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terça-feira, 10 de setembro de 2013

AI QUE RICA!

Esta foto foi tirada em 1921 ou 22, em Ipuã, no interior de São Paulo. Ela nos foi dada por um tio, irmão mais velho do meu pai, o Antônio (o Tonico) Gerin.
No centro da foto está um casal idoso: o Nono Antônio Gerin e a Nona Amália Peressin Gerin (meus bisavós). Atrás deles, a única filha, a mocinha de branco, a tia Maria Gerin. Do lado direito do Nono, está minha avó Ernesta Tazinafo Gerin, com meu tio Anésio (o primeiro filho; ele morreu afogado aos três anos), no colo; e, ao lado direito dela, em pé, o tio Antônio Hermes Gerin. Atrás desse tio, meu avô João Gerin. Do lado esquerdo do meu avô, o tio Pedro Gerin.
Agora, as pessoas do lado esquerdo da Nona Amália: sentada, a tia Aninha, casada com o tio Rodolfo Gerin. No colo da tia Aninha, uma criança que meu pai, o Ézio Gerin (que não está na foto, pois nasceu em março de 1926), não sabe dizer o nome e, encostado no braço esquerdo da tia Aninha, o tio Júlio Gerin. 
Portanto, a Nona e o Nono tiveram seis filhos. Desses, três deles se casaram com três irmãs de sobrenome Tazinafo: o João e a Ernesta (meus avós); o Antônio e a Aristida; e o Júlio e a Adelina. 
Linda foto de um tempo que passou e resultou em tantas histórias; em tantos descendentes... O legado desse povo simples, ordeiro, honesto, trabalhador, de fé, de devoção e de amor à vida está nas nossas mãos! Que saibamos honrá-los, com muita responsabilidade! Que Deus nos ajude! Amém! 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS

A ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS
Já conhecia a oração dos cinco dedos? É muito famosa.
E o seu autor é o Papa Francisco, no tempo em que era bispo na Argentina. 
Lindíssima!
1 .DEDO POLEGAR: O dedo polegar é aquele que está mais próximo de ti.
Assim, começa a rezar por aqueles que estão mais unidos a ti.
São aqueles que mais facilmente recordamos.
Rezar pelos que amamos é uma "tarefa doce".
2. DEDO INDICADOR: O próximo dedo é o indicador: reza pelos que ensinam, instruem e curam. Para conduzirem os outros na direcção correcta, eles necessitam de apoio. Mantém-nos presentes na tua oração.
3. DEDO MÉDIO: O dedo seguinte é o mais alto: faz-nos recordar os nossos líderes, os governantes, aqueles que detêm a autoridade. Eles necessitam da direcção divina.
4. DEDO ANELAR: O próximo dedo é o do anel. Surpreendentemente, este é o nosso dedo mais débil. Lembra-nos o dever de rezarmos pelos fracos, doentes ou atormentados pelos problemas. Eles precisam das tuas orações.
5. DEDO PEQUENO: Finalmente, temos o dedo pequeno, o mais pequeno de todos. O mindinho deveria fazer-te recordar que deves rezar por ti mesmo. Depois de teres rezado pelos outros quatro grupos de pessoas, então as tuas próprias necessidades aparecerão numa perspectiva correcta e estarás preparado para rezar por ti mesmo, de modo mais adequado.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sobre a morte e o morrer

Sobre a morte e o morrer
Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.

Rubem Alves: tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

Visitem "A casa de Rubem Alves".

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Reflexos da vida

Ser feliz é um estágio da alma que independe das mãos envelhecidas ou da imagem do rosto amarrotado por prêmios dos dias vividos em função dos sonhos realizados, ou desfeitos. Tem a ver com o empenho para que a vida receba as homenagens que merece, somando lugares comuns a momentos importantes, a passagens inglórias, a constrangimentos, à sensação de utilidade e valor, à saudade, à consciência de que se é único e resultado de muitos, com a incumbência de oportunizar que venham outros mais, numa sequência infinita... Com o passar do tempo, a felicidade se faz constante na vida de quem se enreda com crianças. Principalmente aquelas que trazem reflexos de sempre na memória do coração: os netos.  

