, e deixou à mostra as cicatrizes da tragédia dos meus avós. Os parentes sofreram com a nossa ausência, temendo o pior, torcendo pela nossa volta, sãos e salvos. Do nosso lado, sofremos com a adaptação e dificuldades de moradia, na cidade de Taguatinga, Distrito Federal. Faltava água, sobrava solidão e saudade...

Na cidade onde nascemos, no interior de São Paulo, ficaram pedacinhos das nossas histórias de tristezas e de alegrias, esparramados por todos os lados. A casa da minha madrinha Landa fica na rua transversal, a uns cento e cinquenta metros da casa onde morreu a mãe do meu pai, no mesmo quarteirão onde ficava a casa dos meus pais. Muitas histórias que sei do meu pai, antes dele se casar com minha mãe, são contadas pela minha madrinha, amiga de infância dele que também gosta de contar casos. Sim, ele também os conta; só que se resguarda e mantém intato o próprio coração. Minha madrinha se lembra que minha avó passou um ano de cama, esvaindo-se por causa da doença ruim que a fazia gritar de dor, na madrugada. Era um tempo sem cuidados e sem remédios. Sem saúde, restava esperar a morte e sofrer, enquanto a maldita não dava as caras. Minha madrinha era mocinha e acordava, de madrugada, ouvindo a lamentação da doente. Ninguém tinha nada a fazer, a não ser sentir muita pena. Principalmente no final, quando a doente não teve a menor trégua das dores...

Quando a madrinha me contou essa história dessa avó que se deitou no dia de Finados de um ano e faleceu no dia de Todos os Santos do outro ano, lembro-me de ter ficado muito abalada.

No domingo, depois da tirada do meu pai, querendo transparecer que queria ter sido ainda mais tolerante do que sempre foi, percebi que ele estava num momento de contrição. Comecei então a fazer perguntas sobre aquele tempo diferente e sombrio, quando ele era rapaz e a esperança tinha de ser agarrada à unha.

- Teve um dia que a minha mãe estava sofrendo muito. A gente ainda não sabia que era doença ruim. E pediu que eu vendesse seis ovos que ela tinha colhido de um ninho no quintal, onde meia dúzia de galinhas ciscava. Os ovos estavam dentro de um saquinho de papel, daqueles que embrulhavam o pão que se comprava na padaria do Juca. Com o dinheiro, eu deveria comprar cibalena (aqui, ele fez uma pausa para dizer que o analgésico era o único remédio que todos tomavam, não importava o mal que os acometia)... E continuou:

- Eu ia pela calçada, rapazote ainda, assoviando e, ao passar por um poste, o saquinho bateu no poste e os ovos se quebraram. Não todos. O saquinho de papel ficou molhado, rasgou e caiu tudo no chão. Aí, sim, não sobrou nem um inteiro!

Meu pai deu então um sorriso amarelo e continuou:

- Sempre que penso nessa história, tenho a sensação que acabou de acontecer! Voltei para casa, muito chateado comigo mesmo e com a minha burrice. Entrei, encarei minha mãe e contei o acontecido. Ela deu um sorriso triste, disse que não tinha nada não, que eu deixasse para lá... Mas eu preferia mesmo era que ela tivesse brigado comigo e me batido!

Minha avó morreu no dia de Todos os Santos, no ano de 1947. Em maio de 48, meu tio Antônio se casou com a tia Lourdes e ficaram morando na casa do meu avô. No mesmo ano, em vinte e oito de julho, meus pais se casaram.

Taguatinga, 28 de março de 2012