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terça-feira, 4 de novembro de 2014

GENTE DE BEM


Fomos colegas na terceira série ginasial.
Nossa turma tinha muita empatia e os professores percebiam nosso envolvimento de amigos. Os mestres que se destacavam eram os de português e matemática. Foi feita uma foto com eles. Já desbotadinha. Foi tirada no ano de 1965, no Cemab, em Taguatinga, DF.
Nosso professor de português permitia atividades literárias, nas aulas de sexta-feira. Três amigos imitavam o Erasmo Carlos - que tinha a alcunha de Tremendão – e cantavam músicas da Jovem Guarda. Nós os chamávamos "Os Tremendões". Eram o Célio, o Álvaro e o Divino. Tinha uma colega que recitava um poema sobre a neve, que não me lembro o título e autor; ou, ainda, aquele trágico poema A vingança da porta, de Alberto de Oliveira. A maneira enfática com que ela se apresentava demonstrava o esmero e empenho em impressionar. Lembro-me que o silêncio era palpável; se caísse uma folha, o barulho incomodaria... Tinha um gesto dela, de pôr a mão direita espalmada sobre o peito, que dava uma atmosfera de tragicidade ao que ela dizia...
Teve um dia que o professor me deu um ultimato e eu, que nunca tinha apresentado nada, fui à frente para minha performance. Escolhi “declamar” O Trem de Ferro, do Manuel Bandeira. Não passei dos três primeiros versos: “Café com pão/Café com pão/Café com pão...” Foi uma gargalhada geral! Quem disse que eu consegui? O professor ficou bravo: respeitem a colega! Mas a minha cara não era a de alguém indignada; eu também caí na risada! Ainda tentei umas duas outras vezes, mas qual, nem cheguei no “Virgem Maria/Que foi isso, maquinista?”. Fui intimada a sentar-me e fiquei prejudicada! Quem se apresentava, ganhava um ponto a mais na média.
E teve um dia que cheguei atrasada, mas a turma ainda não tinha entrado na sala de aula. Os professores estavam reunidos na secretaria, resolvendo o caso de uma transferência de aluno. Era muito comum o aluno mudar de escola e todos os professores se reuniam para assinar o documento que atestava rendimento e frequência do aluno, até então. Nesse dia, devia ser quase o final do primeiro semestre, quase toda a escola estava sem aula, com muita gente jovem espalhada pelo pátio. Lembro-me de ver uma amiga e vizinha de mão dada com o moço que era - desde que o vi pela primeira vez - minha paixão platônica. Meus lábios secaram, meu coração acelerou e minhas mãos suavam...
Quando me aproximei dos colegas de turma, percebi que me olhavam estranhamente. Alguém me disse: “Seu nome apareceu no jornalzinho da escola!” e me estendeu um exemplar. Li lá: “Que a Aparecida Cléia ama o Fulano é FATO. mas que é correspondida é BOATO!”.
O Fulano era o carinha que estava de mão dada com a moça que eu achava que era minha amiga. Queria que se abrisse uma cratera na minha frente, pra eu me jogar nela, de ponta cabeça!
O nosso bedel, o professor Marcelo Homem de Faria, abriu as portas de acesso ao pavilhão onde ficavam nossas salas e permitiu que entrássemos. À direita, e, logo na segunda porta, à esquerda, ficava a nossa sala. Quando me vi sentada, tentando organizar meus pensamentos, um tanto aliviada por não mais estar exposta no pátio, percebi que o silêncio imperava e olhei para a porta. O Fulano estava lá, em pé, encarando-me. Quase desmaiei! Lembro-me de ter posto os braços pra frente e de deitar minha cabeça sobre o descanso da carteira, aquele tampão que serve de apoio ao caderno... Só tive coragem de olhar de novo para a porta quando ouvi a voz da melhor amiga dizendo “ele já foi embora”... Foi essa mesma amiga quem disse o que eu deveria fazer: “no recreio, você vai estar de namorado!”. Ela mesmo se encarregou de cooptar um colega. Contei a história e ele se prontificou a fazer o papel de namorado, para abafar o “escândalo”. Devo ter chorado, porque ele concordou de pronto!
Na hora do recreio, ele e eu saímos da sala e rumamos para o pátio, na direção da quadra de esportes, onde, normalmente, ficavam os namorados, circulando, de mãos dadas... Não nos demos as mãos. Mas, rindo e conversando muito – éramos bons amigos! – passamos o recreio atraindo olhares e percebendo que os comentários se referiam a nós dois.
A falsa amiga se aproximou e perguntou se estávamos namorando. Meu falso namorado respondeu que sim e acrescentou um “tem algum problema?”.
Nem assim aprendi que não se deve fazer confidências pra qualquer pessoa. Muitas vezes mais, quebrei a cara porque confiei em quem não merecia minha confiança... A moça que me traiu era do científico, uma vizinha que era companheira no caminho para o Cemab. Contei pra ela sobre a minha paixonite porque ela era da mesma sala do Fulano. E ela usou minha história pra arrumar um namorado.
Meu amigo e salvador se chama Álvaro Cândido. Não me lembro do sobrenome. Ao longo da minha vida, foram muitas as adversidades e, nem sempre, pude contar com um homem de bem pra me ajudar a superar as circunstâncias. Um dia ainda hei de agradecer, devidamente, todo apoio que ele me deu. Nosso tempo juntos foi curto, mas intenso. Nossa turminha era ligada em aprendizado e era valiosa a interação entre todos. De pano de fundo, tínhamos todo aquele cenário de uma cidade chamada Taguatinga, que brotava do cerrado bruto, e servia de acolhida para gente de todos os lugares e credos.

Um comentário:

  1. No mês passado, dia 22 de outubro de 2014, a professora Clélia faleceu. Foi sepultada no Campo da Esperança, na quinta, dia 23. Não compareci. Queria muito ter ido despedir-me dessa que foi um baluarte da Educação. Incansável, com mais de 90 anos, ainda se encontrava na ativa. Publicou muitos livros, fez parte de muitas pesquisas importantes e estimulou muitos pesquisadores a buscar respostas para um entendimento mais eficaz em relação à importância da qualidade e efetividade do aprendizado proporcionado nas escolas. Descanse em paz!

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