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Sorriso Amarelo

Um mineiro de Uberaba, recém-chegado à minha cidade natal, falou tanto sobre a nova capital, que meu pai se decidiu e acertou que nos levaria para ver de perto tanta maravilha.
Nossa primeira longa viagem, envolvendo toda família, aconteceu em julho de 1963. Viajamos para conhecer Brasília, na kombi azul e branca, zerada, que meu pai tinha adquirido bem recentemente. Não conhecia aquele pai brincalhão, conversador, que deixava transparecer que se divertia a valer com a viagem e a companhia. Ficamos hospedados no hotel Paranoá, no centro de Taguatinga, ao lado da igreja do Perpétuo Socorro. Foram três dias de sonho. Depois de rodar pelos principais pontos turísticos de Brasília, seguimos rumo a Belo Horizonte, onde passamos dois dias, com direito a parque de diversões muito iluminado e emoções inesperadas como a mulher que virava gorila e ameaçava soltar-se das grades onde estava aprisionada. Dali, seguimos viagem até Aparecida do Norte, onde meus pais pagaram promessa para nossa santinha protetora.


De volta a Ipuã, nossa cidade no interior de São Paulo, meu pai retornou ao mesmo padrão de homem trabalhador, sério, de poucas palavras, temente a Deus, exemplo de arrimo de família.

Quando ouvi que nos mudaríamos, definitivamente, para Taguatinga, fiquei apreensiva; sabia que perderia meu pedaço de céu. A ideia era buscar um local onde os filhos teriam mais ofertas de estudo, com um futuro melhor, já que meus pais sabiam que a educação move montanhas. Com mais tempo para pensar, depois de ouvir e ver o entusiasmo deles, exultei, pois queria de volta aquele pai da viagem.

O pai que, no último dia vinte de março acabou de completar oitenta e seis anos, passou por tantos percalços, teve tantos desenganos... Se não fossem as histórias que ouvimos, quase sempre as mesmas, nos nossos almoços de domingo, diria que ele foi abduzido e, no seu lugar, deixaram uma figura tensa, ectoplasmática; sombra da minha mãe.

Sem querer dar a entender que ele não tem vontade própria, mas já dando, percebo que ele se tornou uma pessoa tão cordata, virou um ser tão avesso a desavenças, uma figura de convivência tão sem desafios, que olho e olho e não vejo aquele pai que nos acompanhou e guiou na viagem e na mudança...

Pois não é que no domingo passado, na hora do almoço, ele veio com uma conversa que deixou todo mundo de boca aberta?

Pois é! No domingo, durante o almoço, meu pai confessou que passou a vida inteira tentando manter a calma, evitando confrontos, entendendo o lado do outro. E acrescentou que, com isso, imitava o próprio pai. Riu amarelo e soltou um “não passei nem perto!”.

Quando meu pai nasceu, no interior do estado de São Paulo, na cidade de Ipuã, em condição de muita pobreza, ele herdou a história de uma tragédia que fez da mãe dele uma mulher muito triste: o primeiro filho tinha morrido afogado.

A tragédia aconteceu no início de 1923. A vida estava muito difícil e foi aí que meus avós arrumaram emprego numa fazenda, no interior do mesmo estado, na cidade de Assis, longe da cidade onde nasceram, onde casaram e onde tiveram o primeiro filho. Na tal fazenda, minha avó tinha levantado cedo para lavar roupas e deixou o menino de recém-feitos três aninhos brincando por perto. Por um desses tais azares do destino, enquanto estendia uma baciada de roupa já limpa, esqueceu-se que o diabo atenta e que menino é bicho muito malino e o pior do pior aconteceu... Ele morreu afogado, dentro da tina que ficava embaixo da bica d’água.

Meus avós pegaram seus trecos, puseram na carroça e voltaram para Ipuã, desacorçoados. O tempo se encarregou de mostrar a força do seu curso, a vida de durezas deu uma trégua, meu avô arrumou emprego na cidade e nasceram dois filhos: o Antônio, em 1924, e meu pai, o Ézio, em 26.

Os dois meninos cresceram numa situação de muita carência. Porque era um tempo assim, para a maioria da população. Faltava emprego, faltava escola, vivia-se em regime de quase escambo. Para piorar, a minha avó virou uma pessoa triste, doente, um poço de dores. Em conseqüência de tudo que passava, sofria dos nervos. Eram comuns cenas contra meu avô. Num dia caótico, quando o coitado chegou tarde do serviço e ainda teria de fazer o jantar para os quatro, ela jogou um prato de louça nele e, por pouco, não o deixou de cabeça partida. Os meninos a tudo assistiram, quietinhos. Eles respeitavam o jeito da mãe, mãe doente, muitas vezes de cama, à mercê da caridade alheia e da madorna que servia de couraça para que meu avô levasse adiante os percalços que a vida lhe infringia, com paciência. Os meninos observavam o silêncio e a tolerância do pai.

Quando meus pais resolveram mudar para a nova capital, em 1964, a notícia mexeu muito com a família, e deixou à mostra as cicatrizes da tragédia dos meus avós. Os parentes sofreram com a nossa ausência, temendo o pior, torcendo pela nossa volta, sãos e salvos. Do nosso lado, sofremos com a adaptação e dificuldades de moradia, na cidade de Taguatinga, Distrito Federal. Faltava água, sobrava solidão e saudade...

Na cidade onde nascemos, no interior de São Paulo, ficaram pedacinhos das nossas histórias de tristezas e de alegrias, esparramados por todos os lados. A casa da minha madrinha Landa fica na rua transversal, a uns cento e cinquenta metros da casa onde morreu a mãe do meu pai, no mesmo quarteirão onde ficava a casa dos meus pais. Muitas histórias que sei do meu pai, antes dele se casar com minha mãe, são contadas pela minha madrinha, amiga de infância dele que também gosta de contar casos. Sim, ele também os conta; só que se resguarda e mantém intato o próprio coração. Minha madrinha se lembra que minha avó passou um ano de cama, esvaindo-se por causa da doença ruim que a fazia gritar de dor, na madrugada. Era um tempo sem cuidados e sem remédios. Sem saúde, restava esperar a morte e sofrer, enquanto a maldita não dava as caras. Minha madrinha era mocinha e acordava, de madrugada, ouvindo a lamentação da doente. Ninguém tinha nada a fazer, a não ser sentir muita pena. Principalmente no final, quando a doente não teve a menor trégua das dores...

Quando a madrinha me contou essa história dessa avó que se deitou no dia de Finados de um ano e faleceu no dia de Todos os Santos do outro ano, lembro-me de ter ficado muito abalada.

No domingo, depois da tirada do meu pai, querendo transparecer que queria ter sido ainda mais tolerante do que sempre foi, percebi que ele estava num momento de contrição. Comecei então a fazer perguntas sobre aquele tempo diferente e sombrio, quando ele era rapaz e a esperança tinha de ser agarrada à unha.

- Teve um dia que a minha mãe estava sofrendo muito. A gente ainda não sabia que era doença ruim. E pediu que eu vendesse seis ovos que ela tinha colhido de um ninho no quintal, onde meia dúzia de galinhas ciscava. Os ovos estavam dentro de um saquinho de papel, daqueles que embrulhavam o pão que se comprava na padaria do Juca. Com o dinheiro, eu deveria comprar cibalena (aqui, ele fez uma pausa para dizer que o analgésico era o único remédio que todos tomavam, não importava o mal que os acometia)... E continuou:

- Eu ia pela calçada, rapazote ainda, assoviando e, ao passar por um poste, o saquinho bateu no poste e os ovos se quebraram. Não todos. O saquinho de papel ficou molhado, rasgou e caiu tudo no chão. Aí, sim, não sobrou nem um inteiro!

Meu pai deu então um sorriso amarelo e continuou:

- Sempre que penso nessa história, tenho a sensação que acabou de acontecer! Voltei para casa, muito chateado comigo mesmo e com a minha burrice. Entrei, encarei minha mãe e contei o acontecido. Ela deu um sorriso triste, disse que não tinha nada não, que eu deixasse para lá... Mas eu preferia mesmo era que ela tivesse brigado comigo e me batido!

Minha avó morreu no dia de Todos os Santos, no ano de 1947. Em maio de 48, meu tio Antônio se casou com a tia Lourdes e ficaram morando na casa do meu avô. No mesmo ano, em vinte e oito de julho, meus pais se casaram.

Taguatinga, 28 de março de 2012

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A PANELA ELÉTRICA DE ARROZ


Em 1988, ganhei uma panela japonesa de fazer arroz. Foi um dos melhores presentes, do tipo prático e solidário, que ganhei na vida. Em uma viagem a Manaus, conheci e ganhei a panela. Cara demais, valeu sua importância em dólares. Foi sugestão e presente do marido. Sempre fui apaixonada por panelas. Aquelas branquinhas, esmaltadas, com desenhos coloridos, quando começaram a aparecer na praça, passaram a ser meu sonho de consumo. Não as comprava, só namorava...

Quando a panela de arroz chegou na minha vida, eu costumava trabalhar dois turnos, envolvida com educação, e o tempo que sobrava eu cuidava de quatro filhos, duas casas, e um marido. Os filhos tinham idades que variavam de sete a dezenove anos (eles têm diferença média de três anos entre um e outro). Uma casa era na chácara, onde ficava o mais velho que só estudava à noite; e a outra era um apartamento em Taguatinga, que nos servia de apoio, pois era ali que almoçávamos. Aí, o marido e eu voltávamos para o trabalho, e cada um dos filhos partia para atividades extras, como educação física, aulas de inglês, de reforço, cinema... Ou esperavam a hora de voltarmos para a casa na chácara. Era no apartamento que a panela ficava. Eu costumava dizer que ficava sem empregada, mas não ficava sem a panela de arroz! E isso de ficar sem ajudante acontecia muitas vezes. De manhã, depois de deixar os três menores na escola, eu passava no apartamento e deixava o almoço encaminhado. O arroz era colocado na panela, com tempero, óleo e água e pronto! era só ligar na tomada. Na hora do almoço, o arroz estava com-jeito-de-arroz-feito-na-hora. O feijão já vinha pronto de casa (sempre fiz uma refeição planejando a seguinte). A carne era bife; ou almôndegas preparadas com antecedência, deixadas na gordura de porco; ou frango e as variáveis; ou carne cozida. Sempre tinha uma salada e um legume refogado. Foi o meu tempo de heroína do tempo e refém do sono. Meus minutos rendiam, como se eu dominasse o tempo. Mas eu bem sabia que eu o roubava do sono... Agia como meliante em desproveito próprio!

Depois de aposentada, a panela, debilitada e cheia de falhas, também ficou esquecida num canto, até o dia do descarte. Não mais fazia falta. Já tinha cumprido sua tarefa de ajudante-mor. O tempo passou apressado, praticamente voando no afã de me entregar a velhice que vem tentando tomar conta de mim. Continuo às voltas com panelas. É ao redor delas que vejo resultados palpáveis da minha lida. Hoje, as tais panelas se popularizaram, estão relativamente baratas, quase toda casa tem uma. Os modelos atuais permitem até cozer legumes no vapor do cozimento do arroz! Quando eu ligava minha panela-amiga-ajudante, fechava a porta do apartamento e partia para meu dia de batalha, sentia-me a fada madrinha da Cinderela, fazendo sua magia: zalagadula-mexegadula-pictipoctizum...

terça-feira, 5 de junho de 2012

Minha homenagem de gratidão à terra que me acolheu e envolveu!

Taguatinga se localiza no Planalto Central, em região de cerrado. Suas árvores nativas têm desenho retorcido, esculpido pelo clima seco dos meses sem r. Os ventos que a cortam trazem sensação de conforto, abrandando o calor, e trazem energia para seu povo insistir no comprometimento com o futuro. Seus habitantes têm histórico de origem de luta árdua. O historiador Adirson Vasconcelos conta, no livro As cidades Satélites de Brasília, publicado em 1988, como foi o início. Cita os tratores do Departamento de Viação e Obras desmatando e abrindo a Avenida Central; conta que o sistema hidráulico foi instalado para bombear água do ribeirão para um chafariz improvisado; conta como foi a construção da Caixa D’Água... O autor acrescenta: “O local escolhido para o início da ocupação é uma área próxima a uma mina d’água, na região onde hoje se situa o Colégio Marista (VASCONCELOS, 1988, p. 25/26)". Mal sabiam aqueles que vinham dos mais diferentes rincões, que aportariam em lugar com endereços atípicos, na cidade que nasceu ao redor da QSC e QSD.
Tarefa difícil essa de deixar, na terra natal, o conforto cômodo, os costumes, as manias, para enfrentar o desconhecido e desbravar o sertão. Além das atividades físicas da labuta diária, parte da noite era aproveitada para trabalhadores unirem-se em mutirões, quando então levantavam barracos para outros trabalhadores que chegavam e passavam a ser parte da grande construção de Brasília.
Os ventos que hoje cortam a cidade, contornando tantos prédios-obstáculos-verticais, impensados no início da cidade, balançando as folhas e galhos das árvores das praças, das ruas, dos quintais, são ventos que podem até ser os mesmos que levantavam poeira naquele tempo. Lá, eram velozes e iam em direção às conquistas; aqui, vão passando e conhecendo os caminhos e as figuras que substituem o passado.
Faltava água, faltavam árvores, faltava moradia, faltava escola... E tinha cor. Vinha do azul do céu o contorno que emoldurava os ideais que eram buscados na raça.
Coube ao Bahouth (1978) a constatação:
O desejo de ficar, de morar, de fazer sua casa e fixar raízes, tudo isso deu ânimo e coragem aos que tiveram que enfrentar um pioneirismo cheio de percalços. A ocupação de um pedaço de terra, a luta para conservá-lo e mantê-lo, as dificuldades dos anos de implantação, transformaram esse sentimento em uma orgulhosa identificação: eu sou taguatinguense (BAHOUTH, 1978, p. 133).
            Lopes (1989) fez, em livro, o depoimento que identifica o verdadeiro papel do pioneiro de Taguatinga:
Taguatinga nasceu porque estava sobrando gente e faltando espaço no grande canteiro de obras que era a Cidade Livre. Era um problema para os tecnocratas que moldavam a Nova Capital. E o nascimento de Taguatinga, plantada bem longe do Plano Piloto, foi a primeira “solução de prancheta” dos tecnocratas que, unidos aos políticos e administradores da obra, resolveram que o povo deveria ficar longe, bem longe, para não atrapalhar (LOPES, 1989, p. 12).
Estes dois últimos autores citados têm em comum autoria de obra sobre Taguatinga. Alberto Bahouth Júnior escreveu Taguatinga: pioneiros e precursores. Wílon Wander Lopes escreveu Taguatinga tem memória. O primeiro livro conta sobre os primeiros 20 anos de Taguatinga. O segundo faz o retrato dos 30 anos.
Vive-se um tempo distante daquele de alvorada já regada a suor. Um tempo quando sonhos, trabalho e persistência eram sinônimos. Passaram-se 54 anos. A cidade continua sua sina triste, a de ser mera coadjuvante, sem autonomia, sem serviços básicos condizentes com seu perfil de metrópole. Continua carente. À mercê de decisões que não partem dos anseios do seu povo. Seus habitantes têm consciência que merecem ter mais, muitos mais, motivos para comemorar esta data. 
Neste dia 5 de junho de 2012, quando 54 anos se passaram, Taguatinga vai amanhecer coberta pelo azul celeste, abençoada por Deus. Muitos saberão reconhecer a importância da caminhada e baterão no peito para alardear que a emoção que sentem brota deste chão. Parabéns, Taguatinga! A fé em dias melhores é marca pioneira do seu povo!
Minha homenagem de gratidão à terra que me acolheu e envolveu!
Cléia Gerin